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Lágrimas de crocodilo

por José Mendonça da Cruz, em 22.03.10

«O Governo ultrapassou-nos pela direita», diz o Expresso que lhe disse «um dirigente do CDS» na semana passada .
É o género de afirmação que soa a música aos ouvidos do governo. Porque aquilo que conduziu à ruína e a um PEC empobrecedor e preguiçoso que nem faz crescer nem estabiliza foram só políticas de esquerda.
Bem podem vários dirigentes socialistas fingir que acordaram tarde. As suas lágrimas de crocodilo derramam-se sobre o resultado inevitável daquilo que promoveram e defenderam.
Bem pode Manuel Alegre tonitruar sobre o «custo social excessivo» do PEC; foi ele que esteve calado e apoiou os desperdícios do governo Sócrates em festas e obras de fachada. E é ainda ele que, ao criticar as privatizações anunciadas, defende que fica comprometida a «função estratégica do Estado». Expende assim o exacto e mesmo pensamento de esquerda, maquilhado de keynesianismo, que levou os socialistas a asfixiar em impostos os cidadãos e as empresas, para depois se mostrarem incompetentes a ajudá-los com o dinheiro deles.
Bem pode pudicamente Paulo Pedroso dizer que «queria simpatizar com o PEC mas não consigo (…) depois de me confrontar com as facturas que ele implica para 2011, 2012, 2013». Achou o quê? Que o saco era sem fundo e que não teríamos que pagar aquilo que as melhores cabeças políticas e económicas de todos os quadrantes há anos avisavam que pagaríamos? Onde estava, tão calado, quando o governo socialista contraiu as dívidas que consubstanciam as facturas? Ouviu-se-lhe um ai, porventura, quando primeiro-ministro e ministro das Finanças se fingiram surpreendidos com um défice de 9,3%, depois de uma crise que andaram meses a dizer que não havia?
Bem pode João Cravinho chorar-se que Sócrates tenha deixado cair «as bandeiras de esquerda». Deixou? Quais bandeiras? Então aumentar duas vezes os impostos não é de esquerda? Crer na vantagem do Estado sobre os livres agentes económicos não é socialista? O TGV não é bom, as autoestradas não impulsionam, segundo a esquerda, a economia? Castigar o sucesso e achar que são «ricos» e expoliáveis todos os que ganham mais de 7250 euros por ano (605 euros mensais) não é de esquerda?
Bem pode Mário Soares – que ainda há semanas via qualidades ímpares em Sócrates – queixar-se agora de que «quando o país está em dificuldade é preciso que o Estado tenha poder e capacidade monetária». Porque critica então o PEC? Foi a reserva de poder e capacidade monetária ao Estado que nos trouxe à beira da bancarrota.

Não. Foram políticas de esquerda que nos trouxeram aqui. Não foi a crise internacional, foram os socialistas que nos conduziram à ruína. Foi o governo socialista que duas vezes aumentou a carga fiscal, que gastou e aumentou a dívida externa, que cavou o défice público, que sufocou a economia com a desculpa de arranjar meios de a animar, que cavou o fosso entre mais ricos e mais pobres, que enganou miseravelmente os Portugueses. Foi tudo obra dos socialistas, foi tudo obra da esquerda.
E as privatizações? Privatizar, ao menos, não é de direita? Não, privatizar assim é encontrar um remédio de aflição para uma situação que se criou, é vender para obter liquidez quando o mercado mais desaconselha que se venda. Criar as condições para se chegar a este beco é irresponsável, e privatizar assim é perdulário. Estas privatizações são exemplarmente de esquerda.

A direita sempre disse outra coisa: menos gastos públicos, nada de grandes obras, menos impostos, menos e melhor Estado, apoio às pequenas empresas, investimento de proximidade, poupança.
Foi a esquerda a promotora da estagnação, em vez da estabilidade; vem da esquerda a pobreza, em vez do crescimento. Quando a ouvirem chorar, chamem-lhe mentirosa e hipócrita. E passem uma factura pesada.

 

 

Três eleitos, outra vez. Depois de provocado o óbito, presidindo agora ao velório.



11 comentários

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De É de caixão à cova... a 22.03.2010 às 19:05

Estas privatizações de empresas monopolistas (entre as quais os CTT!) dão para pagar uns mesitos da dívida, nada mais. Não têm sequer o sentido de devolver à sociedade civil o que esta deveria (e saberia) gerir melhor.

E quero ver o que dirá o pateta quando o PS, à falta de melhor (na sua perspectiva), o vier apoiar...

Image
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De A. S. Pereira da Silva a 22.03.2010 às 20:38

Um post notável.
Devia ser distribuido por todo o País, a ver se esta gente cai na real... Mas não vai cair: estamos mesmo condenados à pobreza que a esquerda dos Soares, dos Sócrates e dos Alegres "conquistou" para Portugal.
Só nos resta emigrar, enquanto é tempo de fugirmos à fome. 
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De fernando antolin a 22.03.2010 às 21:02

Esta foto é digna sucessora duma capa,dos idos de 75,da revista TIME,com Costa Gomes,Otelo e Vasco Gonçalves.
Igualmente assustadora...
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De ruy a 22.03.2010 às 22:11


As praticas políticas seguidas por Sócrates e o seu governo não são de modo algum medidas de esquerda.
Os cortes das Funções Sociais do Estado, o aumento de impostos, as privatizações, as "reformas" na Educação e na Saúde e na Segurança Social são opções políticas de direita, do neoliberalismo, deste pensamento único que é comum aos líderes europeus quer eles se apresentem com socialistas, sociais-democratas, trabalhistas ou democratas-cristãos. creio não ser correcto classificar hoje as políticas dos países da UE por esquerda ou direita. Isso nada significa quando no essencial as suas praticas são todas elas comuns.  
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De Maria da Fonte a 22.03.2010 às 23:22

E desde quando o Liberalismo seja Jacobino, falsamente Demodé ou Neo Liberalismo, falsamente Igualitário  e Vanguardista Serôdio, não é a pura essência da Esquerda?

