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Salazar Copy Right

por Jorge Lima, em 16.03.12

 

A razão por que sou pessimista em relação ao futuro do meu país é que depois de a troika se ir embora com as contas saldadas, o que, se tudo correr bem, ocorrerá já neste século, o pais continuará infestado de portugueses.

 Deus sabe que eu gosto tanto de Salazar como de martelar dedos. Faço essa declaração de desinteresse para me pronunciar, leia-se, desabafar, sobre a recente iniciativa da Câmara de Santa Comba Dão de registar a marca «Salazar» para vender vinho e chouriço.

A coisa é irónica. Eu, se fosse do Bloco de Esquerda, estaria radiante. Qualquer esquerdista do rectângulo tudo deve fazer para denegrir o ditador. E haverá melhor maneira de denegrir alguém que pôr a sua memória a vender chouriço?

Só que. Estamos em Portugal, desembocado directamente das trevas, lá está, salazaristas, para as trevas ianques. Dos ranchos folclóricos, do SNI, da Mocidade, para os recordes do Guinness. A maior feijoada do mundo, o maior bolo-rei, o reality show mais ordinário. Onde um chunga, se aparecer, parece fino, e cobra pelas aparições. Onde o Zé Castelo Branco sobe mais alto quanto mais baixo desce, e o Futre ressuscita do coma por dizer chinesices. Onde o Otelo acha que se devia derrubar o regime e ainda lhe respondem, e ainda lhe lavam a roupa, e tudo. Do Neolítico, ao fim de quase 40 anos de democracia, passamos directamente para o Paleolítico. E no Paleolítico vale tudo.

 «A nossa é sempre uma perspectiva objectiva e histórica, porque os juízos de valor não têm de ser feitos pela autarquia, têm de ser as pessoas, os historiadores, os investigadores [a fazê-los]. Nós temos apenas de demonstrar a nossa convicção de que o que estamos a fazer é útil para o concelho e para a região. E se temos um vinho 'Memórias de Salazar' é porque sentimos que as pessoas procuram essa ligação quando nos visitam», disse o autarca. Que é do PSD, mas que é que isso interessa?

 Caramba, um bocadinho de dignidade. Tenho amigos que admiram o ditador. Respeitam a memória de Salazar. Eu respeito-os, pese embora esse pormenor. O que não consigo é respeitar quem se vende, e à mãe,  e a um morto-vivo pelo bem da sua terra. E vende a sua terra, só porque vale mais falarem mal de nós que não falarem. Pensem mas é porque fizeram a vossa terra tão insignificante que para venderem chouriços precisam de invocar o santo nome de um ditador. E não, quando digo a vossa terra, não me refiro a Santa Comba, ao concelho, à região, refiro-me a Portugal. Ah, e só mais uma coisa: escusam de registar raspadeiras e botas-de-elástico. Já estão.


 

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8 comentários

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De Assino por baixo a 16.03.2012 às 09:59

Infelizmente, o que está a dar são as "criatividades" mais básicas e burgessas.

Eu não sou berloquista, mas nem vinho nem chouriço dessa marca tenciono provar.
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De Rigoletto a 16.03.2012 às 12:56

Ehehe , até de uvas se faz vinho. Costumava-se utilizar esta expressão para designar o vinho a martelo aka zurrapa.
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De rimualdo a 16.03.2012 às 10:36

