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Não foi nisto que eu votei e não é para isto que eu pago

por José Mendonça da Cruz, em 18.05.12

Não me surpreende nem indispõe a austeridade. Depois de anos de irresponsabilidade alarve e de gestão satisfeitamente danosa nem era possível outra coisa. Mas surpreende-me e indispõe-me que a política governamental seja norteada pelo persistente e exclusivo desejo de confiscar bens e colectar ainda mais dinheiro.

Não sinto a falta (e, aliás, agradeço a recusa) de «políticas de crescimento» tal como o PS as entende - os gastos em rendas «solidárias» e infraestruturas que produzem ilusões passageiras e nos trazem aonde agora estamos. Mas indigna-me a inexistência de políticas de crescimento tal como as prometeu o partido do governo, o programa do governo e o primeiro-ministro: a reforma da Justiça, a reforma do fisco, a reforma da legislação imobiliária, as reformas para mudar este Estado falsamente assistencialista e abusivamente intrometido.

Não me agrada, mas compreendo, a geral poupança em prestações sociais, um nível de impostos «insustentável» (diz Passos Coelho), um geral aperto. Mas aliena-me, talvez irremediavelmente, que este Governo «liberalizante» não tenha um pensamento, um gesto, uma medida para promover a concorrência, antes preservando e promovendo monopólios ou oligopólios, como o papel dominante e asfixiante da Galp nos combustíveis ou da EDP na energia.

Não me preocupa que um liberal com obra publicada seja titular de uma pasta «demasiado grande», «ingerível», «mastodôntica». Mas envergonha-me ver esse liberal classificar, sem um estremecimento, de «momento histórico» o anúncio dos cortes de rendas no sector energético que, mais uma vez, deixam incólume a EDP - e me fazem tomar como realmente justa a frase de Seguro sobre um governo «forte com os fracos e fraco com os fortes».

Não temo - e, aliás, desejo - uma economia livre, e não encaro, em teoria, as privatizações como acções de lesa-pátria. Mas desgosta-me um governo que (por avidez de dinheiro, sempre, e tomando os eleitores por parvos) proclama as excelências da venda da EDP à Três Gargantas, e depois cala as gravosas cedências e compromissos que desvalorizam substancialmente o negócio. E considero sombrias, altamente suspeitas e inaceitáveis as negociatas cimenteiras de bastidores - anti-democráticas, obscuras e lesivas, até prova em contrário. 

Não tenho saudades de ladrões de gravadores, mentirosos compulsivos, gestores daninhos, clones presunçosos ou piores ministros da Europa. Mas dói-me ver uma ministra defender como futuro a protecção do lince, enquanto, com inultrapassável cinismo, lança «taxas de segurança alimentar» para sacar mais uns cobres ao que ainda sobrevive e mexe.

Não tenho saudades - e tenho, aliás, ainda nojo - dos erros e negociatas do anterior executivo, sempre expedito no disparate e sonoro na respectiva propaganda. Mas desilude-me que uma das poucas decisões razoáveis, a da mudança da lei do arrendamento, agora arraste pés e acumule adiamentos - com assinalável desprezo pelos planos e necessidade de previsibilidade de senhorios e inquilinos.

Não compreendo ainda hoje como foi reeleito um primeiro-ministro socialista que já deixara bastamente claro que tinha a irresponsabilidade como método e a ilusão como política. Mas nem por isso me parece mais tolerável a abulia perante acontecimentos graves, como a manutenção do director dos serviços secretos no lugar, a não atribuição de responsabilidades e (como se nada se tivesse passado) a ausência de uma reorganização profunda e séria, de uma refundação, mesmo.

Não tenho o menor respeito por quem gere como se o dinheiro aparecesse sempre. E vou-o perdendo a quem permite que as autarquias não só não poupem, mas contratem ainda mais gente, e a quem deixa murchar até morrer uma alegada «reforma do poder autárquico».

Não culpo o actual governo - e culpo o governo anterior inteiramente - pelo presente nível de desemprego. Mas não considero normal que a um primeiro-ministro falte tão gritantemente a formação humana e cultural que lhe evitasse dizer brutalidades e parvoíces.

Gosto de ver Sócrates e seus capangas no limbo político - embora preferisse vê-los politicamente mortos e enterrados.

Mas não foi a isto que eu dei o voto.    



7 comentários

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De Nuno a 18.05.2012 às 20:59


Este post só mostra que este governo não é assim tão diferente dos que o antecederam. Para quem acreditou que agora é que ia haver uma grande mudança, a desilusão é ainda maior.
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De Anónimo a 18.05.2012 às 21:14

Concordo. É um alerta importante e que gostava de começar a ver repetido em vários editoriais dos nossos jornais. O governo, que começou cheio de boas intenções, parece não estar a conseguir resistir aos grupos de pressão. Pressão sobre o governo é importante porque ainda está a tempo de arrepiar caminho. A oportunidade de implementar as reformas estruturais é única e sem elas o país estará condenado a mais empobrecimento. Garantir os mínimos do memorandum pode não ser suficiente. Não chegar sequer a implementar o memorandum, é uma irresponsabilidade. Este governo deu autonomia às finanças. Os resultados vêem-se. Tivesses o ministro anterior a mesma liberdade e não teriamos chegado aqui. Mas a mesma autonomia garantida às finanças é também necessária na economia. E, mesmo só lendo os jornais, é fácil de perceber que há forças no governo superiores às forças do ministério, que minam a acção deste. Sobre o desemprego, não vejo razões para criticar o pm. Quem não ficava irritado ao ouvir uma série de imbecis a dizer que o que é preciso crescimento e ao mesmo tempo usa a miséria alheia para fazer política? 
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De André Miguel a 19.05.2012 às 12:25


Clap! Clap! Clap!
Faço minha as suas palavras.
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De Bruno Afonso a 19.05.2012 às 18:01

Gostei do texto. Não gostei do «nojo». Sou madeirense, para ler isso basta-me o Jornal da Madeira. :)
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De Velho da floresta a 20.05.2012 às 20:35

Muito bem.
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De c. a 20.05.2012 às 20:47

É o que sinto. Infelizmente, previa mais ou menos isto.

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