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Como foi

por Rui Crull Tabosa, em 19.08.11

(O Anel)

 

Escreveu o Nuno Castelo-Branco um lúcido e bem sustentado post a partir de umas patéticas declarações que Soares júnior se permitiu fazer há dias, num Frente-a-Frente da SIC Notícias, através das quais exibiu uma tão confrangedora quanto atrevida ignorância quando sentenciou a exclusiva responsabilidade alemã pelo deflagrar das duas guerras mundiais.

Deixando para outras núpcias as causas da guerra de 39/45, questão complexa, melindrosa, que facilmente se presta a compreensíveis imprecisões, não raro fundadas no desconhecimento dos exactos factos da História, já quanto àquela que foi conhecida como a Grande Guerra e que provocou cerca de 20 milhões de mortos, entre os quais, por curiosidade, mais de 800 mil civis alemães por força do Blokus, talvez se possa discorrer com um pouco mais de serenidade.

É consabido – ou deveria sê-lo – que a causa directa, primeira, insofismável, da eclosão da guerra de 14/18 se encontra na morte do arquiduque Francisco Fernando (com a sua mulher, a duquesa de Hohenberg), em Sarajevo, no fatídico dia 28 de Junho de 1914. O provável herdeiro do Império Austro-Húngaro morria às mãos de assassinos sérvios pertencentes a um grupo terrorista revolucionário criado em 1911 – a Mlada Obrama – agindo a mando da Mão Negra (a Narodna Obrama), outra organização secreta, esta última chefiada pelo próprio chefe dos serviços de informações sérvios, o coronel Dragutin Dimitrievitch-Apis, que mais tarde, aliás, veio admitir ter organizado o referido assassinato (este responsável já estivera envolvido no assassínio, em 1903, do rei sérvio Alexandre I).

Não se ignora igualmente que, perante a cúmplice inacção do Governo sérvio, de Pachitch, nas semanas seguintes ao incendiário atentado, o Império Austro-Húngaro se viu obrigado (sob pena de risco da própria desagregação, dada a sua efervescente composição multi-étnica), a 23 de Julho, a fazer um ultimato à Sérvia, no qual exigiu, entre outros pontos, que a comissão encarregue de investigar as circunstâncias da morte do arquiduque integrasse, também, um representante austríaco.

Respaldada no apoio da Rússia, gigante com mais de 20 milhões de quilómetros quadrados cujo pan-eslavismo fazia estender as suas pretensões de hegemonia a todos os povos eslavos, em particular aos dos Balcãs, e à própria Istambul otomana, o que lhe garantiria o acesso directo ao Mediterrâneo, a Sérvia recusa a referida exigência, decretando a mobilização geral, atitude que não deixou à Áustria-Hungria outra opção senão a de declarar a guerra a Belgrado no dia 28 de Julho.

O Império Russo já decretara, aliás, a mobilização geral, a 27 contra a Áustria, mas também a 31 contra a Alemanha, o que leva então Guilherme II, o Kaiser alemão, que até então fizera várias tentativas junto de São Petersburgo para evitar o conflito militar (avisando que se a Rússia se mobilizasse, a Alemanha ver-se-ia na contingência de proceder do mesmo modo…), a proclamar, primeiro o “estado de perigo iminente de guerra” (“Zustand drohender Kriegsgefahr”) e, depois, perante a recusa de Nicolau II em revogar a ordem de mobilização geral, a declarar guerra ao Czar.

Por sua vez, a França, ligada à Rússia por uma aliança político-militar desde 1892, mais tarde estendida a Inglaterra pela Triple Entente, ainda e sempre dominada pelo sentimento de revanche pela ‘perda’ da Alsácia-Lorena (matéria pouco esclarecida que bem justificaria outro post) na guerra franco-prussiana de 1870/71, declara à Rússia, a 27 de Julho, a sua determinação em “secundar inteiramente a acção do Governo imperial”, posição que, tomada naquele preciso momento de tensão internacional, implica a consequência da aceitação de um eventual estado de guerra com as Potências Centrais, caso esta se declarasse com a sua aliada. Além disso, Poincaré decreta a mobilização geral a 1 de Agosto, atitude evidentemente hostil que, ao não ser revogada naquele mesmo dia, como pretende o Governo alemão, cada vez mais receoso do anel que cercava o seu país, também motiva a pertinente declaração de guerra de além Reno.

Consumado o estado de guerra a Ocidente, solicita Berlim a Bruxelas a passagem de tropas pelo território belga (exigência politicamente inaceitável, embora militarmente compreensível dada a guerra com a França exigir a pronta aplicação do Plano Schlieffen, cujo êxito tinha de ser garantido antes de, a leste, se completar a sempre morosa mobilização russa), o que, apesar de recusado, é concretizado a 3 de Agosto. Perante a violação da neutralidade da Bélgica (uma criação inglesa de 1830, com a colocação no poder de Leopoldo I, tio da rainha Vitória), o Império Britânico, que então dominava cerca de 40 milhões de quilómetros quadrados, quase um terço da superfície terrestre, e que temia a perda da sua hegemonia marítima e comercial a favor de uma Alemanha ascendente, declara guerra ao Império Alemão.

