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"44 anos não é nada para um Evangelho"

por henrique pereira dos santos, em 11.11.21

“...o povoamento industrial e extreme de eucaliptais de uma maneira indiscriminada, como tem vindo a ser feito, pode afectar a saúde dos portugueses e a qualidade da sua vida, pela carência gradual de alimentos em face dos problemas de erosão que surgirão, do aumento do regime de torrencialidade e do mau aproveitamento do ciclo da água.” (Gonçalo Ribeiro Telles, 1977)

Periódica e sistematicamente, esta citação é repetida pelos mais variados dos meus amigos, sem que notem que de 1977 até hoje vão 44 anos de investigação científica sobre o assunto (para além da mera verificação que cada um de nós pode fazer) que desmentem cabalmente esta afirmação de Ribeiro Telles.

Na boa tradição sebastiânica portuguesa isso é completamente irrelevante para a popularidade da ideia que está na citação, porque se pressupõe que Ribeiro Telles nunca disse asneiras e que a investigação científica, se conclui coisas diferentes, é porque está vendida aos interesses.

Passando por cima de na citação dever estar povoamento estreme, e não extreme, este foi um pequeno comentário que publiquei hoje na minha página de Facebook.

Depois resolvi acrescentar aqui qualquer coisa.

Conheci Ribeiro Telles há muitos anos, quando foi meu professor (bastante ausente, acumulava com a função de político e ministro, portanto aparecer nas aulas era quando lhe dava para aí. Ao menos não havia dúvidas da velocidade dos carros em que andava porque, não tendo carta, ia sempre de Lisboa a Évora de comboio. Diz-se que não tinha carta porque no exame de condução o examinador o terá mandado subir a São Filipe de Nery, que era apenas de sentido descendente, como hoje, o que Ribeiro Telles cumpriu de imediato. O examinador ter-lhe-á perguntado se não tinha visto uma coisa encarnada no início da rua, referindo-se evidentemente ao sinal de trânsito proibido, mas Ribeiro Telles ter-lhe-á perguntado, entusiasmado, se também tinha reparado na belíssima bunganvílea. O seu futuro como condutor morreu nesse momento).

Desde essa altura, e pela vida fora, repito a piada, com um fundo de verdade, que onde estivesse Ribeiro Telles, eu estaria no lado oposto.

Há um fundo de verdade porque sempre tivemos opiniões muito diferentes, é apenas uma piada porque sempre lhe tive um grande respeito e, mais que isso, estivemos muitas vezes do mesmo lado em relação a coisas essenciais em matéria de paisagem (por exemplo, na tão subalternizada defesa dos solos férteis).

Para o que nunca tive paciência foi para os seus epígonos que, na minha opinião, lhe têm feito mais mal que bem ao mitificá-lo, reduzindo a sua complexidade a meia dúzia de banalidades simples.

Para a minha profissão, Ribeiro Telles tem uma importância enorme, é, inegavelmente, o seu maior divulgador, tendo sido fundamental a sua capacidade de comunicação, a sua rapidez na apreensão de ideias novas e complexas e o seu encanto pessoal, que era extraordinário.

Mas isto tem um preço: muita gente pensa que as ideias centrais da minha profissão, aquilo que a caracteriza, é o que disse Ribeiro Telles e, muito pior, as vulgatas que simplificam o que Ribeiro Telles disse.

Este parágrafo, com 44 anos, é bem o espelho destes riscos: continua-se hoje a citá-lo como um oráculo quando o parágrafo está errado de uma ponta à outra.

Se a citação for verdadeira e a data estiver correcta (não verifiquei, não tenho razões para não admitir que assim seja), isto significa que a área de eucalipto, nessa altura, andava pelos 300 mil hectares (contra cerca de 850 mil, hoje) e a área de pinhal andaria pelo milhão e duzentos mil hectares (contra os mais ou menos 700 mil actuais). Números de memória, a ordem de grandeza é esta de certeza, nos pormenores pode não ser.

Ou seja, a condição da citação verificou-se: continuou a expansão de povoamentos estremes de eucalipto.

O que não se verificou foi nenhuma escassez de alimentos (o eucalipto ocupou áreas marginais, não áreas de produção de alimentos, em grande parte substituindo o pinheiro).

Nem se verificaram fenómenos de erosão acentuados de forma generalizada, por causa dessa expansão do eucalipto.

