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A cidade sem crianças

por João Távora, em 25.05.12

 

Até estranhei ontem ao final da tarde ao ver um punhado de divertidas raparigas, talvez entre os 9 e os onze anos, trajando farda de colégio a atravessar o jardim em frente ao meu escritório. Isto é coisa rara por estes dias, em que o contacto dos miúdos com a rua, com a cidade, é feito do asséptico e seguro habitáculo do automóvel dos pais, pelo menos até à idade do liceu. A verdade é que actualmente também não há muitas crianças, aspecto que é decisivo para o seu desaparecimento da paisagem urbana.
Muita gente surpreende-se quando conto que antigamente eu e a maioria dos meus colegas a partir dos oito ou nove anos íamos e vínhamos da escola pelo nosso pé. Era aos magotes que a miudagem se juntava gradualmente no caminho das aulas, ou se dispersava ao final da tarde pelos trajectos para suas casas. Claro que às vezes chegávamos mais tarde por conta duns minutos a jogar aos pontapés numa lata velha, ou embasbacados numa montra de brinquedos. Claro que uma ou outra vez tivemo-nos de esconder dos miúdos do Casal Ventoso. 
De resto o pretenso aumento de inseguraça da modernidade, não passa de uma ilusão promovida pelo excesso de informação. Os dias que corriam há 50 anos tinham os seus perigos (eu lembro-me bem de algumas aflições por que passei). Mas as famílias tinham mais filhos, e não se podiam dar ao luxo duma paranóia securitária. Sem dúvida a contracepção trouxe uma radical mudança de mentalidades, e estamos a construir uma sociedade de "filhos únicos", com o que isso tem de bom e de perverso. 

Os tempos hoje mudaram em muitos aspectos para melhor. Mas do que eu estou certo é de que uma cidade sem crianças nas ruas é um muito mau sinal. 

 

Imagem daqui



1 comentário

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De Não sei, não a 25.05.2012 às 12:36

Havia perigos, sim, mas não tinham comparação com os que há hoje (e não apenas porque nessa altura havia censura e não apareciam nos media).

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