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Visto de fora... "da caixa"

por João Távora, em 27.01.12

 

Por detrás duma aparentemente equilibrada apreciação à polémica da eliminação dos feriados, o editorial de hoje do jornal i da autoria da Ana Sá Lopes esconde algumas contradições que eu gostaria de aqui salientar.
A cronista defende um esvaziamento simbólico das duas efemérides, nomeadamente que a República, “é um dado adquirido e irreversível”, cujas comemorações “já não comovem ninguém”, e na mesma lógica, uma suposta minoria de monárquicos não justifica a continuidade do dia da Restauração da Independência. Estes dois argumentos confluem num surpreendente equívoco: então porquê o ribombante remate ao texto, com a afirmação de que, a confirmar-se a eliminação dos dois feriados civis, “a derrota da UGT foi mesmo em toda a linha”? Precisamente porque estamos no âmbito do simbólico é que esta conclusão me parece contraditória.
Mas no final de contas eu até entendo a avaliação da Ana: dispersados em diferentes partidos, prioridades e causas, tantas vezes concorrentes entre si, os monárquicos de facto raramente dão notícia, são gente pacata o que é uma clara desvantagem competitiva face aos poucos republicanos: não parecem ser capazes que matar ninguém, muito menos o chefe do Estado. Apesar disso parece-me um erro subestimar o seu número e o seu potencial. E depois está errado concluir que apenas existe “o que é notícia”, para mais se considerarmos os alvoroços pueris com que se preenchem as manchetes da espuma dos dias nos media de consumo. 

De resto a vida dá muitas voltas, e em 1907 a força e representatividade dos republicanos era pouco mais do que barulhenta, assim a modos como Bloco de Esquerda nos dias de hoje. Nessa altura nenhum analista ou cidadão informado se atreveria a prever o caminho vertiginoso que a História acabou tomando.
Finalmente uma palavra sobre a suposta “escandalosa submissão do governo à Igreja Católica”: até os comunistas do PREC aprenderam com a História (da 1ª República) que afrontá-la só serve para a fortalecer. A grande ameaça ao cristianismo está na decadência da Europa, e na sua negação de berço duma ética perene, valores ofuscados por uma alucinação colectiva de hedonismo estéril. Em sentido contrário, a expansão da Igreja de Cristo está, sempre esteve e estará, onde houver sofrimento humano e repressão, ou simplesmente existências inquietas, exigentes. 


2 comentários

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De Ora bolas a 27.01.2012 às 19:59

Por essa ordem de ideias, o 25 do A também ia à vida. Não será a "liberdade" um dado adquirido, na Europa de hoje (mesmo que caótica) e designadamente para os portugueses de idade inferior a uns 50 anos (digamos) e que não podem de todo ter consciência do que foi viver em ditadura, ou porque eram muito jovens ou porque ainda nem sequer eram nascidos?
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De scriabin a 28.01.2012 às 00:12

Pois, em 1907 os republicanos eram barulhentos e passados três anos meia dúzia deles derrubou uma monarquia a cair de podre. Quase que bastou dar um berro que fugiram todos para a Galiza ou para Inglaterra. Os monárquicos são gente pacata, diz bem o João Távora. Mas um dia, se Deus quiser, o Povo vai pedir ao pretendente de serviço que reine. 
Quanto a mortes provocadas por republicanos no país, só pode estar a brincar. Nunca se matou tanta gente em Portugal como nas guerras provocadas por monárquicos no século XIX.  Seria difícil ultrapassar o grau de infâmia e crueldade dos bandoleiros ao serviço de suas altezas nessa altura. 

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