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O sapatal

por João-Afonso Machado, em 30.01.11

 

O episódio foi-me contado pela própria filha, muitos anos depois. Ele não tinha mais de metro e meio, um enorme sarilho se havia de parar a motorizada, com os pézitos a tactear em busca de apoio... O chapéu atirado para a nuca e as bochechas sempre vermelhuscas, ora do frio, ora do remédio para o frio.

Ofício: sapateiro.

Uma vez travou-se de razões com a vizinha e foi o diabo. Aquela lâmina de gume tremendo, com que recortava as solas, entrou na carne da desgraçada e por pouco não a retalhava, tantos os golpes. Embora a sangria não fosse fatal, a gravidade do crime impunha a fuga por tempo indefenido. Até que tudo acalmasse.

Durante quantas semanas se acoitou o sapateiro neste pombal? Ignoro. Sei apenas sequer haver sido julgado... E que fome não passou, fornecido diáriamente pelos filhos de pão e vinho, mais as indispensáveis vitualhas. Fossem elas umas sardinhas, umas espinhas de bacalhau...

Nunca se soube. O pombal, qual templo pagão, rodeava-se então de mimosas e do mutismo da floresta. E os únicos visitantes conhecidos das pombas eram as cobras e as corujas.

Entenda-se: lidava-se com a ilícita procura de ovos e de borrachos, sendo inimputável a natureza. Mais dificilmente se aceitaria a presença humana acobertada na humidade e nos detritos acumulados no seu interior. O sapateiro, não obstante, ali viveu até ao fim da tempestade na freguesia. Cruzando-se com ninguém, salvo os filhos que o visitavam e lhe levavam alimento. Só depois, já na bonança, veio a tabernice da basófia e da surpresa. Pois se a própria vítima aceitara o seu pedido de desculpas...

 



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