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Por isso me sinto autorizado a dizer que falhaste*

por Pedro Quartin Graça, em 12.07.10

* Por: Pedro Chora Barroso in Algarve Mais
Licenciado em Educação Física e amigo de Carlos Queiroz

 

Para dirigir uma selecção de um Pais é preciso a formação, o estudo, a calma, a cultura e ponderação que inegavelmente possuis. Mas é preciso a ambição, o golpe de génio, a raiva, o combate, a capacidade motivacional, o cuspo, o grito, o abraço sincero e a agressividade atacante que inegavelmente sofreias.

E a relação humana com os jogadores, não sei, Carlos, porque ninguém sabe. 
Mas cheira que não pode ser boa. Eu, se fosse internacional, declarava a minha indisponibilidade já amanhã, pelo menos enquanto andasses por lá.

Uma pequena e persistente fissura na clavícula impede-me de ser mais explícito.
Mas a essa cura-se, mais semana menos semana. 
E tu se calhar também continuas – ou não – mais milhão, menos milhão.

 

Custa sempre bater num amigo. Sempre tive com ele o privar cordial e companheiro de alguém com a mesma formação e geracionalmente próximo. 
Era eu já razoavelmente conhecido no mundo da canção e o Carlos, um pouco mais novo, debutava nos iniciados do meu Belenenses, o que nos aproximava sobremaneira. Éramos colegas, lado a lado. 
Ficou uma amizade tranquila, confirmada por encontros posteriores, onde ele me confidenciava do seu desejo de ferias e sossego secreto num Algarve privado que me revelou. Mas onde talvez hoje não possa arriscar muito o passeio público, pois estaria sujeito a ouvir imprecações de menos nobreza a cada esquina, e insultos animosos de um qualquer pescador mais impulsivo. 
Mas adiante; isso… foram confidências que não denuncio. E em nome da sua privacidade tem direito mante-las. 
Também eu sei o que custa entrar num sítio e ter de aturar um sujeito que nunca vimos, já bebeu demais, e nos trata por tu, só porque esteve na sétima fila de um qualquer concerto que dei há 20 anos em Santa Comba do Semicúpio. E nos bate nas costas como se fosse nosso amigo de infância ou mesmo irmão de longa data. E nos chateia o resto do jantar, sem ter objectivamente nada para dizer, só porque é insolente e grosseiro na sua etílica condição e calhou estarmos ali.

