Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O Polvo descrito por Balsemão (e uma versão para estúpidos)

por José Mendonça da Cruz, em 08.03.10

O Dr. Francisco Pinto Balsemão fez, na passada 4ª feira, 3 de Abril, na Comissão de Ética da Assembleia da República, durante as audições sobre liberdade de expressão, uma intervenção de abertura cujo conteúdo, num país moderadamente civilizado, teria preenchido noticiários, indignado os cidadãos e feito cair o Governo.

Em resposta à pergunta inicial do deputado Pedro Duarte, Balsemão pediu licença para discorrer sobre 2 cenários alternativos que responderiam a várias perguntas que previsivelmente seriam feitas.

Os deputados da comissão e os espectadores do canal ARtv ouviram então Balsemão retratar 2 cenários.

O primeiro, a que chamou de uma conspiração para «condicionamento e redução da liberdade de expressão», e um outro, a que chamou o «cenário do acaso e da incompetência» e a que eu, menos cavalheirescamente, chamarei o «cenário para estúpidos.»

 

O cenário da tentativa concertada de condicionar a liberdade de expressão tem, segundo Balsemão, 10 pontos. Que enunciou:

Ponto 1. Produção de legislação referente à Comunicação Social que enfraqueça os grupos privados e fortaleça os serviços públicos, com o intuito de «burocratizar, espartilhar e centralizar»:

- O Estatuto do Jornalista e a nova regulamentação dos direitos de autor (que, acrescento, impossibilitavam que um jornalista trabalhasse simultaneamente para, por exemplo, um jornal e um site do mesmo grupo ou até com o mesmo nome, duplicando assim os custos);

- o reforço dos poderes da Entidade Reguladora da Comunicação, dando-lhe maior capacidade de intervir e se intrometer nos conteúdos;

- uma nova lei da televisão que, nomeadamente, sujeitava os canais privados a exames quinquenais dos quais dependeria a manutenção ou cassação da licença (enquanto a televisão pública, que não pratica serviço público e concorre em audiências e publicidade, recebe 324 milhões de euros de dinheiro dos contribuintes, como recebeu em 2009);

- uma nova lei contra a concentração de meios (que, acrescento, tropeçou em críticas sobre os seus propósitos evidentes, e no caso particular dos orgãos de comunicação da Igreja, que seria considerada dominante por deter vários jornais regionais e a Rádio Renascença);

Ponto 2. A PT compra a Media capital, José Eduardo Moniz sai e Manuela Moura Guedes é silenciada; a compra recai sobre 35% inicialmente, com intuito de compra da totalidade do capital mais tarde; as rádios da Media Capital são partilhadas entre Luís Montez e a Ongoing;

Ponto 3. Após notícias postas a circular sobre dificuldades financeiras da Impresa (Sic, Expresso, Visão), a Ongoing toma 50% após aumento do capital e controla a Impresa;

Ponto 4. o Correio da Manhã é comprado por 140 milhões de euros, não ficou claro por quem;

Ponto 5. A Controlinvest de Joaquim Oliveira (que, acrescento, comprou Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF com um empréstimo de 800 milhões negociado com a Caixa Geral de Depósitos, através de Armando Vara) é comprada;

Ponto 6. RTP e RDP são controladas;

Ponto 7. A agência noticiosa Lusa é controlada;

Ponto 8. É lançado um 5.º canal de televisão generalista para dividir mais as audiências e receitas publicitárias de um mercado limitado. A Zon, por si ou obrigada, concorre, e aparece um 2.º concorrente sem credibilidade económica para fazer crer que há grande interesse;

Ponto 9. A Televisão Digital Terreste paga, que seria o próximo passo lógico no crescimento dos grupos privados, afinal não avança;

Ponto 10. O jornal semanário Sol fecha.

Estes 10 pontos seriam, disse Balsemão «o cenário bingo».
E para a sua concretização existiriam financiamentos:

- do lado da PT, cujo fundo de pensões, aliás, investe na Ongoing;

- do lado da CGD, que é accionista da PT e da Zon;

- do lado do Banco Espírito Santo (BES), que é accionista da PT (11,3%) e da Zon (5%);

- do lado do BCP (após a tomada de assalto, acrescento eu).

