Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
O facto de António Costa não ter querido ser, agora, secretário-geral do PS confirma-me que António Costa quer ser secretário-geral do PS. Sê-lo-á quando interessar. E será quem melhor encarna o partido.
Porquê? Porque António Costa acaba de provar que é um socialista verdadeiro. Foi no Intendente que o provou.
O Intendente é um bairro degradado em termos sociais e imobiliários. Gente com vidas normais vive refém de traficantes, drogados e marginais, em prédios degradados em que ninguém quer investir.
Há, é claro, uma maneira de combater este estado de coisas, que é a maneira do estado de Direito e das Câmaras competentes: uma política de rendas moderna, uma política anti-droga firme, uma política anti-prostituição integradora, uma política de segurança consistente. Giuliani mudou Nova Iorque assim. Mas é difícil e dá trabalho.
Há outra maneira, a socialista.
Começa, é claro, por gastar. E assim fez António Costa.
Havendo dezenas de prédios do património da Câmara de Lisboa devolutos (até do outro lado da rua), preferiu arrendar e remodelar um edifício histórico, a cerâmica Viúva Lamego, para lá se instalar. Saem, então, 670 mil euros de dinheiro dos contribuintes para pagar adiantado 10 anos de renda da sede provisória em que Costa ficará apenas 2 anos. Some-se-lhe os custos de ter duas sedes de Câmara abertas.
Continua com equívocos sobre símbolo e privilégio.
Havendo Polícia, e cabendo-lhe uma missão de segurança pública, no entanto a Polícia não acudiu ao Intendente. Mas agora, com o Presidente da Câmara lá (ao menos de dia) a Polícia vai ter que acudir. António Costa defende que a sua mudança para o Intendente é simbólica e dignificadora. Mas é exactamente o contrário: é a confissão de que não se pede à Polícia que cumpra rotineiramente a sua missão, bastando que a cumpra quando está «uma alta individualidade» presente. A Polícia é para defender a Câmara e a Câmara só defende os cidadãos quando estão ao pé.
Termina com aquela visão especial que os socialistas têm da economia.
Como abominam (ou fingem que abominam) o mercado, os socialistas vêem sempre (ou fingem que vêem) os negócios como situações de excepção. Escapa-lhes (ou fingem que lhes escapa) que aquilo que os negócios realmente exigem é a previsibilidade dos factores. No Intendente, António Costa acredita no efeito milagroso do seu gesto de excepção: em vez de lei e ordem, o que oferece é o temor reverencial perante a sua alta presença. Tem-na em tão boa conta que julga que, só por isso, os proprietários investirão, os comerciantes e as empresas acorrerão, a prosperidade florirá.
E se, daqui a 2 anos, gasto mais um rio de dinheiro, não investirem? E se não acorrerem? E se não florir?
Não faz mal. Daqui a 2 anos o mandato chega ao fim, Costa já terá extraido todo o benefício noticioso desta acção, e o PS deverá estar a precisar de um novo secretário-geral. Um novo Sócrates, na verdade. António Costa, muito prazer.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.