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Insularidades 6

por Lopes de Araújo, em 21.06.09

A Assembleia Regional dos Açores aprovou esta semana um voto de pesar pela morte de Armando de Medeiros
 
 
Durf ich?
Batíamos à porta com cautela se chegássemos com uns minutos de atraso depois do segundo toque.Obrigava-nos a falar sempre nesse pesadelo que é a língua de Goethe, especialmente quando se tem dezasseis anos e se está a braços pela primeira vez com filosofia e Latim.
Armando de Medeiros era professor de Alemão e Português no Liceu Antero de Quental.Foi meu professor de Alemão no início dos anos setenta.
Um professor pode-nos marcar para a vida.Assim foi e ficámos amigos.
O Armando era um homem fora daquele tempo e daquele espaço.Viviam-se os últimos anos da ditadura numa cidade de província, numa ilha longe do mundo.
O cabelo mais comprido do que o habitual, caído sobre as camisolas de gola alta que sempre usava,calças de bombazine,os óculos escuros que lhe enchiam o rosto,a inseparável tiparilho no canto da boca, o braço sempre cheio de livros,revistas e papeis.(nunca o vi uma única vez de pasta).
Mais do que o Alemão que se esforçava por nos ensinar a partir do Das lesen buch,com recurso a bonecos de banda desenhada e a giz de cor, Armando de Medeiros ensinou-nos a ver o mundo de outra maneira ( que melhor definição para a missão de ensinar) a partir daquele velho liceu e na pequenez daquela ilha.
Era um observador satírico da sociedade e do meio e passava-nos esse olhar com um humor que nos fascinava a nós alunos e escandalizava muitos colegas professores.
Era um cinéfilo e um melómano e levava-nos até casa dele onde tinha paredes cheias de discos.Com ele aprendemos a gostar da Amália que ele divinizava, a par de outros gostos musicais tão diversos que iam da música clássica ao jazz.Recordo-me de um Natal que fui com os meus pais aos Estados Unidos, ter andado pelas lojas de música à procura da Peggy Lee, da Sara Vaugh e da Ella Fitzgerald de que o Armando nos ensinara a gostar e que me pedira para ver se encontrava aqueles discos que não chegavam sequer a Lisboa.
Não era bem visto localmente…
Fazia teatro e encenou Santareno no Teatro local ,era excêntrico,fumava e bebia demais,dizia o que lhe apetecia com o sarcasmo que tão bem sabia usar.
As ilhas ficaram-no a conhecer melhor anos depois, na televisão onde nos reeencontrámos. Apresentava as noites de cinema em introduções pedagógicas sobre a arte que tão bem conhecia. Às vezes um pouco longo mas com o mesmo humor que sempre lhe conheci.Foi produtor e realizador,autor de textos e argumentos dos quais recordo em especial “A viagem”.Fez documentário e ficção. A sua vida pessoal foi sempre complicada. Morreu-lhe cedo um filho (ainda era meu professor) depois um casamento falhado,muita incompreensão e uma vida pouco ortodoxa valeram-lhe alguma marginalização à mistura com a admiração interior que a sua inteligência e talento impunham a todos.
Disse-me outro amigo que o vira há pouco tempo como guia turístico a conduzir um grupo de velhotes Alemães em visita à ilha. Não o via há mais de doze anos apesar de num recente escrito num jornal local o Armando se ter referido tão simpáticamente a mim e à nossa vivência conjunta na Televisão.
O Armando ou Armandinho como carinhosamente todos o chamavam foi a enterrar com setenta e um anos e uma vida cheia de representações…
Deixou-me o vazio que deixam os amigos quando partem e muito mais lições e saberes do que o Alemão que então me ensinou.
 
 
Armando de Medeiros em entrevista em 2001 em http://videos.sapo.pt/Hi3WGdBBBdsuaU87KcQL   



1 comentário

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De Ana Rita Araújo a 21.06.2009 às 10:51

Como é bonito ouvir uma pessoa, neste caso antigo aluno, a falar de um professor que jamais esqueceu e que se ligou de tal maneira que mesmo depois do seu falecimento divulgou um artigo relembrando "os velhos tempos".

Eis aqui um exemplo de que os professores têm muita influência na vida de um aluno.

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