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Igual ao litro

por Duarte Calvão, em 26.01.10

      

Para um monárquico como eu, as eleições presidenciais representam sempre um dilema. Devemos votar num candidato da nossa simpatia política, ou pelo menos impedir que outros sejam eleitos, ou é melhor abster-nos, não contribuindo para um modo de chefia de Estado em que não acreditamos? Nas últimas três presidenciais (fui abstencionista em todas as eleições até 1996), a opção era para mim clara, já que nunca tinha havido um presidente eleito pela direita. Amigos meus, republicanos, diziam que com Cavaco é que ia ser, agora é que iríamos ver como o cargo de presidente deveria ser exercido. Acreditei e votei nele. Quatro anos depois, tenho o dilema resolvido. Creio que nunca mais votarei em nenhum candidato à presidência, a não ser que seja para impedir algum lunático de esquerda ou de direita de ser eleito.

Cavaco, provavelmente o melhor primeiro-ministro português do século XX, foi uma decepção total. Nunca poderei compreender o modo como ele deixou o governo socialista atacar a liberdade de expressão, só reagindo timidamente perante o escândalo da PT comprar a TVI, as relações entre o Governo e o mundo empresarial (logo ele, que deveria ter um conhecimento especial destas questões), a loucura das contas públicas, da qual só parece se ter apercebido com o País à beira do colapso, como confirmavam as agências internacionais, já para não falar das trapalhadas das "escutas"...Sabendo, como ele sabe, que os portugueses de hoje são mais temerosos do poder do que amantes da liberdade, que a nossa sociedade está incapaz de reagir a casos como o da TVI, que são facilmente manipuláveis por uma Comunicação Social generalizadamente servil ao poder político e económico, esperava do chefe de Estado do meu país que ele fosse a garantia de uma sociedade verdadeiramente democrática, que puxasse pelas nossas qualidades e chamasse a atenção para os nossos defeitos. Sendo um homem com experiência do poder, esperava que ele soubesse que estas questões não se resolvem com "recados" em discursos ou visitas de comitivas em jeito de "presidência aberta". Há quem diga que eu compreendo mal os poderes constitucionais do presidente, que ele não pode intervir dessa maneira. Pois é, se calhar compreendo mal, mas então para que serve um presidente, cuja eleição e proveniência partidária impede à partida de ser um símbolo de unidade nacional? Para mim, é igual que seja Cavaco ou Manuel Alegre a ser eleito. Aliás, às vezes até penso que Alegre compreenderá melhor qual o papel de um chefe de Estado na garantia das liberdades fundamentais numa sociedade democrática.


20 comentários

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De Pois é a 26.01.2010 às 10:29

Um rei é que resolvia esses problemas todos.
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De João Távora a 26.01.2010 às 10:58

Mesmo assim prefiro o Cavaco - para haver poesia temos de comer primeiro. Mas realmente essa guerra também não é minha.
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De Ega a 26.01.2010 às 13:39

Ao longo da minha vida, tenho muitas vezes posto lá o voto na perspectiva do «mal menor».
Nas últimas, assim foi: antes Cavaco que Alegre ou Soares...
Agora, em definitivo, julgo que não: Alegre é a cara da República. E a República não deve andar mais mascarada.
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De Duarte Calvão a 26.01.2010 às 19:06

Não deixa de ter razão, é uma boa observação.
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De Nuno Castelo-Branco a 26.01.2010 às 11:12

Duarte, até poderá ser Louçã na iminência de ganhar Belém. Façam o que quiserem, porque não me dou ao trabalho de participar nesse tipo de "eleição".

Quanto a rei resolver os problemas todos, claro que não resolve. Mas após décadas de uma situação que se vem a agravar de ano para ano, como poderão transmitir à população que algo deve mudar? É que não se trata apenas do rei. Atrás vem a reformulação do sistema eleitoral, a reforma do parlamento, a simplificação autárquica, etc. É um tema para uma longa conversa, mas a questão a reter é que hoje já se discute a hipótese. Um grande avanço, não haja dúvidas.
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De Duarte Calvão a 26.01.2010 às 18:58

Está mais optimista do que eu, Nuno, mas ainda bem. Acho que vai ter que passar, pelo menos, uma geração, até a maioria das pessoas em Portugal compreender coisas tão simples como as monarquias serem tão democráticas quanto as repúblicas, que o principal objectivo dos monárquicos não é privilegiar os nobres, e principalmente desfazer uma visão "progressista" da história, em que a monarquia ficou no passado e a república é "evolução". E há sobretudo o nosso imenso talento em escolher maus governantes...
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De Ega a 26.01.2010 às 21:58

Com grande desgosto meu, acho que está a ser optimista.

