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Grupos de risco

por Tiago Moreira Ramalho, em 18.07.09

Pede-se-me para que exponha os motivos que me levam a ser contra esta medida do ISP. Não, meus caros, não estou contra apenas para ser um pouco mais caviar – quem leu nem que seja dois ou três textos meus sabe que não é uma preocupação minha. O caso, aqui, é outro.

Nas doações de sangue passará a ser perguntado  aos homens se praticaram sexo com outros homens nos últimos meses, penso que é a única forma de se averiguar o «comportamento de risco».
Em termos relativos, isto é, em percentagem, há mais homossexuais infectados do que heterossexuais infectados. Isto, por si só, leva a que quando um homem tem relações sexuais com outro homem tenha logo, à partida, uma propensão maior para ser infectado. É claro que esta propensão varia muito: varia consoante o número de parceiros sexuais, varia consoante o tipo de protecção utilizada. Pelo que, obviamente se um homem tiver como desporto favorito experimentar um bocadinho daqui um bocadinho dali, e sem preservativo, que tirando o outro que foi excepção, os homens não engravidam, vai ter uma grande probabilidade de apanhar o HIV. Por outro lado, um indivíduo que seja mais recatado e responsável na protecção tem uma probabilidade infinitamente menor (o grau de falibilidade do preservativo é muito reduzido – e não entremos com a variável «sexo anal» que os casais hetero não são alérgicos).
Para além de tudo isto, um homem heterossexual que tenha tido relações sempre com mulheres nos últimos meses pode perfeitamente ter um risco maior que muitos homossexuais: basta que as senhoras sejam por um qualquer motivo umas grandes malucas.
Tudo isto tem de ser temperado com a mais importante das variáveis: existe escassez de doações de sangue no sistema.
É verdade que existe um risco maior (mas quando se fala aqui de risco maior, falamos de uma diferença absurdamente reduzida). No entanto, e se quisermos criar grupos, não é caso isolado. Os homens que se relacionem com mulheres muito experimentadas, têm uma maior probabilidade. Os negros têm mais casos de SIDA que os brancos, pelo que ter sexo com um negro comporta maior risco. As pessoas da cidade têm mais casos de SIDA que as pessoas do interior. E os «grupos» multiplicam-se, basta que tenhamos talento para fragmentar a realidade. No limite, só os padres e as freiras é que poderiam dar sangue. E mesmo assim, não sei.
Para além disso, há que lembrar sempre que o sangue é analisado, pelo que o risco é ainda mais reduzido.
Não estou a fazer o discurso do politicamente correcto, estou apenas a defender aquilo que me parece do mais elementar bom senso: que não se diminua ainda mais o número de doações de sangue devido a teorias absurdas.



4 comentários

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De Jorge Pimenta a 18.07.2009 às 19:09

Não é uma questão de política, é saúde pública simples. Acho curioso como tanta gente fala sem ter um mínimo conhecimento de SP:

Casos Notificados Oficialmente de Infecção VIH/SIDA (DEZ 2006) CVEDT

28797 casos em Portugal em 2006

Das novas notificações nesse ano:

51,5% correspondiam a transmissão via parceiro hetero

36,4% correspondiam a transmissão parentérica (utilizadores de drogas endovenosas)

9,5% correspondiam a transmissão via parceiro homo/bissexual.

Em 2007/2008/2009 não há números oficiais de estratificação.

Em resumo:

1. É certo que estes são apenas os casos NOTIFICADOS.

2. É certo que o risco de transmissão por sexo anal receptivo é cerca do dobro do sexo vaginal receptivo.
(os riscos do parceiro insertivo é mínimo e equivalente)

Fonte: (Am J Med 1999;106:324; Ann Intern Med 1996;125:497; J Acquir Immune Defic Syndr 1992;5:1116;
N Engl J Med 1997;336:1072)

3. Comportamentos de risco existem em homo, em hetero, em bi, em ricos, pobres, ministros e prostitutas.

4. Todo o sangue é igualmente testado e os riscos de alguma infecção/problema imunitário passar essa apertada malha é igual para qualquer sangue.

É, portanto, ridículo esta atitude do IPS e o seu líder deve imediatamente pedir a demissão. O Dr. Gabriel Olim é um hematologista, não um infecciologista e deve rever as suas fontes.

Tiago, sou médico e da direita liberal e concordo absolutamente consigo. E pela 1a vez estou ao lado do Bloco, o que me chateia como o caraças.
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De maria a 18.07.2009 às 22:29

e as prostitutas e prostitutos , que façam sexo sempre protegido (?!) , devem poder dar sangue?
não me leve a mal , pode ser que esteja a emprenhar pelos ouvidos , mas há para aí umas histórias de saunas , quartos escuros , comboios , hotéis onde se entra sozinho e se arranja buérere de companhias , etc , que mais parecem trabalhadoras do sexo sem remuneração.
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De Tiago Moreira Ramalho a 18.07.2009 às 22:37

As putas e os putos até podem usar preservativo, mas têm outro comportamento de risco: muitos parceiros diferentes...
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De Carlos Duarte a 02.08.2009 às 18:02

Caro Tiago,

Desculpe, mas não pega. Vamos ao exemplo dos "negros": sabe que existem uma série de países Africanos cujos naturais (ou, inclusivé, alguém que lá tenha vivido) estão impedidos de dar sangue? Pois, adivinhe lá porquê...

Sabe que quem recebeu transfusões depois de 1983 (salvo erro) está impedido de dar sangue? Adivinhe, outra vez, porquê...

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