Nem se verificou aumento de torrencialidade relevante, por causa dessa expansão do eucalipto.

Mas como este tipo de questões sempre se levantaram em relação à produção de eucalipto, todas estas questões (mais a posterior relação entre eucalipto e fogo, que nesta altura ainda não era uma preocupação relevante na discussão sobre eucaliptos, produção florestal comercial e afins) foram objecto, ao longo destes 44 anos, de muita investigação científica.

E os resultados dessa investigação ao longo de 44 anos são muito, muito coerentes, diferentes equipas, diferentes métodos, diferentes perspectivas, concluem essencialmente o mesmo: os problemas associados à erosão e perda de fertilidade, à gestão da água, à gestão do fogo (a questão da biodiversidade é bastante mais complexa e os resultados são muito menos lineares) e etc., estão muito mais relacionados com as opções de gestão do povoamento que com a espécie que lá se coloca.

Claro está que há relações entre modelo de gestão e a espécie que se produz, mas a questão central está em olhar para os modelos de gestão, muito mais que olhar para a espécie.

O que aconteceu com o eucalipto é que o maior esforço de crescimento da sua área de produção, por volta dos anos 80 do século passado (já depois da data desta citação), é muito mais tardio que o esforço de florestação com pinheiro e sobreiro (para quem não tenha noção, a área de montado cresce com as campanhas do trigo e há por aí muito montado plantado na primeira metade do século XX, com as árvores alinhadas).

Por essa razão, as florestações de eucalipto foram muito mais impactantes, do ponto de vista da sua visibilidade, pelo tempo de execução dos projectos e pelo uso de maquinaria mais pesada, numa altura de afirmação do movimento ambientalista.

Por outro lado, boa parte da florestação anterior, com pinheiro, sobreiro e azinheira (esta bastante menos) ou foi feita pelo Estado (maioritariamente com o apoio do Estado, mas não com execução pelo Estado), ou foi feita por proprietários rurais anónimos, ao contrário das florestações de eucalipto que corresponderam a uma verticalização da fileira da celulose, podendo atribuir-se a responsabilidade a agentes ricos, poderosos e facilmente identificáveis: os industriais de celulose.

Por este conjunto de razões (há outras, mas estas parecem-me mais relevantes) a florestação com eucalipto sempre teve uma forte oposição social, que foi fracamente respondida pela indústria, quer porque frequentemente demonstrou uma arrogância para lá do aceitável, quer porque os seus clientes eram clientes técnicos, e não o consumidor final (repare-se como a Renova foge como o diabo da cruz da associação com as outras celuloses, apesar de ser uma empresa do sector, mas por um lado o seu produto não é celulose, mas tissue, e por outro vende directamente na prateleira do supermercado, ao contrário do que acontece com quem vende celulose).

E é assim que, ao fim de 44 anos, uma citação totalmente errada de uma ponta à outra, continua a aparecer como uma manifestação do oráculo de Delfos, perante a qual toda a realidade que a desminta ou é irrelevante, ou quando não se pode negar, se atribui aos interesses escondidos.

Para o que ajuda uma questão reputacional: qualquer pessoa ou entidade que queira ser socialmente reconhecida como "ambientalista", no sentido mais lato e objectivo do termo, ou apresenta sólidas credenciais de combate à produção de eucalipto, ou tem a reputação arruinada.

Os mais sérios, por isso, limitam-se a tentar passar entre os pingos da chuva, nunca falando do assunto, para não serem acusados de dormirem com o inimigo.

Claro que Ribeiro Telles nunca teve culpa nenhuma disso, limitou-se a dizer o que pensava, e a deixar que os outros pensassem como quisessem, ao contrário de grande parte dos seus epígonos que militam numa guerra santa implicável, para garantir que toda a gente pensa o mesmo.

O tempo se encarregará de resolver isto, claro, de acordo com o princípio de Planck, a única coisa chata são as oportunidades que vamos perdendo e que nos poderiam ajudar a ter uma sociedade mais rica, com base numa economia mais sustentável.



2 comentários

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De Anónimo a 12.11.2021 às 17:47

Obrigado pelo seu texto esclarecedor. Há gente que manda nisto mas faria melhor em dedicar-se aos mantras.
Permita-me que lhe o aconselhe a ler:



https://observador.pt/opiniao/tap-inimiga-das-familias-emigrantes/



Pergunto-me se este país é viável.
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De Victor Louro a 12.11.2021 às 18:11

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