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Melomanias - O pantomineiro de Sua Majestade

por João Távora, em 22.12.09
 

Peter Gabriel, nasceu em 1950 em Surrey Inglaterra, e tornou-se famoso como vocalista dos Genesis, a mítica banda de rock sinfónico – “barroco” dos anos setenta. Tal sucedeu não só por ostentar uma singular e expressiva voz, mas por causa das suas performances em palco onde representava as estranhas personagens dos inusitados versos de cada peça musical. Inspirado percursor do “espectáculo total”, no qual todo um concerto é apresentado com um minucioso guião musical e visual com utilização de trajes, cenários, projecção de imagens, pirotecnia e outros aparatosos artifícios, Peter Gabriel transpôs e aprimorou de forma magnifica esse conceito para a sua carreira a solo.
Empenhado divulgador da música etnológica dos quatro cantos do mundo, Peter Gabriel assumiu diversas causas políticas, tendo-se destacado nas campanhas pela libertação de Nelson Mandela e o fim do Apartheid. Ligado a esta causa está um dos seus mais emblemáticos temas musicais, um impressionante hino dedicado ao activista sul-africano Steven Biko, falecido em "estranhas circunstâncias" em 1977.
De destacar é também a profusa participação do músico no cinema com inúmeros temas, e com as magnificas bandas sonoras de Birdy de Alan Parker ou The Last Temptation of Christ de Martin Scorsese.
Alguns fãs dos Génesis de Gabriel, Hackett e Rutherford, Banks e Collins - para mim a mais fantástica reunião de talentos pop que eu alguma vez conheci - acusam o vocalista dum temperamento narcísico como causa da seu abandono em 1975. Esse ponto de vista é quanto a mim pouco sustentável, pois através de inúmeras produções audiovisuais disponíveis para o público, uma observação atenta da actuação de Gabriel, tanto a solo como com a sua antiga banda, verifica-se uma postura do músico em nada “narcisista”, antes pelo contrário, exibindo em cada seu gesto um extraordinário profissionalismo e a superação duma timidez latente, tudo planeado ao pormenor com vista uma determinado quadro visual e musical. Os seja, o músico tinha uma ideia concreta de modelo para aquele projecto e trabalhava em função dela. Finalmente confesso que concordo parcialmente com a crítica de Rui Albuquerque (que inspirou estas linhas) quando num comentário a um meu post anterior qualifica Peter Gabriel como um compositor "chato": por mim, acho que é um chato porque abandonou o projecto Genesis quando ainda tanto prometia, e chato porque leva uma média cinco anos a produzir um novo álbum de originais. Só por isso.

De resto, em mais de trinta anos de carreira a solo o músico compôs um número significativo de peças musicais objectivamente geniais, que só por má-fé ou desconhecimento podem ser desconsideradas: Solsbury Hill, Excuse Me, Humdrum, Here Comes the Flood, Mother of Violence, On the Air, White Shadow, Índigo, Home Sweet Home, Family Snapshot, Biko, San Jacinto, Family and the Fishing Net, Wallflower, Mercy Street, Washing of the Water, Secret World, Blood of Eden, Signal to Noise, Sky Blue só para dar um número restrito de exemplos. Claro que ficam para trás alguns temas essenciais, que admito que pelo seu cariz mais experimental sejam “chatas” para algumas pessoas, por exemplo o extraordinário Exposure, tema em parceria com Robert Fripp, ou outras chatices imprescindíveis como Intruder, Lead a Normal Life, Darkness ou The Drop.
A voz de Peter Gabriel embala a minha existência desde a tenra adolescência. Com os anos, em lugar da mistificação algo infantil que eu dedicava a este meu anti-herói de causas impossíveis, deu lugar a uma adesão mais racional. No entanto a sua extraordinária voz  foi adquirindo para mim um encantador efeito fetiche, que me releva para as melhores sensações da vida.
Para terminar, uma boa notícia para os fãs deste singular trovador e pantomimeiro, súbdito de S. Majestade Isabel II: em Fevereiro do próximo ano será publicado um seu novo álbum com o sugestivo titulo Scratch My Back: uma nova experiência, desta vez na interpretação de temas alheios como Heroes de David Bowie,  The Boy in the Bubble de Paul Simon, Listening Wind dos Talking Heads, The Power of the Heart de Lou Reed,  I Think It's Going to Rain Today de Randy Newman, Philadelphia de Neil Young Street Spirit dos Radiohead, entre outras. A coisa promete!
 

