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Evelyn Waugh e um filmezeco rasca

por José Mendonça da Cruz, em 03.03.10

 

Passa repetidamente nos canais de cabo TVCine um filme de 2008 realizado por um Julian Jarrold e intitulado Brideshead Revisited. O que a série de televisão fez de justiça a Evelyn Waugh, em tom, em qualidade literária, cinematográfica e de representação, este desentende, maltrata, ultraja a obra do grande escritor.

Onde, no livro, é retratada uma grande amizade masculina, cheia de contenção, silêncios e gosto, sendo que um dos amigos é homossexual, o filme dá-nos uma paixoneta maricas.

Onde no livro é mostrado o encontro entre uma alta burguesia serena e educada (Charles Ryder) e uma aristocracia culta, esteticamente exigente, afluente e excêntrica (Sebastian Flyte e a sua família), o filme não se levanta acima duma sucessão de encontros e namoricos tontos. Onde no livro há cumplicidades, no filme há uma rivalidade obscena entre irmãos na caça ao recém-chegado.

No livro, vemos uma família despedaçada pelo conflito entre desejo e fé. O pai, lord Marchmain, que escolheu a transgressão e se refugia com a amante em Veneza; a filha, Julia Flyte, que calcorreia «maus caminhos» sem nunca perder a noção de pecado e culpa; Cordelia, jovem e crente, distribuindo amor e inocência por quem a perdeu, família e amigos, porque é um anjo bom na história; a mãe, lady Marchmain, católica convicta permanentemente guiada pelo dever de trazer filhos e marido ao rebanho. E Charles Ryder, menos estruturado por enquanto, mas curioso, e amigo e amante.

Mas no filme - neste filmezeco desclassificado - o pai é um tonto devasso, a mãe uma tirana classista, Julia uma flausina fina, Sebastian uma bicha maluca, e Charles não é nada excepto um mau actor mal dirigido. Tudo no filme é vulgar, baixo, indigente, obtuso, histérico.

Oiço muito, em casos destes, que tem que ser assim para o grande público. Mas a série não foi assim. E, além disso, não é verdade. É apenas falta de talento. Porque filmes redutores como este não tornam obras acessíveis ao grande público. Antes, privam o grande público daquilo que faz uma obra grande.

Nem consegui ver o fim ao filmezeco vulgar e ordinário. Mas tenho a certeza que omitiu, por não poder comportá-la, a cena - que o livro nos vai fazendo antecipar amarguradamente - em que Julia se despede de Charles. Eis uma cena em que a contenção e a elegância tornam a dor mais afiada: «When at last we met alone it was by stealth, like young lovers. Julia said: "Here in the shadow, in the corner of the stair - a minute to say good-bye".» E Charles, que como nós, leitores, mais que pressentir, sabia: «So long to say so little.»

Um amor grande - e inevitável desde a primeira vez que os dois personagens se cruzam de raspão - é decepado. A dor desaba com uma frasezinha pequena. Por uma questão (será antiquada?) de valores e fé. Julia continuará a ser, como ela diz, «má». «Sempre fui má. Provavelmente serei má outra vez, serei castigada outra vez. Mas quanto pior sou, mais preciso de Deus. Não posso fechar-me à Sua misericórdia. Esse seria o significado; começar uma vida contigo, sem Ele.»

Livros assim têm que ser respeitados. Para filmes que lhes cospem em cima devia haver multas do calibre da bancarrota. 

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2 comentários

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De Anónimo a 03.03.2010 às 13:03

Não posso concordar mais com este post. Foi isto que senti embora não fosse capaz de o escrever de forma tão clara e exacta.
BLX
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De Herr Flick a 03.03.2010 às 16:40

O Brideshead Revisited constitui, quanto a mim, um esforço de Julian Jarrold , mas o resultado fica aquém da expectativa.
A tarefa era imensa e ingrata: resumir em filme o clássico de Evelyn Waugh , sabendo que a comparação com a magnífica série filmada em 1981 seria inevitável. Contudo, Jarrold fez o que pode.
Talvez a crítica mais evidente parta da óbvia constatação de que grande parte da subtileza e do requinte, que couberam na série, se perde no filme de Jarrold . E esta comparação tem tanto de odiosa como de inevitável.

Convém não esquecer que, mais que tudo o resto, no centro da obra de Waugh está uma certa concepção de Deus, com profundas ramificações na moralidade, na culpa e na expectativa de redenção. Adultério, homossexualidade e desejo são subtilmente dissecados a partir desta matriz, como marca identitária de uma "certa" aristocracia inglesa católica da primeira metade do século XX.

Apesar de tudo isto, vale sempre a pena revisitar Brideshead (e outros, estou a lembrar-me das obras de Austen e Bronte , po exemplo).
E quem não tiver o “odioso” termo de comparação, talvez possa até deliciar-se.

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