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Resposta a Henrique Raposo

por Luís Naves, em 19.05.09

A questão turca

Henrique Raposo teve a amabilidade de responder em Clube das Repúblicas Mortas aos meus dois posts críticos das suas posições sobre a questão turca. Na resposta afirma, correctamente, que o AKP [o partido no poder na Turquia] “não é um movimento islamita, mas sim um partido islâmico”. A precisão era desnecessária, pois nunca escrevi que o AKP fosse islamita (ou seja, radical). No meu texto, referi-me a este partido como sendo de “conservadores islâmicos”. Escrevi ainda que a formação tem alas “ultra-conservadoras” que não acreditam na separação entre Estado e religião.

A meu ver, a resposta de Henrique Raposo não esclarece os pontos essenciais da minha crítica. Quando falo de costumes, o ponto de vista não é europeu, mas tento explicar a relutância da elite republicana em aceitar as ideias mais religiosas do AKP. Por isso, concordo com o autor quando ele escreve que “a UE não é sobre costumes, mas sobre instituições”. No entanto, mais uma vez, a precisão era inútil, pois nunca escrevi que a UE deva impor costumes a qualquer Estado membro.

A questão dos direitos humanos, pelo contrário, é uma condição de entrada na UE. Os candidatos têm de cumprir regras rigorosas, por exemplo, no tratamento das mulheres. Henrique Raposo escreve que o AKP pretende “dignificar a tradição muçulmana dentro da política moderna. E tem esse direito. Mesmo quando não se concorda com os tais costumes”. Esta opinião parece correcta, mas acrescento que o autor não pode esquecer as limitações que terá esse processo de “dignificação da tradição islâmica” no plano dos direitos humanos.

Não quero fugir à questão essencial. O Henrique diz que fui “injusto com o AKP” e acho que tem razão. Este é um partido democrático, que venceu eleições e vê limitada a sua acção pela elite militar, judicial e intelectual. Essa classe domina parte do Estado e tem expressão eleitoral bem menor do que o partido “democrata-islâmico”, fórmula que o autor usa e com a qual concordo.

Mas no meu texto esforcei-me por explicar as razões da desconfiança dessa elite. Não incluí um motivo suplementar, que talvez tenha aqui importância: a questão das classes sociais. É evidente que as “famílias bem” de Istambul são republicanas e que o movimento islâmico tem a sua base social no campo e nos bairros pobres.

Quanto às subtilezas da distinção entre jacobinos franceses ou americanos, sinceramente, não vejo a relevância. Os países europeus têm séculos de separação entre religião e Estado; no mundo muçulmano, nenhum governante pode ignorar a religião. No exemplo que dei de nomeações de imãs percebe-se que esse cuidado visa afastar das mesquitas todos os religiosos que possam ter discursos radicais. Para os padrões europeus essa regra é inaceitável e a Turquia terá de abandonar a prática, se quiser entrar na UE. Acho que isto ilustra a tese dos meus textos: não há preto e branco neste conflito.

Finalmente, correndo o risco de aborrecer os leitores, uma nota sobre a imagem do “conselho de revolução”, que me parece pouco feliz. A interferência dos militares na política turca é uma constante que remonta ao general Kemal Ataturk (até remonta ao império otomano). Os militares não têm um órgão tutelar da República, mas a meu ver devem ser percebidos como uma espécie de partido político que entra em todas as coligações. Esta será a questão mais difícil da adesão turca.

 

 



2 comentários

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De Anónimo a 19.05.2009 às 19:46

Eu não desgosto é do banho turco.
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De João André a 20.05.2009 às 09:04

Uma nota extra, sempre que os partidos islâmicos na Turquia foram atacados (como o AKP tem sido), ressurgiram depois, em novas encarnações, muito mais fortes e mais abertos nas intenções.

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