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Um minhoto na Capital

por João-Afonso Machado, em 29.03.12

Há quanto tempo não nos encontrávamos! Até ela manifestou uma enorme surpresa, em plena Feira da Ladra, aonde tão raramente se deslocava. E esquecia já a sua companhia, uma jovem quarentona de óculos na ponta do nariz, aparentando erudição, cavando aplicadamente uma montanha de livros velhos franceses. Também eu me cheguei para lá, por prudência, temendo alguma pasada de existencialismo, eu e a minha alergia aos pólens de Maio de 68. Mas sempre atrás da minha amiga, então quais eram as novidades?

Fomos andando, Feira fora, anotando esta e aquela bizarria.

- A Feira está mais pobre...,

comentei, levando logo a contestação

(- Nem pense!),

sem hipótese de replicar porque mais atrás um grito triunfal indiciava a mineração de uma qualquer enorme pepita (Os Miseráveis... banalizei cá com os meus botões...), facto a que nenhuma importância prestou, empenhada como ia na defesa da sua Feira alfacinha.

Sempre lhe consegui explicar, como aquelas havia-as às duzias no Norte, mas sem chineses nem paquistaneses, repletas de velharias das mais velhas. Ainda lhe mostraria a minha colecção de postais antigos, a magnífica catana na parede da sala...

- A catana? Para quê uma catana?

Pois, a catana tem imensas utilidades, pode até ajudar numa mentira heróica e oportuna sobre a Guerra Colonial... E enchendo-me de coragem, como se de catana na mão, convidei-a para almoçar ali na Graça. Aceitou.

Escolhemos bacalhau à Brás. Ah!, fosse lá em cima e ela conheceria umas lascas a sério, emergindo do azeite a ferver, das batatas e dos grelos, com uma garrafa de tinto do Douro a empurrar...

(Ainda assim, mil vezes aquelas travessinhas de alumínio com uma azeitona no topo do que o famigerado «hoje há pipis»!)

Mas a sua maior curiosidade residia nos motivos da minha ausência:

- Mais alguma fadista de catana na liga?

Sorri e expliquei o necessário. Fora uma senhora minhota, belíssima, a sua voz tão meiga, sempre à mesma temperatura... Só que...

E não adiantei mais razões. O romance fora de pouca dura e o regresso a Lisboa e à investigação tornou-se a única realidade à minha frente nessa promissora Primavera. O resto do almoço decorreu amenamente, descontraidamente.

Quando nos levantámos ainda pensei uma visita a S. Vicente, ao Panteão...

- Ao Panteão?!

espantou-se a minha amiga, tão veementemente que - perdoem-me os Senhores nossos Reis - vislumbrando aquelas mangas já para cima dos cotovelos, as pulseiras sempre tilintantes, o relógio enorme, garrido (muito fashion, como ela diz), entrei no 28 atrás das suas palavras, ao cimo da Rua da Voz do Operário, para, quisesse Deus, nunca sairmos ante de S. Bento, conforme é, actualmente, tão do agrado dos lisboetas.

 

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