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O nosso futuro albanês - IV

por José Mendonça da Cruz, em 27.04.11

 

            Da onda de artigos e reportagens na imprensa estrangeira, ficou sobretudo a palavra usada pelo Financial Times. Ignorando que freak significa naquele contexto, singular, toda a comunicação social traduziu freak por monstro e freak economics por economia monstruosa. Teria bastado, aliás, que um dos orgãos tivesse traduzido mal por «monstro», para que que todos fossem seguramente atrás. Seja como for, a comunicação social ficou muito zangada com os estrangeiros.

O Diário de Notícias, agora propriedade do governo (o senhor Oliveira entregara-o em troca da pasta das Obras Públicas) ouviu Santos Silva, o idoso mas sempre sagaz presidente da Assembleia da República, e citou-o acusando «esses pasquins de salivarem» com «as desgraças que inventam para desviarem a atenção das suas próprias pústulas». Todos os blogs autorizados bateram palmas e acharam muita graça.

A TSF - agora a emitir do Largo do Rato, das antigas instalações do PS, gratuitamente cedidas depois de os socialistas modernizarem os Jerónimos e se mudarem para lá, para perto do Governo, que ocupava o também remodelado Centro Governamental de Belém - dedicou-se a mobilizar uma manifestação de desagravo, prometendo 7 milhões de euros-república a quem enviasse o melhor slogan de protesto. O prémio foi atribuído a um sobrinho neto do saudoso Guterres, que remeteu a frase: «Monstro de virtudes contra aleivosias capitalistas». Era uma clara citação do acutilante Santos Silva, mas, ainda assim, o perito de comunicação, um novato da Juventude Pré-escolar Socialista, achou precários o ritmo e a sonoridade. O presidente da TSF chamou-lhe, porém, a atenção para as glórias do apelido.

Já a RTP, que agora dividia as instalações com a sede da Fundação Armando Vara, calou o assunto, embora tenha emitido uma série de 12 reportagens intituladas «O Lixo dos Neo-Liberais», passada inteiramente em prisões e morgues de Inglaterra, França, Polónia, República Checa, Espanha, Alemanha, Irlanda, Holanda, Bélgica, Itália, Estónia e Croácia.

Expresso e Sic, numa iniciativa conjunta, publicaram, respectivamente, uma reportagem intitulada «Um Dia Com ... » e uma entrevista com manchete na primeira página, com o senhor Presidente da República, José Sócrates. Na reportagem, feita na sua casa na Fortaleza do Guincho, Sócrates era citado dizendo (era a manchete do Expresso): «Os países da vanguarda sempre são caluniados». E lá dentro: «Somos um monstro, sim, de coragem e determinação.» Na entrevista, bastante à margem do tema do dia, Sócrates dava a «cacha» que combinara com o laço do velho Nicolau Santos: vamos fundir EDP e PT, na nova Electricidade Telefónica. O suplemento do jornal considerou isto uma revolução económica. A revista publicava um interessantíssimo artigo sobre a nova aquisição da Fundação Berardo, exposta sob uma cúpula instalada no centro da Praça do Comércio: a cadeira de rodas do defunto Fidel Castro. No 1º Caderno, com remissão da última página, estavam os dados da última sondagem dos herdeiros do senhor Oliveira e Costa: «99,97% dos Portugueses estão felizes ou muito felizes.» 



5 comentários

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De Herr Frederick a 27.04.2011 às 20:41


Os ingleses é que deviam pagar as colossais dívidas que têm.
Aquilo está tudo falido.
Nessa altura já não há Financial Times.
Há sim Financial China Times.
Mas continuem.
Estou a gostar do vosso servilismo perante esses «estrangeiros», ainda  mais tesos, porcos e bárbaros do que nós.

(e pensar que esta gente algum dia podia «governar» Portugal!!!???)
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De Rui Crull Tabosa a 27.04.2011 às 23:56

Grande inspiração, caro José!
No póximo 5 de Junho poderemos fazer com que não se trate já de uma primeira antevisão...
Abraço
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De Carlos Alberto a 27.04.2011 às 23:59

Coitados dos 0,03% que estão pouco felizes ou infelizes. 




P.S. (salvo seja) está a dar na RTP um reportagem sobre o Tarrafal... será um aviso sublime? 
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De Velho da floresta a 28.04.2011 às 09:48

Estes quatro (até agora) posts sobre um Portugal socialista (ficcional) futuro, estão soberbos, tendo em conta a sua qualidade, talvez fosse merecedor um esforço suplementar e escrever mais alguns, de forma a ficar com a dimensão de um conto para publicação autónoma. Apesar do humor, este cenário claro não acontecerá, mas a gravidade da nossa situação é terrível e há possibilidades de o PS ser o mais votado nas próximas eleições, isso é que me assusta verdadeiramente.
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De LUIS BARATA a 28.04.2011 às 11:46


Brilhante esta distopia luso-albanesa!
 Até me fez lembrar os tempos em que o Major Tomé ( que será feito? ) gabava a Albânia socialista, o único país do mundo que não tinha dívida externa. Não havia dívida, mas tb não havia nada...

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