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(O Anel)
Escreveu o Nuno Castelo-Branco um lúcido e bem sustentado post a partir de umas patéticas declarações que Soares júnior se permitiu fazer há dias, num Frente-a-Frente da SIC Notícias, através das quais exibiu uma tão confrangedora quanto atrevida ignorância quando sentenciou a exclusiva responsabilidade alemã pelo deflagrar das duas guerras mundiais.
Deixando para outras núpcias as causas da guerra de 39/45, questão complexa, melindrosa, que facilmente se presta a compreensíveis imprecisões, não raro fundadas no desconhecimento dos exactos factos da História, já quanto àquela que foi conhecida como a Grande Guerra e que provocou cerca de 20 milhões de mortos, entre os quais, por curiosidade, mais de 800 mil civis alemães por força do Blokus, talvez se possa discorrer com um pouco mais de serenidade.
É consabido – ou deveria sê-lo – que a causa directa, primeira, insofismável, da eclosão da guerra de 14/18 se encontra na morte do arquiduque Francisco Fernando (com a sua mulher, a duquesa de Hohenberg), em Sarajevo, no fatídico dia 28 de Junho de 1914. O provável herdeiro do Império Austro-Húngaro morria às mãos de assassinos sérvios pertencentes a um grupo terrorista revolucionário criado em 1911 – a Mlada Obrama – agindo a mando da Mão Negra (a Narodna Obrama), outra organização secreta, esta última chefiada pelo próprio chefe dos serviços de informações sérvios, o coronel Dragutin Dimitrievitch-Apis, que mais tarde, aliás, veio admitir ter organizado o referido assassinato (este responsável já estivera envolvido no assassínio, em 1903, do rei sérvio Alexandre I).
Não se ignora igualmente que, perante a cúmplice inacção do Governo sérvio, de Pachitch, nas semanas seguintes ao incendiário atentado, o Império Austro-Húngaro se viu obrigado (sob pena de risco da própria desagregação, dada a sua efervescente composição multi-étnica), a 23 de Julho, a fazer um ultimato à Sérvia, no qual exigiu, entre outros pontos, que a comissão encarregue de investigar as circunstâncias da morte do arquiduque integrasse, também, um representante austríaco.
Respaldada no apoio da Rússia, gigante com mais de 20 milhões de quilómetros quadrados cujo pan-eslavismo fazia estender as suas pretensões de hegemonia a todos os povos eslavos, em particular aos dos Balcãs, e à própria Istambul otomana, o que lhe garantiria o acesso directo ao Mediterrâneo, a Sérvia recusa a referida exigência, decretando a mobilização geral, atitude que não deixou à Áustria-Hungria outra opção senão a de declarar a guerra a Belgrado no dia 28 de Julho.
O Império Russo já decretara, aliás, a mobilização geral, a 27 contra a Áustria, mas também a 31 contra a Alemanha, o que leva então Guilherme II, o Kaiser alemão, que até então fizera várias tentativas junto de São Petersburgo para evitar o conflito militar (avisando que se a Rússia se mobilizasse, a Alemanha ver-se-ia na contingência de proceder do mesmo modo…), a proclamar, primeiro o “estado de perigo iminente de guerra” (“Zustand drohender Kriegsgefahr”) e, depois, perante a recusa de Nicolau II em revogar a ordem de mobilização geral, a declarar guerra ao Czar.
Por sua vez, a França, ligada à Rússia por uma aliança político-militar desde 1892, mais tarde estendida a Inglaterra pela Triple Entente, ainda e sempre dominada pelo sentimento de revanche pela ‘perda’ da Alsácia-Lorena (matéria pouco esclarecida que bem justificaria outro post) na guerra franco-prussiana de 1870/71, declara à Rússia, a 27 de Julho, a sua determinação em “secundar inteiramente a acção do Governo imperial”, posição que, tomada naquele preciso momento de tensão internacional, implica a consequência da aceitação de um eventual estado de guerra com as Potências Centrais, caso esta se declarasse com a sua aliada. Além disso, Poincaré decreta a mobilização geral a 1 de Agosto, atitude evidentemente hostil que, ao não ser revogada naquele mesmo dia, como pretende o Governo alemão, cada vez mais receoso do anel que cercava o seu país, também motiva a pertinente declaração de guerra de além Reno.
Consumado o estado de guerra a Ocidente, solicita Berlim a Bruxelas a passagem de tropas pelo território belga (exigência politicamente inaceitável, embora militarmente compreensível dada a guerra com a França exigir a pronta aplicação do Plano Schlieffen, cujo êxito tinha de ser garantido antes de, a leste, se completar a sempre morosa mobilização russa), o que, apesar de recusado, é concretizado a 3 de Agosto. Perante a violação da neutralidade da Bélgica (uma criação inglesa de 1830, com a colocação no poder de Leopoldo I, tio da rainha Vitória), o Império Britânico, que então dominava cerca de 40 milhões de quilómetros quadrados, quase um terço da superfície terrestre, e que temia a perda da sua hegemonia marítima e comercial a favor de uma Alemanha ascendente, declara guerra ao Império Alemão.
Estes são os factos objectivos que envolveram a eclosão da Primeira Guerra Mundial.
Responsabilidades? Há-as, certamente distribuídas pelos vários países inicialmente envolvidos.
Interesses? Também, mas de vários lados e matizes.
Reduzir a História a preto e branco, a bons e maus, a uma linha recta que esquece as encruzilhadas, os tais pormaiores que às vezes explicam muito mais profundamente do que aquilo que a propaganda fartamente distribui ao vulgo, é não compreender simplesmente nada.
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