Discografia

 

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11 comentários

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De Rui Silva a 22.12.2009 às 14:37

Era bom era que cá o tivéssemos em 2010. Isso sim.
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De l.rodrigues a 22.12.2009 às 14:46

"Steven Biko, falecido em estranhas circunstâncias em 1977."

Estes eufemismos...
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De João Távora a 23.12.2009 às 11:46

SE lhe agrada saber, coloquei umas aspas em "estranhas circunstâncias", caro L. Rodrigues. Abraço
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De João Costa a 22.12.2009 às 18:14

Belo postal, caro João. Vou linkar. Um abraço.
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De APC a 22.12.2009 às 19:39

Para eu compreender melhor o que escreveu sobre a genialidade de Peter Gabriel, desculpe lá mas gostava de saber a sua idade, pode ser ?

A pergunta é um pouco tola, bem sei, mas...
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De João Távora a 23.12.2009 às 11:45

APC: tenho idade suficiente para não ter demasiados preconceitos e ouvir a música que me agrada. De resto a sua pergunta, não é tola, é mesquinha.
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De Nuno Castelo-Branco a 23.12.2009 às 00:26

É... nada em comum com o lixo que se houve em MTV's e quejandas.
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De APC a 23.12.2009 às 14:52


Ok, João Távora. Ao menos na música é convictamente prog. ( progressista ). Não entenda mal a pergunta que lhe fiz, por favor. É que a idade justifica quase sempre as convicções que defendemos, não é ? Obrigado.
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De Francisco Sousa a 24.12.2009 às 01:23

Muito obrigado por tão excelente post sobre um tão excelente cantor/compositor/músico e sei lá que mais. Na sequência, aliás, dos anteriores sobre os Genesis.
Peter Gabriel continua a ser, para mim, uma das referências incontornáveis da música popular dos últimos 40 anos. Estou igualmente com uma enorme expectativa em relação ao seu próximo trabalho. tenho, no entanto e desde já, a certeza de que me irá agradar, como tudo aquilo que ele já nos ofereceu.
Sou um grande admirador da sua obra e, mesmo correndo o risco do exagero, considero-o um dos maiores génios (senão o maior) da música popular dos nossos tempos.
Mais uma vez obrigado pelo seu post e continue a dar-nos "boa música".
Um Feliz Natal e um óptimo ano de 2010.

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De Francisco a 28.12.2009 às 22:49

