por João Távora, em 17.04.10
CAMPO D' OURIQUE
Campo de Ourique foi durante muitos anos o centro da minha existência. Um mundo quadriculado e plano, bom para andar de bicicleta, com o melhor cinema de Lisboa, o Europa. Sempre me pareceu o bairro perfeito, onde morava parte da minha família, se circulava com relativa segurança e possuía
a mais útil carreira de autocarro, a n.º 9, directa para a Avenida da Liberdade e para o mundo. Cresci num 3.º andar, com a escola da câmara logo ali em baixo. O rumor da agitada reinação nos recreios da manhã ou da tarde inspirou a minha infância feliz.
Com uma família conservadora e os irmãos em casa, foi muitas vezes com os miúdos da rua que aprendi os mais fascinantes segredos da vida. No meio de jogos e correrias, de bicicleta ou com a bola nos pés. Ali ao lado da minha casa, ficava a Praça Afonso do Paço, um rectângulo inclinado com descampado ao meio, perfeito para o deslizar da minha reluzente bicicleta. Era aí que marcávamos o alcatrão com autódromos delineados a giz, nos quais nos debatíamos em corrida com os melhores e mais afinados modelos
Matchbox de cada um. A cada saída da pista, retornávamos a última meta atravessada. O primeiro a completar uma volta ganhava. Ao cair do sol de Setembro, mesmo antes de recolher a casa, ainda valia galgar o muro ao fundo da encosta e trepar à copa da figueira para apanhar os últimos figos doces. E talvez romper as calças ou esfolar um joelho.
Mais crescido, quantas vezes à saída da Escola Manuel da Maia, ainda roubávamos tempo e na praceta ao final da Coelho da Rocha parávamos para a futebolada da ordem. Marcadas as balizas com as mochilas, dois para dois com guarda-redes avançado, esgalhávamosum animado desafio que, com sorte, não terminava com os atletas em fuga depois de partido um vidro.
O nosso pesadelo morava ao lado, ali em baixo da Rua Maria Pia. Os “índios” do Casal Ventoso permaneciam uma ameaça constante, significavam o fim da brincadeira, em fuga ou em lágrimas. Uma bola de futebol, mesmo de plástico de má qualidade, atraía demasiadas atenções.
Os jogos eram disputados com um olho no burro e o outro no cigano. Nem de longe imaginávamos então o protagonismo que esse malfadado bairro tomaria nas nossas existências.
A minha vida em Campo de Ourique também se jogava às escondidas ou à bola nos pátios e jardim da magnífica igreja do Santo Condestável. Isso acontecia a seguir à catequese, antes da missa vespertina ou quando de passagem para a Travessa do Patrocínio, a casados meus avós. Este omnipresente templo neogótico que se vislumbrava da minha janela (construído com a colaboração do meu avô José, engenheiro civil), foi o palco dos meus primeiros e íntimos passos de aprendizagem espiritual.
Depois Campo de Ourique também me lembrará sempre o Jardim Maria da Fonte (da Parada), ao qual lá em casa chamávamos o Jardim das Rãs. O Eduardo dos Livros onde se podia comprar um número atrasado do Diário de Notícias, trocar uns livros do Patinhas,comprar os cromos mais difíceis ou até Valores Selados. E havia os esplêndidos bolos da pastelaria Aloma.
De Campo de Ourique foram os meus primeiros amores e foi aminha primeira namorada.
E havia a Compasso, loja onde se encontravam todos os discos, livros e artefactos que fariam a felicidade de qualquer um. Eram longos os momentos de deliciosa cobiça que nos concediam na loja, a mim a ao meu irmão. Era assim que, plenos de desejo e de bolsos invariavelmente vazios, folheávamos as últimas novidades de bd e pedíamos para rodarem um lp meticulosamente escolhido nos infindáveis escaparates de música.
Assim, foi em Campo de Ourique que cresci. Que me fiz rapaz, a bem e a mal. Que atravessei e palmilhei tantas vezes, tantos quilómetros. Para ir
à escola, ao liceu, à praça e à farmácia, aos meus avós, à igreja. Finalmente para mim prevalecerá sempre uma alegre recordação deste bairro burguês de toponímia republicana, mas afinal tão luminoso e desempoeirado, feito à medida das pessoas. Um sítio onde se pode ser feliz.
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Texto revisto e reeditado