Em abril de 1974, tinha 19 anos e um curso ténico. Era oriundo de uma familia pobre, composta por mais 5 irmãos.Contavam-se pelos dedos aqueles que seguiam os estudos, depois da conclusão da 4ª classe. Os meus pais viviam da agricultura. De uma agricultura que não tinha subsídios e o dinheiro entrava na carteira " será que os meus pais tinham carteira?" em função da estabilidade agrícola. Do professor primário, os meus pais eram os únicos que o orgulhavam. Era um professor rígidio, mas tinha o prazer de ensinar. O meu irmão mais velho concluiu a 4ª classe e ficou a trabalhar na quinta que pertencia a uns professores liceais e cujos rendeiros eram os meus pais. Quando o segundo irmão concluiu a 4ª classe o professor primário vira-se para o meu pai e faz-lhe uma pergunta: Zé, que futuro vais dar aos teus filhos? Olha que é uma perda não fazeres um esforço redobrado em não lhes permitir o acesso aos estudos. O Zé pensou, pensou e numa localidade onde os ricos, não punham os filhos a estudar, o Zé enviou 5 para a Escola Técnica e para o Liceu. Isto passou-se na década de 60. Mas os filhos do Zé não tinham a liberdade total e fazerem o que lhe ia na alma. O perder anos nos estudos, mas com aproveitamento, era meia vitória. Daí as frases do Zé ao pedir aos filhos para que aproveitassem ao máximo a oportunidade. Com todo o esforço este pai deu aos filhos o máximo que lhe podia dar - um curso. Nas escolas, tudo era rigorozo e levado ao pormenor, não querendo com isto dizer que todos eram bons alunos e bons rapazes, não, a maioria deles até nem concluía o curso antes dos 20 anos, enquanto os filhos do Zé concluiam aos 15/16 anos em função da idade para a qual entraram para a primária. A dureza da vida não dava para luxos, muito menos para politicas. Naquela aldeia também ninguém conhecia tais práticas, porque cada qual se embrenhava nas suas tarefas. Mas os jovens desta época tinha em mente uma missão - a vida militar. Os filhos do Zé foram todos militares e na guerra de África. Felizmente regressaram inteiros. O sistema de então, se os conhecia, não se fez rogado. Não vou aqui relatar o que me vai na alma sobre o oportunismo do 25 de abril de 1974 e avanço para a pleuro-democrácia deste país, onde não há disciplina mas pune-se quem reage. E é aqui que eu vou reagir. Reagir aquela invasão policial que me entrou em casa, para verifar se eu era algum cadastrado. Isto passou-se em 2000. Uma autoridade policial e judicial que não foi capaz de colocar na ordem uma vizinhança ruidosa. Uma vizinhança que não respeita o seu semelhante. Mas invadiram-me a casa porque tivera a ousadia de enviar às entidade ditas competentes de que seriam responsàveis pelas consequências ao não imporem ordem no condominio onde residia. Fui acusado pelo MP pela acusação de ameaça e por falsificação de documentos. Nada se provou e ao fim de um ano o processo foi arquivado. Volto à carga sobre o ruído e um procurador do mesmo Tribunal, arquiva-me o processo porque o meu assunto nada lhe diz.
Depois envolvi-me num segundo caso. Os dinheiros públicos sob o domínio de dirigentes incompetentes. Durante 40 anos a trabalhar na AP e a ver grandes despesas inúteis, um dia disse para os meus botões-basta, assim não dá para continuar nesta situação de aguentar tal despesismo. Demito-me de funções e explico aos colegas dos motivos pelo qual me demitira. Não estava de acordo em tolerar tanta incompetência. Ora se o penso, melhor o faço e envio um mail a todos os colegas da Direção. 80% dos colegas e dirigentes deram-me razão e valor pela coragem. Resultado: 1 ano de inatividade profissional aplicado pelo diretor geral. O caso também seguiu para Tribunal, interposto por um dos ditos lesados. Em Tribunal perguntam-me se queria chegar a acordo com o queixoso. Disse que não. Conclusão: foi-me aplicada a pena de multa de 150 dias a 10€/dia, os impostos ao tribunal e ainda 1000€ de indemnização ao incompetente funcionário.
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De Anónimo a 16.03.2012 às 14:58

É lamentável que uma terra tenha a ideia de usar para se promover a imagem de um homem que é moral e politicamente culpado da morte e da tortura de tantos portugueses, entre eles Catarina Eufémia, abatida quando estava grávida, e Humberto Delgado. Para os mais novos, nasci em 1960, vivi no fascismo e sei o que eram aqueles tempos. Só existia mais segurança nas ruas, porque as polícias estavam em todo lado. De resto a maioria vivia na miséria, sem saúde e educação como devia ser. Aliás este governo está-nos a levar para lá, para esses tempos negríssimos. Salazar nunca!
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De tric a 16.03.2012 às 18:19


eu só espero é que se decidam o mais rapidammente a implementar o espirito do modelo económico-social de Salazar! o modelo económico que tirou Portugal da fome!!!  Mas as elites veneram maais quem nos conduziu para a miséria económica...esta Republica e a Monarquia Liberal estão mais que podres! Monarquia Absoluta forever! Rei é Rei...não há ca palhaçadas liberais...
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De atento a 16.03.2012 às 20:45

 tantos "comunas" (senhores da verdade e tudo boa gente , claro!) eriçados .
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De Réspublica a 17.03.2012 às 17:54

É vinho, vão vender vinho salazar... e deve ser forte atento às ideias de quem o bebe...
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De Octávio dos Santos a 17.03.2012 às 18:17

Já agora, porque não uma linha de calçado? «Botas Salazar» teriam de certeza muitos compradores. Melhor do que isso, uma linha de mobiliário: como é que «cadeiras Salazar» não seriam um sucesso?

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