Mas o que me liga ao Carlos é tão distante já como o seu olhar superior e altaneiro, sempre posto num horizonte longe, indefinido, talvez ausente. Um olhar de iluminado, cientista e conhecedor que tem de contemporizar com a plebe assanhada e pobre, curtas pessoas de ideias pequenas, sem conhecimento nem saber para discutir as decisões doutas e autorizadas do grande Professor.
Passam-lhe por isso ao lado as críticas maldosas, feitas com acinte e aleivosia, por meia dúzia de energúmenos, ciente que está da sua suprema razão e de seu imenso saber. Olha em torno de si - com dificuldade, acrescente-se…-  e, quando o faz, é apenas para pensar tão alto que todos nós conseguimos ouvir: 
- Que importa o dizeis? Para mim os cães ladram e a caravana passa.
Já nos idos de oitenta quando privávamos diariamente com a humildade de um laborar conjunto e a intimidade do desabafo, dia a dia, anos seguidos, no Liceu de S João do Estoril, o Carlos era assim. Tranquilo, educado, correcto, cordial; mas um tanto inseguro, defensivo, elaborado, meticuloso, gestor de palavras e projectos, investigador, evasivo, contornante. 
Vínhamos ambos de um INEF, onde ambos nos licenciáramos tendo sido alunos de topo com três anos de diferença, mas a minha vocação de autor e poeta sobrepôs-se à minha ambição monetária. Aí, assumi causas, escrevi combate, abracei a vida difícil de músico e compositor, arrisquei opinião, defendi a cultura convivida e esqueci-me dessa secreta ambição que me poderia ter dado fortunas impensáveis e colossais. Acresce que fui ainda “colega” - uns mais novos, outros mais velhos…-  de Jesualdo, Vingada, Mourinho, Caçador, etc. por aí fora…
Coube-me ainda, por acasos da vida, vir a ser professor dos internacionais irmãos Xavier, precisamente no sítio onde fui professor de Ed. Física e colega de Queiroz.
Tudo isto para justificar que ainda tenho os galões e sei dos livros. Bem podia ter sido treinador, tivesse a vida virado por aí… Não fui. Mas sei do que digo, quando ainda hoje falo de Fisiologia do esforço, Treino físico, táctica e técnica de jogo, motivação, etc
Por isso me sinto autorizado a dizer que falhaste. 
Depois daquela geração de ouro, com que foi fácil ser campeão do Mundo de juniores, havia que sedimentar outra densidade humana e outra leitura alta para… frutificar. 
O tecido humano de uma equipa de futebol a alto nível é ainda vaidoso, inconsequente irreverente, difícil. Os jogadores de topo são normalmente jovens ricos e mimados, com todos os defeitos da imaturidade; mas há outros que entretanto começaram a aparecer com um discurso adulto, assente em muito saber e experiencia e já não admitem ensaios nem improvisos. Já foram treinados por pessoas e métodos muito variados e sabem num minuto avaliar a segurança e o valor do seu comandante.
Eu também tremeria se visse o dentista enganar-se, trocar os instrumentos e dar ordens contraditórias. Tudo isto para dizer que um treinador não escapa ao olhar critico, não só da massa associativa, como dos próprios jogadores. E todos pensam, avaliam, julgam.
Ora uma representação nacional é uma montra do país. E a massa associativa são todos os portugueses. Que, alias, são eles a pagar – e bem, ao que parece – o servicinho…
As tuas equipas Carlos, tornam-se um pouco aquilo que tu és. 
Se queres transmitir que não sofrer toques no gilet já é triunfo; se achas que defender, para não sofrer humilhação, é uma forma de vitoria; se admites que é preferível empatar a zero a arriscar a estocada que nos expõe; se queres ganhar sem risco, através de alguma cartomancia ocasional; se preferes convocar 18 jogadores com características médio/defensivas em cada 23, muito bem. 
Isso… és tu. Tal qual te conheci. 
Continuas temperamentalmente na mesma. Cauteloso, ponderado, estudioso. 
Mas no futebol de competição e de selecção nacional - e dispondo, como dispunhas, dos melhores e de todos os meios à disposição para fazer um enorme Mundial – há que arriscar a gloria, para não sair por falta de coragem. 
Ser agressivo, objectivo, ambicioso. E desportivamente astuto, líder, entusiasta, galvanizante. E, ao nível de grupo, companheiro, amigo e confidente, criando empatias totais, emocionais, sinceras com os jogadores. Coisas que nunca mostraste.
As tuas convocações, as tuas estratégias, as tuas substituições, os teus jogos ocultos – que transparecem, Carlos, desculpa, mas transparecem demais e são causa evidente de falta de alegria no seio da equipa… – foram quase sempre negativos. 
Mas há mais.
As lesões convenientes do Ruben, para não levantar mais polémica; do Nani, por mistério interno que ninguém sabe mas, sem nunca haver boletim médico, tudo indica que foi por forte falta disciplinar não assumida; do Deco, nitidamente por espírito de vingança, o que é feiíssimo.
As ordens do banco, as palestras de intervalo, as escolhas tácticas, as trocas de jogadores – que nem eles próprios aceitam, nem compreendem; o rigor oculto por um sorriso farisaico, para que tudo pareça controlado, quando o que está a ver desenvolver-se todos os dias é revolta e discordância… 
A obsessiva tendência defensiva, as indecisões infantis em lugar e momentos chave. Precisar de municiar atacantes com passes a rasgar, largos e imaginativos e manter o Deco no banco, por birra, é infantil. Ver os ataques passarem por trás do Ricardo Costa, pois não é bem um defesa direito, e ter dois defesas direitos no banco, é, no mínimo, ou teimosia ou autismo. Insistir no Pepe, sempre Pepe para destruir, quando se sabe que ainda não pode estar a 100%...
Mas há ainda mais.
Precisar de atacar e retirar avançados. Deixar as linhas de defesa e medias próximas e desterrar lá para a frente os sacrificados pontas de lança, sem apoio, nem bola, nem municionamento à vista, a vinte metros de distancia, dependendo das explosões do Fábio Coentrão, ou de outros eventuais e raros passes a rasgar, vindos de trás, mas sempre fora do desenlace pretendido. Não estruturar ataque. Não se ver uma construção apoiada e consistente de teia de jogo, vivendo do génio e inspiração de cada um. Não incentivar ataque. Não rematar.
Não apresentar um único esquema de livre estudado, em tantas ocasiões que se prestavam para experimentar. Idem, também não haver combinações visíveis na marcação de cantos.
Outra coisa. 
Ronaldo lá por ter sido o melhor, – se calhar…coisa boa e má, por prematura, que lhe aconteceu… – não deixa de ser um jovem mimado que bate na relva em fúria quando as coisas lhe correm mal. Capitão de equipa? Nunca. Capitão era o Coluna, ou o Germano. Caramba! - Bastava um olhar reprovador e o colega enfiava-se pelo chão! 
E já agora… Motivação psicológica de balneário era …aquilo? 
“Portugal ganhar - Portugal ganhar??!”
Aquilo é pobre e bimbo, Carlos. Não está ao nível da tua formação académica, rapaz! Um discurso patriótico, iluminado, transbordante de História e força, entusiasta – tipo egrégios avós e às armas, talvez! … Agora 
“Portugal ganhar - Portugal ganhar??!”
É fraquíssimo, é pimba, motivacionalmente nulo, quase regressivo, infantil, sem criatividade, nem slogan, nem eficácia. O Deco fez muito bem em virar costas. 
Eu faria o mesmo. Achava ridículo.
Outra coisa, embora mais subjectiva, mas lá vai. Convocar o Castro e o Costa e não levar o Carlos Martins, nem o Ruben, nem o Moutinho?! Convocar o Daniel não sei que e não convocar o Quim?! Há para aí alguma embirração escondida? Este não é um interesse nacional acima de quaisquer ódios caseiros, como tanto proclamaste?
Portugal não podia ganhar sem atacar. Ficar à espera que Ronaldo “aconteça”, sem apoios, nem ataque estruturado, é mau para ambas as partes e nunca vai acontecer. 
Tal como o superlativo bloco defensivo que desenhaste, há que construir um outro bloco, enredante e ofensivo que terás de imaginar. Ou alguém por ti. Com espontaneidade e alegria criativa. Que é uma coisa que não incutes, com esse ambiente, nem com esses escassíssimos e espartilhados atacantes, em lugares e funções de que não gostam, e onde não são rentáveis.
Para dirigir uma selecção de um Pais é preciso a formação, o estudo, a calma, a cultura e ponderação que inegavelmente possuis. Mas é preciso a ambição, o golpe de génio, a raiva, o combate, a capacidade motivacional, o cuspo, o grito, o abraço sincero e a agressividade atacante que inegavelmente sofreias.
E a relação humana com os jogadores, não sei, Carlos, porque ninguém sabe. 
Mas cheira que não pode ser boa. Eu, se fosse internacional, declarava a minha indisponibilidade já amanhã, pelo menos enquanto andasses por lá. 
Uma pequena e persistente fissura na clavícula impede-me de ser mais explícito.
Mas a essa cura-se, mais semana menos semana. 
E tu se calhar também continuas – ou não – mais milhão, menos milhão.

