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A verdadeira Revolução foi a entrada na CEE

por Maria Teixeira Alves, em 25.04.12

Estive hoje à tarde no Chiado (paredes meias com o Largo do Carmo) e nem sinal de cravos ou chaimites, nem música nas ruas, nem ninguém que não estivesse normalmente a ver montras e a ir à Fnac. Mal se dá pelo 25 de Abril, se eu não ligasse a televisão poderia perfeitamente passar o dia sem saber que se comemora a Revolução que supostamente mudou Portugal. Não me lembro muito do Portugal de antes do 25 de Abril, tenho uma vaga ideia de Marcelo Caetano na televisão a preto e branco e pouco mais. Lembro-me do início do anos 80 e tenho uma ideia provinciana dessa época (ainda hoje tenho uma ideia de Portugal como um país pouco evoluído, muito preconceituoso, vaidoso, manhoso, pouco culto, e tenho pena). Mas há uma coisa que eu me lembro, de um salto qualitativo entre o fim dos anos 80 e os anos 90, gloriosos anos 90. Isso devemos a quê? À entrada na CEE, que é hoje a União Europeia. 

Portugal é membro de facto da União Europeia desde 1 de Janeiro de 1986, após ter apresentado a sua candidatura de adesão a 28 de Março de 1977 e ter assinado o acordo de pré-adesão a 3 de Dezembro de 1980. A verdadeira Revolução para Portugal foi a entrada na União Europeia, o resto é folclore.



17 comentários

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De Pedro Delgado Alves a 26.04.2012 às 03:00

Não deu pelas comemorações porque não passou na Avenida da Liberdade nem no Rossio, onde apesar da chuva por vezes intensa encontrava cravos, milhares de pessoas, cravos, chaimites, cravos e música. Ah, e cravos, já disse?

Quanto ao resto, de facto não ter memória é uma coisa chata. Mas pior do que isso é fazer por esquecer. Pois não acredito que não saiba, ainda que só tenha aprendido mais tarde, que havia uma série de traços do Portugal anterior a 74 cujo desaparecimento no dia 25 de Abril se pode considerar revolucionário: uma ditadura, censura, uma ditadura, ausência de eleições, uma ditadura, guerra colonial, uma ditadura, polícia política, uma ditadura, repressão sobre os estudantes, uma ditadura, ausência de direitos laborais sérios, uma ditadura, inexistência de sindicatos livres, uma ditadura, isolamento internacional, uma ditadura, inexistência de serviços de saúde universais e uma taxa de mortalidade infantil medieval, uma ditadura, analfabetismo galopante, uma ditadura... E, é verdade, já me esquecia, uma ditadura...

Se calhar para si era só um senhor com programas de televisão cinzentos como o regime. Para muitos era a prisão, a devassa da vida privada, os ossos partidos, a miséria de não ter pão e a negação da dignidade elementar. Acabar com isso, revolucionário? Concerteza que não.

Aposto uma sardinhada em como não vai publicar o comentário. Mas mesmo ficando só entre nós, espero poder ter pelo menos motivado uma necessidade de pensar duas vezes antes de voltar a insultar quem foi libertado a 25 de Abril de 74. Para os carcereiros e seus amigos é que, de facto, a diferença se calhar foi pouco notória.  

Pedro Delgado Alves

PS: Diz que ser uma ditadura também não facilitava entrar na CEE, já que se fala nisso. Aparentemente o folclore ajudou qualquer coisinha.
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De Maria Teixeira Alves a 26.04.2012 às 14:18

Olhe, hoje há a ditadura do pensamento único, que é mais preverso porque é uma falta de liberdade subtil, e como tal não se pode combatê-la com chaimites, nem cravos. Se eu pensar uma coisa fora do políticamente correcto, e se o pensar alto, surge uma vaga de fundo que desacredita a pessoa que fala. Hoje não é a opinião que é ouvida, mas antes a credibilidade mediática da pessoa que a emite, credibilidade essa que é feita em cima de coisas fúteis. Hoje há a devassa da vida privada oficiosamente. Sempre que alguém incomóda vai-se tentar descobrir coisas da vida privada para desacreditar a pessoa. A diferença é que esta subtileza do poder de lobbies é desonesta, é um poder que não tem cara. Hoje eu se quero ter médicos e exames e dentistas tenho de ter seguros privados, que pago em simultâneo com o que pago para o SNS que não uso. Enfim... Eu não vivi no Estado Novo, mas vendo o conceito de família da altura, não tenho uma dúvida que as pessoas eram mais felizes. Tinham-se umas às outras. Talvez o problema do ser humano comece quando lhe dizem que têm liberdade de escolha ilimitada, porque se desnorteia no meio de tantas possibilidades e angustia-se. A liberdade como causa de luta é mais nobre do que liberdade como ela é no dia-a-dia. Isto é, cheia de limitações

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De Gonçalo a 26.04.2012 às 20:17

Tanta confusão nessa cabeça, Maria. Escusa de responder com filosofias e com generalidades sobre o SNS.

