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Rever a História

por Luís Naves, em 06.03.07


Aprecio os textos de António Figueira, no excelente blogue 5dias, mas discordo inteiramente do que ele escreveu num post intitulado Feridas de Guerra II, sobretudo deste parágrafo:

"Os novos Estados Bálticos, como outros países da Europa central e de leste, é que estão em sentido contrário a esse movimento e querem fundar um outro consenso histórico europeu, assente antes num princípio anti-comunista ou pelo menos ”anti-totalitário”. Esses “novos europeus” fazem tábua rasa da cultura política do último meio século da história da Europa Ocidental; ignoram o carácter fundador do anti-fascismo na criação de muitos dos seus actuais regimes; e julgam que o status quo do pós-guerra pode ser simplesmente varrido da história europeia pelo recurso à artilharia ideológica da “Guerra Fria tardia” e ao revisionismo histórico dos anos 80, com Nolte e Furet à cabeça. Não há consenso possível com eles".

Partilho da indignação em relação à maneira como os russos são tratados nos países bálticos. Numa visita à Letónia, fiquei chocado com as discriminações que atingem os russófonos e os não-cidadãos de origem russa. Considero mesmo que estes países não deviam ter aderido à UE enquanto não resolvessem o problema das minorias étnicas (os russos na Letónia representam um terço da população, a maioria sem direito de voto).
Mas as conclusões de António Figueira em relação ao incidente que motivou o seu post e, sobretudo, as ilações que tira sobre a Europa Central e de Leste parecem-me incorrectas.
Acho que há uma atitude dos países da Europa Ocidental (neste caso, os bons democratas) que tentam continuamente explicar aos de leste (os maus democratas), e de forma bastante paternalista, o que é aceitável e inaceitável na gestão das suas sociedades. Neste caso, é invocado um pretenso “consenso” histórico, segundo o qual o que conta é quem lutou pelo “anti-fascismo” (os soviéticos lutaram; e os nacionalistas católicos polacos, não lutaram?)
Em resumo da tese, o antigo regime comunista era um “mal”, mas estava do lado “bom”, pois combateu o nazi-fascismo. Por isso, o novo consenso “anti-comunista” que estes países desejam deve ser recusado por todos nós, os bons democratas ocidentais.
Se eles argumentam que sofreram e não gostam de foices e martelos, estão a perturbar a História. Portanto, nada de ajustes de contas, pois a Europa dos bons democratas não aceita desvios ao seu consenso histórico. Lembrar as deportações para a Sibéria, por exemplo, (só porque as pessoas eram de etnia estónia), isso provavelmente será “artilharia ideológica da guerra fria tardia”. Enfim, o statu quo só serve se for o nosso, não o deles.
Estou talvez a ser injusto em relação ao texto de António Figueira e a caricaturar excessivamente o que ele quis dizer, por isso tento precisar a minha crítica: Nos países ex-comunistas, o “anti-comunismo” equivale a contestar o antigo regime. O paralelo com Portugal é possível: um português pode contestar o antigo regime fascista e o mesmo se aplica a um estónio em relação à ocupação soviética. Os soviéticos foram libertadores, mas o regime que impuseram era absolutamente opressivo. O mesmo raciocínio aplica-se a todos os países que ficaram sob domínio de Moscovo, que pagaram a factura de meio século de atraso e ditadura.
Acho que a revisão do passado na região não tem nada a ver com a perturbação dos consensos históricos europeus, mas apenas com o direito de cada povo de, livremente e sem tutelas, escrever e interpretar a sua própria História.



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