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'divide et impera'

por Rui Crull Tabosa, em 12.02.12

Ao longo dos últimos quase cinco séculos, a Inglaterra construiu o mais vasto império territorial e marítimo alguma vez existente no Mundo. Entre metrópole e possessões, protectorados e Estados vassalos em África, na Ásia, na América e na Oceânia, chegou a dominar 39 milhões de km2, quase um terço de toda a superfície terrestre.

Para alcançar tal dimensão, a Inglaterra provocou ou envolveu-se em cerca de 250 guerras que lhe permitiram espoliar inúmeros territórios de outros países, como sucedeu com Portugal (Rodésia, Ormuz e Bombaim), Espanha (Gibraltar, Florida, Jamaica e Trindade), França (Jérsia, Guernsey, Terra Nova, Canadá, Costa Oriental da Índia, Maurícia, Seychelles, Malta, Birmânia e Sudão), Holanda (Santa Helena, Tobago, Guiana, Ceilão, Colónia do Cabo, Malaca, Transval e Estado Boer), Alemanha (Camarão, Togo, África Oriental Alemã, África Alemã do Sudoeste, Nova Guiné, Canoa e Nauru), Turquia (Chipre, Egipto, Transjordânia, Iraque, Palestina, Adém e Hadramaut), China (Hong-Kong) e Argentina (Malvinas), isto numa listagem certamente não exaustiva.

E sobre massacres (tema normalmente e convenientemente tão esquecido), para só referir alguns dos mais conhecidos, a Inglaterra, na segunda Guerra dos Boers, em finais do séc. XIX, criou os primeiros campos de concentração da história moderna, para onde levou dezenas de milhares de mulheres, crianças e velhos, matando 30 mil deles à fome até que os combatentes boers se rendessem, não pelas armas mas pelo holocausto das suas famílias. Pouco antes, no Sudão, massacrou dezenas de milhares de sudaneses que se haviam rendido a Lord Kitchener. Nos anos 40 do século passado matou à morte cerca de três milhões de indianos. Uma chatice, dirão alguns, incomodados com lembrança tão politicamente incorrecta

Por cá, o Ultimatum de 1890 é, para qualquer Português digno deste título, um dos mais dolorosos capítulos de traição da nossa velha aliada. Como esquecer a letra original de “A Portuguesa”, escrita pelo oficial da armada Henriques Lopes de Mendonça, desesperado grito de revolta contra a Pax Britannica, com o seu “Contra os bretões, marchar, marchar!”?

Não surpreende, pois, que, despojada já do seu empório comercial pluricontinental (que foi sempre assim que a Inglaterra concebeu as suas conquistas), reduzida às margens nevoeirentas do continente, cada vez mais isolada em torno dos interesses plutocráticos que sempre a animaram e ainda dominam, a Inglaterra procure semear a discórdia, apoiando e explorando todos os dissensos, todas as divergências que possam contribuir para o enfraquecimento da Europa.

O frio calculismo com que sabe cavalgar o sentimento sincero alheio permite perceber bem a sua hostilidade à cada vez maior necessidade europeia de fortalecer e unificar esta península da Eurásia, face aos divergentes interesses económicos da América e das ascendentes China e Índia.

Evitar na Europa de hoje a repetição do destino das cidades gregas, subjugadas por Roma devido à incapacidade de se unirem, é, pois, o desafio que se coloca ao Velho Continente.

Um projecto a que, evidentemente, a ilha das margens da Europa não consegue aderir, já que uma União Europeia forte implicará que quem sempre nela semeou a discórdia se torne cada vez menos relevante.

Afinal, também na Europa a Inglaterra aplica a velha máxima já antes usada na subjugação dos povos que dominou e oprimiu: divide et impera.

Cabe-nos apenas não sermos inocentes úteis nem nos deixarmos instrumentalizar pela pérfida Albion

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2 comentários

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De JP\ a 13.02.2012 às 13:47

Veja se os bifes não o "matam à morte" por dizer estas coisas...
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De Pedro barbosa Pinto a 13.02.2012 às 15:15

 

"Eu, por mim, pondo de parte toda a poesia e toda a sentimentalidade, contentar-me-ia de afirmar aos patriotas portugueses esta verdade de simples bom senso: que, nas nossas actuais circunstâncias, o único acto possível e lógico de verdadeiro patriotismo consiste em renegar a nacionalidade". Antero de Quental


Antero percebeu no que nos andavamos a meter! Numa IBÉRIA, Unitarista ou Federalista, de certeza que Victor Gaspar e Luís de Guindos não precisavam de andar a mendigar aos alemães uma moedinha para o Sto. António! Os monarcas ibéricos, visionários, bem que tentaram por várias vezes a união das coroas através do casamento das proles, isto é, por meios pacíficos. Mas os nossos 'Amigos de Peniche', mestres na arte do 'divide et impera', sempre o conseguiram evitar. Fazerem de Portugal uma República, consequência última do malfadado Ultimatum de 1890, foi apenas o seu golpe de génio final! (E depois de terem recusado apoio a D. Manuel II, oferecem-lhe exílio e usarem-no para obterem o apoio dos monárquicos portugueses na I Guerra Mundial?... mostra bem até que ponto pode ir o 'British Cynicism')


Como Europeu, mas sem esquecer as minhas origens, eu deixaria as Civilizações clássicas de parte e diria antes: Evitar na Europa de hoje a repetição do destino de Portugal, subjugado pela pérfida Albion devido à incapacidade de se unir a Espanha, é, pois, o desafio que se coloca ao Velho Continente. Contra os bretões, marchar, marchar!

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