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As passeadeiras:

por Vasco Lobo Xavier, em 01.03.12

 

Entre as pequenas maravilhas deste pequeno país constam as suas singulares particularidades, únicas no mundo. Um mimo de exemplo são as passadeiras, presentes no mundo inteiro e inexistentes em Portugal: aqui só existem passeadeiras. É verdade! Em Portugal, as pessoas pensam que as passadeiras não servem para atravessar arruamentos, mas sim para passear de um passeio para o outro. Basta ver a velocidade inversamente proporcional com que as pessoas se atiram para as ditas e as atravessam.   

 

Se descontarmos os de mais avançada idade, porventura mais habituados a menos direitos, a fatalidades irremediáveis, e que atravessam a rua com rapidez e brilho agradecido nos olhos ao condutor expectante, por vezes até com um aceno simpático, o passeador habitual  de uma passeadeira normal é, em Portugal, um vaidoso incorrigível. Ele mergulha de cabeça na passeadeira e, imediatamente a seguir, bamboleia vagarosamente, a passo de elefante cansado em cortejo fúnebre, sobre as listras brancas pintadas no asfalto (quando existem).  Na generalidade dos casos nem olha para o condutor assustado, que se viu obrigado a travar a fundo para não o atropelar. E, quando olha, fá-lo com uma altivez nunca vista no melhor lidador de toiros quando vira as costas à fera finalmente subjugada.

 

De particular referência as passeadeiras junto aos Liceus. Nem Job teria resistido a malhar nuns quantos. A matilha ululante, de calças abaixo do rabo, atira-se em manada para a passeadeira para, imediatamente a seguir, seguir ordeiramente em fila indiana, com um metro de distância entre cada índio, passo lento, passo a passo, passas tu? passo eu?, parando para cumprimentar demoradamente os colegas que vão na direcção oposta, virando-se para trás para um recado atrasado, ou para um abraço mais demorado ao colega que não viam desde a manhã, ou para recuperar o telemóvel ou os headphones caídos.

 

Os headphones são uma questão interessante. Sofro de uma curiosidade mórbida: gostava de saber quantas pessoas já sofreram acidentes por andarem a pé, a correr, de bicicleta, trotinete ou de qualquer outro meio com aquilo enfiado nos ouvidos. E por se terem atirado para as passeadeiras. Tenho imensa pena do ser humano, mas parece que há uns meses atrás um não ouviu o metro a chegar, com todos os seus apitos, por causa dos headphones que levava aos berros. Nenhuma relação com um condutor que, julgo que em Braga, há tempos perdeu a cabeça e sovou o adolescente  que se passeava divertido de um lado para o outro na passeadeira.

 

Pasmo com a facilidade com que as pessoas se atiram para passear nas passeadeiras e a leviandade com que lá se passeiam. Orgulho-me de já ter salvo a vida a um punhado daquelas que, em arruamentos de duas faixas no mesmo sentido, param o condutor da direita e atravessam sem olhar, sem atentar se na faixa da esquerda não virá alguém mais distraído, e seguem com total sentimento de impunidade e, principalmente, de invulnerabilidade. Quase sempre foi com desesperadas buzinadelas de alerta (que despertam no passeador olhares ferozes, que me dirige sem perceber que lhe estou a salvar a vida), mas, uma dessas vezes, parado perante o guna de headphones que junto à passeadeira passeava indolente, surdo e cego, tive de sair do carro para parar a viatura distraída que seguia na faixa da esquerda. O guna nem agradeceu nem percebeu que esteve a milímetros de ter aprendido a voar para o cemitério.

 

Acontece e pode acontecer porque as passadeiras não dão invulnerabilidade, mas os passeantes não querem saber. E depois a culpa é sempre dos condutores.

 

Aos mortos não interessa a culpa. E aos familiares e amigos que sobrevivem com dor também não. Importante seria que peões e condutores se respeitassem mutuamente: nas passadeiras, pede-se a atenção máxima dos condutores, é certo, mas que os peões percebam que não estão a passear no passeio. A bem da vida. Da sua, principalmente.



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