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A Europa avança?

por Alexandra Carreira, em 03.10.09

 

Os 67,1% conseguidos hoje pelo “sim” ao Tratado de Lisboa na Irlanda deixam pouca margem à contestação. E a campanha do “Não” terá de se recolher e aceitar o voto popular. Não vou falar da patetice já referida aqui pelo Luís. Discordo de quem compara esta repetição do referendo à repetição, por exemplo, do referendo ao aborto em Portugal. Desde logo, por que as circunstâncias dificilmente serão comparáveis.
Este voto irlandês acontece pouco mais de um ano depois do primeiro referendo que deu uma clara vitória ao não. E desde o início se percebeu que a Irlanda teria de votar o documento em contra-relógio.
É claro que poderão existir inúmeras razões para que os irlandeses tenham votado daquela forma em Junho de 2008 – entre elas, e desde logo da responsabilidade do governo que assinou o Tratado e da UE, a falta de informação esclarecedora sobre o que significa aceitar Lisboa; um cartão amarelo ao governo (esta em particular é de duvidar, já que o governo está tão ou até mais frágil do que estava no ano passado); etc… Acredito que as tais garantias conseguidas pela Irlanda no Conselho da UE terão feito diferença.
Mas, posto isto, parece-me claramente desonesto dizer aos irlandeses, como fez diversas vezes Brian Cowen, que ou era o Tratado de Lisboa – que traria investimento e empregos – ou a Irlanda dificilmente sairia da crise. Não me recordo de este argumento ter sido utilizado há um ano e parece-me irresponsável formular este tipo de ameaça numa época de crise – e a Irlanda foi dos primeiros países europeus a senti-la. Vale tudo. Durão Barroso disse hoje, em resposta a um jornalista, que a campanha do Sim não tinha jogado com medos, mas com factos. Se agitar a bandeira da crise num país fustigado pela derrocada não é jogar com medos, é o quê?
Houve pressões fortes sobre a Irlanda. E ainda que a grande maioria delas não seja tangível, mensurável, palpável, só o facto de a Europa estar toda ela formatada para que o Tratado entre em vigor dentro de, no máximo, três meses é à partida uma grande pressão. E os discursos... “A Europa avança”. Não está provado que a UE não funcione sob o Tratado de Nice (e não estou a fazer a apologia deste tratado) e todos os responsáveis políticos sérios o admitiram quando rejeitavam a ideia de que o projecto estagnaria sem Lisboa.
Esperava-se esta reacção rejubilante da parte de responsáveis europeus. Aquilo de que não gostei foi de ouvir a repetição da mensagem “a Irlanda prova que quer estar no coração da Europa”, ou “a Irlanda reafirma os compromissos com o projecto europeu”. Pergunta: mas, então, votar contra um qualquer tratado europeu quer dizer que um país não se quer ver no coração da Europa? Invalida que um povo se sinta grato e reconheça o potencial de um projecto o facto de votar contra um documento que altera radicalmente a forma de funcionamento de uma máquina que já de si depende e favorece acima de tudo um directório determinado de países? Estas reacções seguem a par daqueles que julgaram o “atrevimento” da Irlanda em votar contra o Tratado de Lisboa. O projecto europeu é o que é, de bom e de mau, mas não se pode fazer apesar das pessoas.



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