O grande paradigma português é este: mudar a nossa mentalidade é levantar Portugal
Quisesse Deus isso se operasse de uma geração para a outra.
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De Maria da Conceição a 26.01.2010 às 15:17

Cada vez me sinto mais monárquico. O Rei representa a história do País, encarna a Pátria e os anseios mais nobres dos Portugueses.
Os presidentes, pelo que se vai vendo, apenas lá estão para defender interesses dos partidos, que dão cabo do País, ou para assegurar reeleições para continuarem a passear à borla ou admirarem o seu ego narcisista.
Já se viu (para quem ainda não se tinha apercebido) que Cavaco é um "bluff". E que está a contribuir, com muita eficácia, para ao afundar desta Nação!
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De Marquesa de Carabás a 26.01.2010 às 17:34

Monarquia ou República: Um tema que, de repente saíu de um círculo mais restrito e começou a ser mais falado.
E se Portugal fosse uma monarquia, seria diferente?
O que é que um rei pode fazer em termos de identidade, união nacional, que um presidente não pode? Em relação à corrupção, ao compadrio, um rei tem de facto mais poder? Será que é mais isento? Tem menos contas a prestar e mais liberdade de decisão?
Em Espanha...a Catalunha seria já um território autónomo se não houvesse uma monarquia? O País estaria dividido se Juan Carlos não fosse, como penso que todos julgam que é, uma figura consensual?



Cumprimentos,




Marquesa de Carabás

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De Duarte Calvão a 26.01.2010 às 19:04

Creio, Senhora Marquesa, que lhe bastará comparar as monarquias europeias com a nossa república para encontrar resposta às suas dúvidas. Sobre Juan Carlos, permita-me acrescentar que era comum há uns anos dizerem que os espanhóis não eram monárquicos mas sim "juancarlistas". Mas o que acontece actualmente é que o príncipe herdeiro é, igualmente, imensamente popular e consensual.
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De Marquesa de Carabás a 26.01.2010 às 21:53

Senhor Duarte Galvão,

Registo com apreço, a sua simpática atitude de responder a este grupo de comentadores, que parece ter encontrado aqui no Corta Fitas, um espaço simpático para conversar e debater ideias.

Este é um tema cada vez mais na ordem do dia.Por esse facto, as minhas questões. Que, servem, sobretudo, para abrir a porta ao diálogo.

Vivi em espanha e observei de perto essas realidades de que fala.

Referi especificamente Espanha, precisamente por ser uma monarquia recente e, por esta questão, estar neste momento a ganhar terreno de discussão pública em Portugal.

Cumprimentos,



Marquesa de Carabás

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De Duarte Calvão a 27.01.2010 às 10:05

Tenho sempre todo o gosto, Senhora Marquesa, em responder aos que me interpelam de forma bem educada e interessante e também a quem os meus modestos posts suscita bons comentários. Quanto ao grupo de comentadores que refere, embora nem sempre compreenda o teor das mensagens que trocam, não só são bem vindos a este blogue como certamente lhe aumentam o interesse.
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De Marquesa de Carabás a 27.01.2010 às 12:48

Senhor Duarte Galvão,


O teor dos comentários será certamente sempre educado.
Quanto às trocas de comentários, entre os comentadores, tem a ver com o facto, de muitas destas conversas terem já muito tempo.
Considere assim uma espécie de telenovela, só que já vai no capítulo nº 15234. E, com muitas ramificações, dependendo das temáticas em questão.
Mas não tem problema nenhum, logo lhe apanha o fio à meada.
Em caso de dúvida: pode sempre recorrer ao seu colega de blogue, o Senhor Rui Crull Tabosa que teve a oportunidade, de seguir mais de perto, as referidas trocas de comentários.


Cumprimentos,




Marquesa de Carabás
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De Maria da Fonte a 26.01.2010 às 19:17

Cara Marquesa

Esta discussão deveria de facto generalizar-se. Incentivar-se até ao mínimo pormenor.

E os pormenores passam pelo Passado. Pela História que está completamente adulterada.

Deturpada pela Inquisição. Deturpada pela Maçonaria, conforme as conveniências.