Da esquerda burguesa burocrática, anquilosada e parola, que para mal dos nossos pecados, e com a AJUDA PRECIOSA DA ESPANHA, DA FRANÇA E DA INGLATERRA, cada qual antevendo já a futura parcela que lhe caberia nos despojos de Portugal, espatifaram uma Nação inteira, há cerca de 250 anos.

Não existe Direita alguma!
Só existe Esquerda!
Num Monólogo entediante e estúpido, orquestrado nas caves bafientas dum grupo de alienados, que se julga visionário, e que está a pouco e pouco a matar Portugal.

Portugal, a Terra de origem dos Nasr, dos Homens que tinham as asas do Espírito, que os elevava acima da mediocridade humana, foi transformado pelo Liberalismo, nisto.
Nesta aberração, onde até  as crianças preferem apodrecer no fundo dum Rio, a continuar a viver este vazio absurdo.
Sem esperança.

Maria Da Fonte
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De José Mendonça da Cruz a 23.03.2010 às 01:54

Cá está, exactamente, o erro lógico que critiquei: tomar os efeitos por políticas. O que os socialistas fazem agora, tinham inveitavelmente que fazê-lo por causa das políticas de esquerda que seguiram: crença no Estado como dinamizador da economia; crença nas grandes obras públicas como factor de emprego; crença na maior eficácia do investimento público, mesmo através de uma carga fiscal asfixiante que inviabiliza investimento privado, consumo e poupança; crença no igualitarismo que retira meios aos estratos economicamente mais inovadores e activos; crença no negócio de bastidores, nos PINs para amigos.
 Agora o Governo toma medidas de direita? Não, não são medidas de direita, são só medidas atabalhoadas para empurrar a bancarrota com a barriga.
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De JMG a 22.03.2010 às 22:49

Não gosto de elogiar, nem de dizer bem - não se acrescenta nem melhora nada elogiando. Mas não resisto: excelente texto.
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De Velho da floresta a 23.03.2010 às 00:21

Sempre considerei os governos socialistas desde o primeiro como irresponsáveis, sendo os vários até hoje apenas cambiantes de maior ou menor irresponsabilidade, agora acusar o partido socialista de ter politicas de esquerda é um exagero, principalmente depois de Soares ter posto o socialismo na "gaveta". Aquilo que é emblemático do PS é uma incrível e asinina incompetência em governar o país, aliada a uma enorme e cada vez maior clientela sedenta, enquanto que no PSD os problemas são os mesmos, mas a incompetência não é tão acentuada e o pelotão dos que também têm direito, é menor, menos ruidoso e mais bem educado, se bem que no fundo a ambos falta a coragem para cortar a direito e romper com os interesses instalados na sociedade civil e subsidio dependência da classe empresarial, sendo na realidade apenas faces da mesma moeda em que uns são mais despesistas e outros menos, pois não é por acaso que há muitos anos registamos deficits sucessivos. A culpa não pode continuar a ser atirada de um partido para outro, a culpa tem que ser apontada e é de todos os partidos que nos têm governado, em regra mal, quando não pessimamente, politicas de esquerda e de direita, hoje isso é muito difuso para não dizer inexistente, infelizmente o que acontece na realidade governativa nacional é gastar muito e mal ou gastar muito e mal, mas não tão mal.
Um pequeno exercício, alguém sabe desde que ano começamos a ter deficit permanente.
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De José Mendonça da Cruz a 23.03.2010 às 02:10

Meu caro e sempre bem-vindo jovem Velho: muito do que gostaria de responder-lhe já está na resposta a um comentário acima. Gostava só de citar-lhe a estes propósitos Joaquim Pina Moura (confesse, lembrar-se-ia de alguém mais insuspeito?) que há dias dizia no seu programa com Jorge Braga de Macedo que algumas privatizações que aconteceram têm, no entanto, sido acompanhadas por um crescente dirigismo estatal da economia. Uma das desculpas a gosto da esquerda para recusar o mercado é a de que «não temos empresários». Ah não temos?! Mas que há-de fazer um empresário em Portugal senão confraternizar com o governo, sabido que todos os bons negócios são chumbados ou viabilizados nos corredores do poder, e que o Estado se mete e condiciona tudo, e que quem não obedece é punido?
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De Anónimo a 23.03.2010 às 13:26

No fundo resume-se a isto:


A ESQUERDA NÃO CRIA RIQUEZA!
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De José António Abreu a 24.03.2010 às 10:49

Excelente. Mas não há nada a fazer: as ideias feitas têm um poder imenso e o «neoliberalismo» as costas largas.

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