Vendo o conceito de família naquela altura, diz?


Para mim, o conceito de família daquela altura era bem simples.

Dos meus avós, de 6 sobreviveram 4. Dois morreram ainda meninos. Dos 4, as 2 aprenderam a coser, um ficou a cavar e o outro foi para pedreiro. Era bem esperto, o meu avô. Lia, lia muito, gostava de aprender, de ler, de saber. Mas, enfim, sendo pobre e alentejano, sabendo, desde cedo, escrever "perverso",  foi para as obras, porque ganhava mais uns tostões (literalmente) para ajudar a família.


A minha mãe dividia a comida com o meu tio. Para ele o lombinho, era mais novinho, para ela a cabeça. Não é brincadeira. Às vezes não havia nada. Um meu outro tio morreu à nascença. Mais tarde, o pouco dinheiro que havia serviu para "por o meu tio a estudar". À minha mãe restou o que se reservava a tantos: a quarta classe, os rios e as estações e apeadeiros que tantas saudades parecem hoje evocar.


Do outro lado, o lado paterno, o meu avô trabalhou como um camelo, até já não ter forças, tolhido por quase 50 anos a trabalhar, até ao dia em que já não tinha préstimo e foi posto a andar. Antes de morrer ganhava uma pensão de 18 contos. Dezoito mil escudos. 80 euros por 50 anos a trabalhar de sol a sol. A minha avó, criada de servir nos mesmos patrões. O meu pai comia bifes. Coisa rara, porque tinham o privilégio de poder contar com as sobras com que a patroa os deixava ficar, às escondidas. 


Aos 6 anos manobrava sozinho a maquina de cortar arame para os fardos. Veio com 11 anos sozinho para Lisboa (felizmente com os dedos todos). Trabalhou nas docas a fazer parafusos, depois como soldador, até ir para o ultramar, com milhares de outros miúdos com 17 e 18 anos, para morrer por alguma coisa que eles se calhar nunca souberam.

Da família, e já que aqui estamos, ficaram lá dois primos. Outro voltou. Ainda cá está, se calhar com menos sorte. Uma mina, um unimog e milhares de pequenos pedaços de metal que ainda hoje, volta que não volta, o corpo vai expulsando à custa de uma dor que nem a Maria Teixeira Alves nem eu alguma vez conheceremos, felizmente.


E podia continuar por aqui, mas não consigo. Só tenho mesmo muita pena que  nós, como país, não tenhamos, apesar de tudo, conseguido melhor do que posts como o seu.
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De Joao Manuel Vicente a 27.04.2012 às 05:25


clap, clap, clap, clap

(nada mais a dizer senao que a sua resposta foi perfeita, por justa, acertada e certeira)  
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De Pedro Silvério a 27.04.2012 às 01:52

 Mas Maria, preferia não ter qualquer tipo de liberdade?É que repare, como diz, se alguém pensa numa coisa que se desenquadra do politicamente correcto surge uma vaga de fundo que a desvirtua, desacredita. No Estado Novo, se alguém dissesse alguma coisa fora do politicamento correcto não era desacreditada. Provavelmente, essa pessoa iria presa, e se saísse da prisão, reitero, se saísse, provavelmente era com a face toda quebrada.


 Mas a Maria não se importa com a saúde dos seus pares? Paga concomitantemente um serviço privado e um outro, um público, que não usa? Realmente isso deve de ser um drama. O SNS que a Maria não usa, não é exclusivamente seu! Viver em sociedade tem os seus custos( e isto não é uma nuance que impere apenas nos regimes democráticos). O SNS para poder ser beneficiado por todos tem de ser financiado por todos em função dos rendimentos de cada um. Se recorre a serviços privados é bom sinal, é sinal que os consegue pagar! Pense naqueles que não têm outro acesso à saúde sem ser o SNS.
  
 Mas Maria, as pessoas ainda se têm umas ás outras, em especial, numa altura em que há uma necessidade sentida em criar laços de solidariedade de facto.   Naquela altura, realmente, as pessoas, em comunhão familiar, deviam de ser muito felizes.... Deitar os filhos ao final do dia de barriga vazia, depois de jantar, em que, muitas vezes nem se comia nada deveria de dar um especial regozijo aos pais.