Há que limpar as sucessivas camadas de falsidade imposta, e com a verdade exposta, então sim ponderar os prós e contras.

Pessoalmente, no caso de Portugal tenho a firme convicção que a República, filha da Monarquia Constitucional, imposta pelos usurpadores franceses, não serve os interesses do Povo.

Serve sim, os interesses das Máfias do Poder, para quem a Pátria não existe, e indiferentes a tudo os que os rodeia, centram o Mundo no seu próprio umbigo.

Portugal tem um passado Histórico demasiado antigo, para ser menospresado.
Já Espanha, foi imposta a ferro e fogo. Não é uma Nação. É uma manta de retalhos.
E sinceramente, creio que só está unida por ser uma Monarquia.
Galiza, País Basco, Catalunha, têm um património Genético e Histórico distinto de Castela.


Melhores Cumprimentos

Maria da Fonte
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De Marquesa de Carabás a 26.01.2010 às 23:38

Cara Maria da Fonte,

Espanha é de facto uma manta de retalhos. Ora experimente dizer a um Catalão que ele é Espanhol...
Esta temática é importante neste momento e por variadissimas razões.
A primeira é o que está há vista: assim que se lança o tema, toda a gente comenta. Há vinte anos, possivelmente, passaria despercebido.
O regime em que vivemos está frágil e corrompido. O presidente da República (já ia escrever Réspublica), é uma figura eleita e reeleita, no mesmo ram-ram de sempre, independentemente do que quer que faça, ou não faça. O tema, anda no ar, é um facto.

A segunda é que se está aqui muito confortavelmente a conversar, o que é muito agradável e, vai permitindo ver se falta alguém...um ou outro, mas a maioria, já cá estamos todos :)



Cumprimentos,




Marquesa de Carabás




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De Velho da floresta a 26.01.2010 às 19:28

Cara Senhora Marquesa, quanto ao que um Rei pode fazer naquilo que enumera, bom depende do Rei e do governo do Reino. No nosso caso eu pelo menos não me sentiria bem representado, pelo actual candidato e muito menos pelos irmãos, não pela legitimidade que (realmente) têm ao titulo, mas sim pelas qualidades intrínsecas para o cargo (que não têm). Esperemos que o D. Afonso seja de melhor qualidade.
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De Ega a 26.01.2010 às 20:37

Caro Velho da Floresta: eu criei-me na ideia da fidelidade.
Por isso, lhe peço um favor: não minimize.
E mais outro, já agora: levante bem alto a sua prestigiada voz pelo nosso Príncipe. Quem sabe, não será para os nossos dias...
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De Marquesa de Carabás a 27.01.2010 às 18:00

Sr. Velho da Floresta,

Do que conheço das intervenções públicas do Senhor Dom Duarte, parece-me uma pessoa correcta.
Nenhum Rei, reina sozinho. Imagino que isso se faz, recorrendo a um Conselho de pessoas especializadas nas diversas áreas, tal como acontece com os presidentes da República.
Será que para ser rei se tem que ter um Q.I de Einstein, ou um doutoramento em Harvard?
Os Presidentes da Républica, eram iluminados? Não me consta...


Cumprimentos,



Marquesa de Carabás
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De Ega a 26.01.2010 às 19:45

Sra. Marquesa:

Vejo que conhece a realidade espanhola, que a levou a reflectir seriamente sobre a importância das Monarquias.

Mas, acrescento ainda: conhece certamente melhor do que eu o pensamento de Augusto Comte.

Comte, não «ia à missa». Não tinha fé.
Mas era um entusiasta da Religião, no prisma da Filosofia social. Porquê?
Ele disse-o claramente: porque o normativo inerente à Religião era um contributo para a unidade dos povos, para a Cultura que indispensávelmente está presente no sentido das gentes e obsta à dispersão das mesmas.
Quero com isto relembrar que - positivamente - o ideal monárquico é congregante.
Não divide - ajunta. As nações, enquanto tal, devem-lhe muito.

Nestes modos telegramáticos de nos correspondermos, são as ideias-base necessárias para que, sem mais demonstrações se creia e se defenda a Monarquia.

Aceite os respeitosos cumprimentos do
J. da Ega.
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De Porque será? a 26.01.2010 às 19:22

Alguém que pretende fazer algo por vezes declara algo como «Não farei o papel de rainha da Inglaterra».

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