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A longa celebração da desordem e da bancarrota

por José Mendonça da Cruz, em 24.07.10

Historiadores de direita e esquerda (Manuel Braga da Cruz, Vasco Pulido Valente, Fernando Rosas, António Costa Pinto, Rui Ramos, entre muitos) descreveram já pormenorizadamente a realidade da I República: um estado lastimável e pernicioso de coisas, um regime não democrático onde em nenhuma eleição votaram mais de 10 000 pessoas, conhecido por torturar padres, enviar os seus caceteiros contra opositores ou meros discordantes, gastador e perdulário, que meteu o país numa Guerra Mundial, versado no assassínio de governantes e presidentes, sem crédito interno e internacional, golpista e desordeiro, e que conduziu o país à bancarrota.

Pinheiro Chagas chegou a advertir, olhando a I República à sua volta, que «isto vai parar direitinho às mãos dos militares.» Foi, seguindo-se uma ditadura. Fernando Rosas já identificou nesses negros dias a existência de uma «ânsia de normalidade entre a classe média», ou seja, a maioria dos Portugueses, por oposição aos golpes diários, à desordem generalizada e à falência. Uma ânsia que foi respondida: a oferta de Salazar de «viver habitualmente» teve geral acolhimento.

Acontece, no entanto, que um grupo de dinossauros maçónicos e socialistas resolveu celebrar este ano e prolongadamente o centenário da República (e distribuir entre si os cargos em comissões e eventos correlativos), de pés assentes naquilo que o mesmo Rosas chama uma «visão hagiográfica da História». Não celebram a República como mais que discutível progresso em relação à Monarquia. Não, o que eles celebram é mesmo a I República.

Eis, portanto, o que se passa, descarada, impenitente e reiteradamente, durante todo este ano, culminando a desvergonha em Outubro: um grupelho que se apropriou de vários milhões de euros dos nossos impostos celebra um regime torcionário e indigno que levou o país à bancarrota e foi causa próxima de uma ditadura. Certamente, vêem-se ao espelho.

 

Alguns frutos famosos da I República


4 comentários

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De Ega a 24.07.2010 às 19:58

Excelente post.
No blog Filosofia&Literatura está um texto do Pacheco Pereira exactamente neste sentido.
Se a 2ª República foram 48 anos de autocracia, a 1ª foram 16 de tirania e corrupção que, pelos vistos, serem de exemplo à actual 3ª República.
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De NunoFcouto a 24.07.2010 às 20:39

A I república foi realmente lastimável, mas a culpa não foi só do Afonso Costa ou do Bernardino Machado, a I república foi efectivamente uma tentativa de modernização do país, falhada sim, sem uma estratégia clara sim e também sem um verdadeiro apoio das massas, altamente analfabetizadas que eram cépticas a tudo isto.

Em primeiro lugar, o Afonsismo jacobino, ou pseudo-jacobino não surge do nada, surge sim de um país depauperado (e falando só da monarquia constitucional) desde um tempo em que só o vintismo e o setembrismo obrigaram o então Rei a regressar ao país que abandonara, fugido de Napoleão, para assinar "à força" uma constituição que não queria.

Desse tempo em diante, com muitas pequenas guerras civís pelo meio, só na regeneração de Fontes Pereira de Melo viu Portugal laivos de modernismo e crescimento.

A república impôe-se a tiro, como resposta ao franquismo.

O país entra num caos de governos que se sucediam.

A tentativa de "normalizar" já tinha sido tentada por Pimenta de Castro e Sidónio Pais, dois factores porém, para mim, vieram a ditar o rumo das coisas :
O primeiro foi a "monarquia do norte", sem sentido de oportunidade absolutamente nenhum, Paiva Couceiro e os integralistas derrubaram um governo de crise em vez de se unirem a ele de forma a combaterem o Partido Democrático; o segundo foi o falhanço dos pequenos partidos republicanos, nomeadamente o de António José de Almeida, de se imporem no panorama nacional.

Após as incursões de 1919, o próprio Partido Democrático foi tomado de assalto pelo caciquismo e pela GNR, mergulhando o país na penumbra.

Posto isto, não há nada a celebrar, a monarquia constitucional falhou, a republica de 1910 falhou, o 28 de Maio durou o dobro do que devia no poder, o Marcelismo era demasiado fechado sobre si mesmo para modernizar o pais, o PREC foi um desastre, o 25 de Novembro também não foi lá grande coisa mas destas datas todas foi sem dúvida a que trouxe o melhor regime possível, curiosamente é a mais ignorada delas todas.

Quanto aos 10 M€ que supostamente se andam a gastar para comemorar o incomemorável, bem, alguém come com isto e o descaramento é tanto que o tal centenário nem se vê...

As comemorações certamente deverão ser privadas quando são pagos os intervenientes, eu, ainda não vi nada !
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De Anónimo a 24.07.2010 às 21:19

Um furacão passou por ali e ficou só o dedo médio daquelas mãos no ar. Por isso, Portugal ficou como se diz em inglês menos bonito, fucked up, durante uma coisa chamada Estado Novo! Apesar de naquela altura haver uns lingotes de ouro! Agora há buracos, buracos de vários tipos a saber a) os financeiros, distinguindo-se os provocados e provocadores; b) os buracos legalizados; c) os buracos permitidos; d) os buracos alcatroados depois de destruídos; e) os buracos do discurso político actual ... para cegos...encantados.Image


 
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De Velho da floresta a 26.07.2010 às 23:58

Senhor Mendonça da Cruz quase nada há a contestar no que escreve, eventualmente apenas o pormenor de a opinião sobre a I Republica do berloquista Rosas ser variável. Já quanto a esta conjectura "celebra um regime torcionário e indigno que levou o país à bancarrota e
foi causa próxima de uma ditadura. Certamente, vêem-se ao espelho", apenas discordo quanto à possibilidade de que esta medonha comédia farroupilha em que vivemos,  possa provocar um golpe de estado e uma subsequente ditadura, não pela falta de vontade de certos meios, mas principalmente pela inexistência de uma figura credível para ditador.

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