Estes são os factos objectivos que envolveram a eclosão da Primeira Guerra Mundial.

Responsabilidades? Há-as, certamente distribuídas pelos vários países inicialmente envolvidos.

Interesses? Também, mas de vários lados e matizes.

Reduzir a História a preto e branco, a bons e maus, a uma linha recta que esquece as encruzilhadas, os tais pormaiores que às vezes explicam muito mais profundamente do que aquilo que a propaganda fartamente distribui ao vulgo, é não compreender simplesmente nada.


14 comentários

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De Réspublica a 20.08.2011 às 13:51

E eu a pensar que seria por concordar comigo pelo facto da Alemanha prussiana ter atacada sem provocação o território pátrio no Sul de Angola e no Norte de Moçambique.
Para alem de também saber que uma unificação da Alemanha feita a Sul pela Áustria seria sempre histórica e moralmente superior a qualquer unificação feita pelos prussianos!
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De Nuno Castelo-Branco a 20.08.2011 às 14:58

Caro Respublica, Viena sempre tentou "unificar" a Alemanha e deixe-me que lhe diga que um dos dramas pessoais de Francisco José I, foi ver a Áustria excluída da Alemanha após a guerra austro-prussiana que precedeu aquela outra da "unificação formal", contra a França. Viena quis sempre assumir a coroa imperial e já desde Carlos V isso era muito evidente,sendo até uma das razões pelos quais os príncipes do norte aderiram a Lutero. A guerra da França contra a Casa de Áustria deveu-se ao mesmo receio, ou seja, a unificação da Alemanha sob a égide da dita dinastia. Se no século XVIII as dificuldades foram maiores - devido à Sucessão austríaca -, nem por isso Viena deixou de ter a primazia e ser o objecto de todas as desconfianças, aliás com o governo inglês a financiar a Prússia que já era um formidável obstáculo a essa hegemonia da Áustria. Quando Napoleão obrigou à dissolução do sacro-Império, de boa parte dele se apropriou, grosso modo os territórios que compunham a antiga RFA de 1949-90. O problema já vem de longe e é de facto risível evocar o princípio das nacionalidades e depois - deles gostemos ou não -, excluir os alemães da abrangência do mesmo. Quando digo alemães, refiro-me aos que vivem na actual RFA, estendendo o termo à Áustria, Tirol do Sul, etc. 


Quanto ao papel da Inglaterra no desencadear da guerra, há que considerar o enorme temor que a pujante indústria alemã representava desde as duas últimas décadas do século XIX e o óbvio resultado nos mercados, inundados com produtos Made in Germany. Desta produção industrial até à criação de uma frota e o gizar de uma política externa de contornos mundiais - o que acha que veio o Kaiser fazer a Lisboa? Apenas beijar as mãos de Dª Amélia? - , decorreu um breve período. A guerra era "inevitável", até porque a chamada Tríplice Aliança implicava a assistência mútua, facto que nem a França ou a Rússia podiam ignorar. mais ainda, atrevo-me a sugerir que os nossos aliados britânicos queriam ver o Czar envolver-se em problemas, dado o fantástico crescimento industrial russo e a ameaça que representava para os potenciais concorrentes, alguns tão longínquos como os EUA. Foi uma cartada de mestre que o mundo ainda paga da pior forma. Disso se terá apercebido o Kaiser, nos constantes apelos ao seu primo Nicky. 


Quanto á questão portuguesa, sugiro-lhe que tenha a conta a péssima reputação do regime que vigorava em Lisboa e que era olhado com desprezo até pelos próprios aliados. Nem sequer o presidente francês se coibia de dar raspanetes ao nosso representante em paris.
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De Réspublica a 20.08.2011 às 16:06

A Paz Armada dos Couraçados e "Dreadnought's", todos os países queriam a guerra e queriam um pretexto para culpar o outro, provavelmente apenas a Áustria tinha uma clausus belli válida contra a Sérvia, se a guerra se tivesse limitado ao justo direito dos austríacos entrarem na Sérvia para punir um assassinato, mas os russos queriam defender o assassino, os alemães quiseram defender os austríacos e os franceses os russos, embora como pretexto de ambos entrarem na guerra!
Nisto o que podemos dizer é que os campos há muito estavam definidos, os interesses marcados, com excepção dos italianos que oportunisticamente mudaram de lado logo no início da guerra.
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De WZD a 21.08.2011 às 01:26

Sabes tanto Nuno! ImageImage
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De Nuno Castelo-Branco a 22.08.2011 às 19:28

Ora WZD,não passam de trivialidades!

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