 

Mas Balsemão trouxe para contar um cenário alternativo de «acaso e incompetência», uma versão em que, com elevação e mestria, oferece uma explicação alternativa a quem decide não querer ver. Nesse cenário (que serve bem para os socialistas atirarem areia para os olhos e os estúpidos acreditarem):

Ponto 1. Afinal a legislação  que parecia concebida com determinado objectivo, não foi concebida com objectivo nenhum;

Ponto 2. A PT nunca quis comprar a Media Capital, tudo não passou «de uns quantos administradores que se meteram em aventuras» sem conhecimento nem autorização do governo;

Ponto 3. Em relação à Impresa, a Ongoing correu só pelo seu próprio gosto, e foi por mérito seu próprio que garantiu a cobertura dos enormes investimentos necessários;

Ponto 4. Afinal, o CM nunca esteve para ser vendido;

Ponto 5. A Controlinvest é «livre, independente e rentável»;

Pontos 6 e 7. RTP, RDP e Lusa são completamente independentes;

Ponto 8. A Zon estava, afinal, interessadíssima num 5.º canal;

Ponto 9. A TDT paga afinal não tinha nenhum interesse;

Ponto 10. E vejam que o Sol nem fechou.

 

E - perguntaram, como se fosse necessário perguntar - como se situa Balsemão em relação a esse dois cenários?

E Balsemão respondeu citando um discurso seu, feito em Julho de 2007, perante a Confederação de Meios, onde já denunciava, peça por peça, o maior ataque à liberdade de Imprensa desde o 25 de Abril.

Lembro-me muito bem desse jantar. Foi no restaurante Estufa Real, na Ajuda. Estavam presentes o então ministro do pelouro, Santos Silva, os patrões dos principais grupos de comunicação social (Cofina, Media Capital, Controlinvest e, claro, Impresa). E o presidente da Confederação de Meios era Bernardo Bairrão, que discursou no mesmo sentido e, na altura, ainda não engolia sapos e elefantes para branquear intromissões socialistas.

Balsemão denunciou, de facto, corajosamente e em voz alta, as ameaças. Lembro-me que não saiu uma linha nos jornais do dia seguinte; nem a SIC dedicou ao seu fundador e ao grave tema (claramente a notícia do dia e da semana) um minuto de antena, nem a Visão o referiu na 5ª feira, nem o Expresso no Sábado. A subserviência e o medo já faziam, então, bom caminho. Digam-me, porém, se tomaram conhecimento destes cenários a semana passada na rádio, na televisão ou na imprensa.

 



6 comentários

Sem imagem de perfil

De Maria Alves a 08.03.2010 às 16:40

Bom artigo. Não tive conhecimento destes cenários na imprensa. Mas vou já divulgar este seu artigo.
Sem imagem de perfil

De A. Pinto Pais a 08.03.2010 às 18:09

O socretinismo anda à rédea solta, tripudiando sobre o país.
O PR dormita e prepara uma entrevista na RTP, sob a batuta de uma das mais notórias serviçais do mesmo socretinismo.
Infelizmente, já não há tropa (como havia há 36 anos).
Nada a fazer, portanto.
Sem imagem de perfil

De Vasco Rosa a 08.03.2010 às 18:41

Não entendo a razão de a SIC não ter colocado (na íntegra) online a declaração de Pinto Balsemão no Parlamento, a jeito do que fizera e bem com a entrevista de JS a MST. Seria um documento fundamental para avaliar a posição de FPB, cuja coragem sublinho.

No fim da tarde desse dia, Martim Avillez Figueiredo, director do i, apareceu no ionline fazendo uma declaração sobre o excepcional testemunho de FPB e remetendo para a edição do dia seguinte e mais desenvolvimentos — que infelizmente não pude seguir.

Que a situação é gravíssima, estamos todos convencidos. Falta só chutar o balde, como se diz no Brasil.
Sem imagem de perfil

De Vsc a 08.03.2010 às 20:53

Bom «post»!
Sem imagem de perfil

De Sou loira, prontos a 10.03.2010 às 01:21

Já estamos em Abril, oh tio Balsemão?
Sem imagem de perfil

De Cartas de Londres a 10.03.2010 às 22:02

Boa Súmula(ção) :: congratz ! ;-)

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Ana ☯

    ... e o "Estado" somos nós...... e, por falar em i...

  • Vorph "Girevoy" Valknut

    Socializam-se nos prejuízos, privatiza-se lucros. ...

  • voza0db

    Para os que acham que "o mundo inteiro" é apenas o...

  • voza0db

    Esta é [ainda] a lenga lenga que a OMS afirma no s...

  • voza0db

    Então é assim que os boçais reagem quando não comp...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2006
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D