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Uma grande carreira

por João Távora, em 02.07.07
Quando me falam em “grandes carreiras”, lembro-me logo daquela que foi a principal da minha vida. Refiro-me à do autocarro nº 9, de Campo d’ Ourique ao Bairro Madre de Deus e vice versa. Quando os meus pais se instalaram em Campo d’ Ourique, tinha eu 3 anos, foi inicialmente num prédio de gaveto a dar para a Manuel da Maia, por onde aqueles monstros verdes de dois andares iniciavam o seu percurso para a Avenida da Liberdade, Baixa, e enfim, para mais longe onde a minha imaginação não chegava ainda. Nas minhas memórias mais remotas, lembro-me de, com o meu irmão, nos sentarmos divertidos à janela daquele 1º andar a esperar a passagem dos autocarros mesmo ali em frente onde faziam a primeira paragem do percurso. O seu ronco era inconfundível. Na verdade, o fascínio estava na publicidade disposta entre as duas fileiras de janelas, e o anúncio do chocolate em pó Toddy era para nós o mais atractivo. Enquanto nos entretínhamos assim, não fazíamos grandes estragos.
Um dos meus grandes e secretos prazeres era que o exemplar do autocarro que me saísse em sorte tivesse porta atrás, para poder contemplar emocionado a lancinante velocidade do asfalto, logo ali a fugir para longe, tão depressa, tão depressa. Ou então, menos perigoso, era a felicidade de encontrar no piso de cima o banco da frente à esquerda livre, de modo que pudesse imaginar – discretamente para não parecer maluco – que eu era o omnipotente condutor do veículo, ali bem sentado aos comandos.
O facto de ter tido os meus avós maternos a viver na Avenida da Liberdade, estudado na Escola nº 6 da Bela Vista, no Liceu Pedro Nunes e namorado alguns anos lá para os lados de Sta. Apolónia, definitivamente deu à carreira nº 9 da Carris um grande protagonismo na minha vida. Com a passagem dos anos e com o uso, conheci as nuances dos potentes veículos AEC destinados àquele percurso. Às tantas eram nada menos que uma extensão do meu território, do qual conhecia todos os cheiros, ruídos e... perspectivas.
De resto, desse mito a que hoje em dia se chama “carreira”, a que eu chamo “Vida”, e que é a minha verdadeira aposta, tudo vai bem e recomenda-se, muito obrigado.
 
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10 comentários

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De Cartas de Londres a 12.07.2007 às 17:25

Caro JT, até sobre "o 9" se lembrou de escrever... ;-) Bem Haja!
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De cfa a 04.07.2007 às 22:48

Eu nessa altura confesso que não faltava às aulas. Mas ia ao CACO (este é o teste ao verdadeiro compodoriquenho).
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De Pedro Correia a 03.07.2007 às 22:48

Caro João, muito snooker e muitos matrecos joguei no Jardim Cinema...
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De João Távora a 03.07.2007 às 09:36

- Cara Cristina: Não se baldava às aulas para jogar à bola ou snooker no Jardim Cinema pois não?!:-)
Se calhar cruzámo-nos, mas eu acho que sou mais velho... o que faz imensa diferença naquelas idades. -- Tive "sorte" sim, Jorge, mas também só muito tarde andei de trolei!
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De Anónimo a 02.07.2007 às 23:25

O meu amigo é um felizardo. Em Coimbra não havia autocarros de dois andares. E já agora, nem escadas rolantes. Já viu a sorte que teve?!? Um abraço, Jorge Lima
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De Pedro Correia a 02.07.2007 às 21:21

Pois eu andei também muitas vezes nessa "carreira".
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De cfa a 02.07.2007 às 19:52

Pois também eu vive em Campo de Ourique e andei na Manuel da Maia e no Pedro Nunes. Será que nos conhecemos, colega corta-fiteiro?
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De fallorca a 02.07.2007 às 19:39

E quando é que sai o livro?
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De escurão a 02.07.2007 às 17:37

Carris? que é isso da Carris? Nunca ouvi falar, eu só conheço o Barraqueiro, que vou extinguir não tarda nada.
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De Anónimo a 02.07.2007 às 17:34

Bom mesmo vai ser quando, seguindo a proposta da sra. arquitecta Helena Roseta, os ciclistas começarem a transportar as suas bicicletas nos autocarros da cerreira nº 9.

E então nas carreiras em que os autocarros não são desses «de fole», vai ser mesmo muito bom.


PS- A sra. arquitecta costumará mesmo andar de autocarro em Lisboa? É que dá para duvidar, e com fortes razões para isso.

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