Sempre ao dispor,
O meu abraço amigo,
Pedro Chora Barroso
Licenciado em Educação Física 
Post grad em Psicoterapia Comportamental 

Ps – se a FPF me quiser contratar, como Consultor animador, Especialista motivacional e Analista comportamental para dinâmica de grupos…estou ao dispor na volta do correio e muito obrigado. Quaisquer 50000€/mês e fecho contrato.

 



6 comentários

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De um pouco muito a 12.07.2010 às 20:33

Bem... a avaliar pela fotografia (e por uma presença na TV por ocasião da morte de Saramago), o Carlos não deve ser um pouco mais novo: deve ser muito, mas muito mais novo.
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De mcm a 12.07.2010 às 20:53

Sem mais comentários:
- Este professor de ginástica é um fracasso!
E é um amigo da onça.
Antes se ficasse por aquilo que, ainda assim, tem feito melhor...
- As canções e os poemas.
E depois, se alguém invocasse uma «amizade» distante para, publicamente me insultar, eu levaria mt a mal e riscava-o da minha lista.
Ps: Não conheço CQ. Não percbo nada de futebol mas sei o que é e para que serve, nos tempos modernos, "cavalgar a onda".
sto que este senhor escreve e assina, com o seu «pedigree» académico, é mt feio.
Faltam os valores.
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De A Páginas Tantas a 12.07.2010 às 21:12

Olha-se para o gajo e reconhece-se imediatamente um professor de educação física, eheheh
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De Octávio dos Santos a 12.07.2010 às 21:17

Paulo Bento para seleccionador nacional, o mais depressa possível!
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De Anónimo a 12.07.2010 às 21:51


E o esférico, mais o esférico, o esférico, sempre o esférico. Vou fazer um poema sobre tremoços, cerveja, couratos, caracóis e «cuspo». E sobre o golo, e o «foi quase golo», a lágrima e o abraço trágico dos «gajos» do esférico, também - os que quase viram o golo. E a baliza. Em jeito de D. Diniz, com as suas canções de amigo, vou fazer as canções do esférico. No meio disso tudo hei-de arranjar um verso para o bébé ronaldo, com o nome do «dada» pois claro, ....em homenagem a um tipo que tem menos pêlos nas pernas do que qualquer mulher.
Com sobrancelhas de curvatura hollywoodiana, de fazer andar o Ben - o da Barbie - andar atrás do capitão de Portugal.
Image


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De Ferrenho desportista a 06.09.2010 às 13:59

palmas, palmas
ilustre texto grandes palavras, ninguém descreveria melhor
foi a melhor descrição que li sobre o mau trabalho do queiroz
grande barroso

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