Sr. João Távora:
Chego tarde à discussão, que acompanho desde o início, tal como cheguei tarde à obra dos Genesis.
A minha iniciação, devo-a ao jornalista João Gobern e à crítica musical que fazia no "Se7e".
Corria o ano de 91 e o João Gobern aproveitava para colocar nos píncaros o álbum "Us" de Peter Gabriel e arrasar de alto a baixo o recém-editado "We Can't Dance" dos Genesis, o que me deixou curioso.
Como vê, estou menos habilitado para entrar na discussão do que os ilustres especialistas mas vou, se me permite, deixar aqui a minha opinião.
Eu adoro ouvir música em geral e rock progressivo em particular, especialmente a vertente sinfónica, se bem que hoje afirmar que se gosta de rock progressivo provoque logo um coro de indignação. Basta ler a crítica musical profissional da actualidade para constatar que tudo o que não seja "alternativo" (?) ou neo-punk é visto com muita renitência. Mas isso é outra história.
Em 91 decidi investigar a obra dos Genesis até 1981, alvo de tão acesa paixão por parte de J. Gobern - e note-se que não havia internet...-, e lá fui comprando os álbuns mais antigos (o dinheiro também não abundava...).
Ao fim de três anos tinha na minha colecção toda a discografia até "Abacab" (1981) e posso afirmar que me tornei fã dos Genesis, o que me levou a querer descobrir as obras seguintes, que no entanto não me entusiasmaram.
Tenho uma vantagem perante vós: não fui contemporâneo, pois era muito novo na década de 70 e, por isso, estou imune relativamente a qualquer polémica sobre os efeitos da saída de P. Gabriel.
Vamos por partes: "Trespass", "Nursery Cryme" e "Foxtrot" são 3 portentos de rock progressivo puro e duro, gravados por uma banda a tentar encontrar a sua identidade mas avançando já com uma série de ideias musicais e líricas que serviriam de base ao seu som característico.
Em 73, "Selling England..." veio polir o que era para polir, trocando uma produção "lamacenta" por um som límpido, demonstrando, essencialmente, um crescimento espectacular na execução musical e na escrita das canções.
Depois, o projecto mais ambicioso, "The Lamb...", dispensa comentários.
Em 75, com a saída de Gabriel, o grupo não ficou órfão. Ficaram lá Banks, Rutherford e Hackett (até 77) para a composição e os dois álbuns que se seguiram ("Trick..." e "Wind...") em nada ficam atrás dos anteriores. Musicalmente falando, claro.
A seguir, foi sempre a descer, como se sabe.
Que mal fez Collins? Se calhar, nenhum. Se calhar, fez o que havia para fazer. Basta ver no que se transformaram as bandas de rock progressivo nos anos 80...
Quem queria ouvir uns Genesis a soar mais a Genesis do que os próprios Genesis, tinha os Marillion.
Tudo isto para dizer que, na minha opinião, devemos ouvir a música sem preconceito, enquadrando-a na sua época. Os Genesis não tinham futuro se Gabriel continuasse à frente deles nos anos 80, que foi quando as vendas dos discos da banda dispararam. Não havia futuro para aquele som, e o álbum "So" de Peter Gabriel é a prova disso. Pop, sim, mas muito mais competente do que a "muzak" de Phil Collins - a divergência musical era enorme.
Não aprecio Collins como músico. Alguém escreveu que a música dele parece ter sido feita na Bimby, e eu concordo. É um bom executante de bateria e um vocalista competente que sem Banks e Rutherford é o que se vê... Deixem-no à solta e só faz caca. Que dá milhões, diga-se...
"Clubismo" à parte, os Genesis são para mim uma companhia indispensável. No iPod, aos sábados de manhã, quando fico na cama até mais tarde (Trick e Wind), na praia, no trânsito é um regalo ouvir "Duke", há sempre Genesis para qualquer ocasião, com ou sem Peter Gabriel, cada álbum dos Genesis é uma entidade por si só, que cria um ambiente especial. Até 81, entenda-se.
Hoje, tenho as discografias completas de Genesis e Peter Gabriel e álbuns dispersos de Steve Hackett e Anthony Phillips. Que riqueza, meu Deus, que melodia, que execução...
E é isto, a música: ouvir o que nos dá prazer. Com ou sem Peter Gabriel nos vocais, com Phil Collins apenas na bateria ou também a cantar, ouçamos esta gente sem preconceito, sem "partidarismo".
Ouçamos os discos pelo prazer de os ouvir!
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De João Távora a 29.12.2009 às 14:11

Caro Francisco: obrigado pela sua contribuição para esta amena conversa. De resto concordo consigo que os preconceitos não são bons conselheiros. Mas admitamos que as preferências e gostos são coisas naturais. Cordeais saudações.

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