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Viagem a um tempo que parou

por João Távora, em 09.11.10

 

Encalacrado pelo trânsito, subo lentamente a turvada Avenida Almirante Reis num fim de tarde outonal. A chuva cai copiosa por cima duma paleta de cinzentos donde se destacam as luzes dos carros, brancas e encarnadas dependendo do sentido da marcha, num vagaroso pára-arranca. O cenário é-me familiar, reporta-me a sensações antigas com quarenta anos: o cheiro a húmido do autocarro quase cheio, os neons que rebrilham nas poças de água, os vultos apressados, escondidos nos chapéus e agasalhos pardacentos, por entre o fumo do assador de castanhas que se mistura com baforadas dos escapes impacientes. De que me servem a banda larga, as tendências da moda, as redes sociais, a modernidade e a literatura ou um estúpido smart phone? Com um calafrio perco-me momentaneamente numa Lisboa bárbara e sem idade, que é de hoje como da minha infância. Revejo-me num grupo de miúdos encarapuçados e de mochilas às costas, que no passeio me ultrapassa em eufórica algazarra disputando aos pontapés uma lata amolgada. Uma velha espreita desconfiada à porta duma loja deserta e mal iluminada: quantas gerações de incógnitos malandrins já terá ela visto passar e crescer daquela soleira? Se as memórias antigas são a preto e branco, nada como um cinzento e chuvoso fim-de-tarde para uma  viagem a um tempo que parou. O tempo parou como se vivêssemos um eterno retorno, escravo das estações do ano, das horas do dia, como se não houvera sentido, se não a rotação outra vez e outra vez. Mas por estranho que pareça, do meio deste bloqueio temporal, mais tarde ou mais cedo, todos irão chegar aos seus misteriosos destinos. Subitamente tenho saudades de casa.



6 comentários

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De Anónimo a 09.11.2010 às 18:59

Não há tempo, meu caro. Há sequências. Virar de página. Depois, Lisboa fala, e manda-nos sempre com aquela «energia» de outrora, escondida nos dias de hoje...é a dita da sensação «déjà vu». É o espirito a organizar-se, ou a pôr alguma dúvida.
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De Anónimo a 09.11.2010 às 20:08

Haveria vagabundos e excluídos e delinquentes e drogados na Almirante Reis de há 40 anos? No lo creo.
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De Anónima mas não muito a 09.11.2010 às 21:15

Vagabundos e excluídos; havia de certeza. Este país vivia num miserável provincianismo rural e urbano.
Delinquentes e drogados, nem tanto, afinal as ditaduras sempre servem para qualquer coisa.
Quem pensava ou pensa o contrário, vivia numa redoma ou na cegueira endémica do regime de então.
A fotografia não mudou muito de lá para cá. Apesar de tudo, prefiro isto, àquilo.
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De Anónimo a 09.11.2010 às 22:53

Mas a ditadura actual - moderna - tem muitos delinquentes, a começar pelo seu mandante primeiro. Ele só não usa brinco na orelha porque o armani não deixa. Mas aposto que usa piercing numa certa ponta. Parece também que gosta do pó de Chavez, de cacao e outras coisas mais.
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De Anónimo a 09.11.2010 às 21:37

Sabes lá tu? Consegues distingui-los? Percepcioná-los? E tu onde estás?
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De jose-catarino a 09.11.2010 às 23:34

Gostei muito. E, coincidência, esta visão do tempo cíclico fez-me lembrar um capítulo (Sol de Inverno) do meu romance  Entre Cós e Alpedriz. Gostaria de lho oferecer, sem que por tal se sinta obrigado a lê-lo, embora me pareça que haveria de gostar do referido capítulo. Se aceitar, pode enviar-me por mail um endereço?
jccatarino(arroba)hotmail.com
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