 Mas Maria, ainda há uma coisa que concordo consigo, sabe? Realmente a liberdade como causa de luta é bem mais nobre do que a liberdade como ela é no dia dia. Mas não concordo quando diz que o problema do ser humano comece quando tem liberdades ilimitadas. E não concordo, por que tais liberdades ilimitadas
, simplesmente, não existem. Todas as liberdades têm limites. Essencialmente esses limites são recortados por Lei. É assim que vigora um Estado de Direito Democrático, arquétipo da liberdade. 


 Estado esse que não entende, leia-se!


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De Faust Von Goethe a 26.04.2012 às 11:23

Maria, não podia concordar mais contigo.
No entanto, a nossa adesão ao Euro, com o assinar do tratado de Maastrich, está a sair-nos do pelo. E de que forma!
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De Pedro Delgado Alves a 26.04.2012 às 12:30

Cara Maria Teixeira Alves,
Fico-lhe a dever uma sardinhada....

Pedro Delgado Alves
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De Pedro Pontes a 26.04.2012 às 17:21

Se calhar ser uma Ditadura não ajudava nada a entrada na UE.
E claro que sim, uma família no tempo do Estado Novo era muito mais feliz (ignorante, analfabeta, seguidista, pobre, tacanha, com medo de dizerem o que pensavam, de verem os filhos partir para a Guerra ou de terem um filhote mais afoito que enfrentasse o deus feudal e fosse parar ao Tarrafal)
Valha-nos Deus! Medonho, como ainda temos gente assim!!!
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De João Távora a 26.04.2012 às 17:51

Ó Pedro Pontes: essa coisa de atirar para o passado indiscriminadamente todos os seus medos e fantasmas tem algo de patológico. Talvez se remedeie com um psiquiatra e muitos comprimidos.
As melhoras.
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De João Távora a 26.04.2012 às 17:53

De notar, que eu nunca disse (nem pensei) que a ditadura era coisa boa. 
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De André Miguel a 26.04.2012 às 22:13

Eu nasci depois do 25 de Abril, pelo que não senti na pele a ditadura.
Não compreendo muito bem como é que depois de conquistada a liberdade neste país hoje é quase crime assumir-se liberal, a direita é o demónio, vivemos uma ditadura fiscal, temos uma justiça arbitrária, continuamos os mais pobres da Europa e emigramos tanto como nas décadas de 60 e 70...
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De Eu não sou de intrigas a 27.04.2012 às 02:23

Eu não sou de intrigas, mas deixei um comentário no blog Aspirina B a criticar as críticas da Isabel Moreira a este post, mas ela que defende a liberdade, não os publicou. Ao contrário o Corta-Fitas, que é acusado de não defender a liberdade, publicou todos os comentários, mesmos os críricos. Ora aí está a resposta à pergunta, aonde está a hipocrisia? Quem é a estúpida aqui? A MTA ou a Isabel Moreira? Não há dúvida que o pêndulo pende para a segunda.
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De Outro ás da esperteza a 27.04.2012 às 11:00

 O seu post está lá publicado desde as 17.40 de dia 26 de Abril do ano 2012 da Graça de Nosso Senhor.

Se não é de intrigas é simplesmente parvo.
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De Eu cá não sou de intrigas a 27.04.2012 às 15:06


Ah! que esperteza saloia... à hora que eu publiquei este comentário estavam lá 7 comentários e não constava nenhum crítico... agora estão lá 8.....
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De Bruno a 27.04.2012 às 13:20

Prezada Maria Teixeira Alves
(uso a versão PT-BR para cumprimentar, pois "Cara Maria...." soa muito estranho para mim)

Do seu post guardo e compartilho "ainda hoje tenho uma ideia de Portugal como um país pouco evoluído, muito preconceituoso, vaidoso, manhoso, pouco culto,...". Penas são para as galinhas...

Creio que de forma sintetica é isso mesmo. Nem vale a pena detalhar, explicar, desenvolver. Para bom entendedor meia palavra basta.

Da minha experiencia com povos a norte sinto mais simplicidade na forma de viver, mais lealdade na forma de se relacionar.

Também sem me estender, palavras de um amigo profissional de alto gabarito na City: humility comes before honour.

Cumps, BR
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De Maria Teixeira Alves a 27.04.2012 às 15:11

Humility comes before honour.. nem mais
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De Maria Teixeira Alves a 27.04.2012 às 14:59

Mas que maçada ser citada num blog de uma pessoa por quem tenho tão pouca admiração (intelectual - de resto não a conheço nem do eléctrico - nem quero, livra, foge do erro). Achei graça publicar um comentário ao post, que tem desenvolvimentos e uma resposta civilizada, mas sem publicar estes...

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