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Não tenho o costume de viajar ou ir “à terra” no Natal ou na Páscoa, pois possuo ancestrais raízes alfacinhas, maternas e paternas, também reforçadas no cruzamento com “a tribo” da minha mulher, que nestas ocasiões festivas me prendem a Lisboa.
Vem isto a propósito duma tradição sui generis que eu e os meus irmãos ainda hoje cultivamos, independentemente do forte significado religioso que possui para nós a Páscoa cristã. Digamos que é uma “janela mundana” no culminar de uma Semana algo austera e introspectiva: todos os anos, no Sábado de Aleluia juntamos os miúdos e vamos ao Jardim Zoológico passar a primaveril tarde que precede a vigília Pascal daí a umas horas. Este ritual foi fundado pela minha avó materna, uma senhora de carácter aberto e divertido que, sob alguma reserva do meu pai, mais austero, juntava neste preciso dia os netos todos para este mesmo programa que se enraizou no nosso calendário familiar. Aproveito para dizer que foi desse lado materno, e dos meus tios da Avenida da Liberdade, que herdei uma arejada influência liberal e burguesa.
As memórias dessas tardes são felizes e difusas, pois misturam-se de uns anos para os outros. A primeira de todas é a da inusitada experiência de subir as escadas rolantes da estação de Sete-Rios, que ligava a casa dos meus avós à Quinta das Laranjeiras. O passeio começava sempre com a alimentação das carpas do lago, onde de seguida se alugavam várias gaivotas. Lembro-me de passear de gaivota, como me lembro de andar de patins ou pedalar de carro numa pista que simulava uma escola de condução infantil com instrutor e sinais de trânsito. A folia atingia o seu auge com a oferta duma moeda para o elefante tocar a sineta, com a Aldeia dos Macacos, um cartucho de amendoins, um gelado Olá ou um fofo de Belas e uma Larangina C na esplanada do bar. Lembro-me duma vez em que, a colher azedas tenrinhas, o grupo se aventurou numa zona mais recuada do jardim, com a surpreendente descoberta de uma quintarola, com coelhos, patos e galinhas. A tarde terminava amiúde no antigo parque dos baloiços, já perto da saída, onde se encontrava um carrossel e uma fascinante máquina, na qual uma banda de animaizinhos mecânicos (ou seriam só macacos?) tocavam uma ritmada marcha de coreto a troco duma moeda. Claro que o fascínio principal do jardim era exercido pelos inúmeros animais exóticos, que o meu irmão José conhecia de cor e me guiava nas respectivas singularidades, os quais eu revia todos os anos com o espanto de uma primeira vez.
O nosso grupo era sempre grande e animado, possivelmente variava quase todos os anos, com mais uns primos ou tia, participantes menos assíduos. Eram tardes intensas e divertidas, que recordo com saudade. Hoje, é em homenagem à avó que reunimos anualmente os sobrinhos e
irmãos que se queiram juntar para uma tarde divertida no Jardim Zoológico. Da minha parte, faço-o porque sei bem quão importantes vão ser, pelas suas vidas fora, muitas memórias felizes. Quantas mais melhor, para que os seus corações consigam sempre renascer fortes na Páscoa.
Fotos daqui
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