Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Emoções básicas (54)

por Luís Naves, em 25.04.09

Uma memória pessoal

Ainda não tinha 13 anos a 25 de Abril de 1974 e a minha visão daquilo que se seguiu é uma mancha confusa de alterações caóticas e em catadupa. Lembro-me do medo de que a situação política descambasse em guerra civil, e talvez os historiadores do futuro, que possam estudar o período de forma distanciada, concluam que não andámos longe disso. Lembro-me da preocupação dos meus pais e sei que a minha família empobreceu. E, no entanto, tudo mudou naqueles dois anos, sobretudo na maneira como pensávamos. Terá sido o meu ponto de vista adolescente ou foi o rolo compressor da História?

 

Exercício de imaginação

Pode ser fútil fazer exercícios de imaginação, mas não creio que a minha vida tivesse sido muito melhor se o golpe militar falhasse ou se Portugal se tivesse transformado numa ditadura comunista, ou mesmo se o regime anterior conseguisse uma transição gradual, como aconteceu noutras ditaduras na Europa.

Um triunfo comunista tinha sido uma catástrofe sangrenta e o novo regime não teria passado de 1990. O fracasso do golpe militar implicava a continuação da guerra colonial e o isolamento do país, incapaz de se democratizar. O endurecimento da ditadura era forçoso e não vejo como podia ser evitada a derrota nas colónias. A transição progressiva podia funcionar, mas os processos graduais também têm defeitos e são lentos; penso que essa solução não teria permitido um leque tão grande de liberdades, mantendo crispações que a história factual eliminou.

 

Os costumes

Passados 35 anos, com a profissão de jornalista, ouvi muitas histórias, para mim quase incompreensíveis, de como a censura cortava notícias que hoje pareceriam inócuas. Só pela liberdade de Imprensa valeu a pena. Mas houve mudanças tremendas nos costumes. A nossa sociedade é hoje muito mais liberal do que a anterior. Ainda me lembro de como era difícil a vida das mulheres no antigo regime e atrevo-me a afirmar: a maior transformação deu-se no plano da liberdade das mulheres (divórcio, acesso a educação, contracepção, união de facto, participação política, poder económico). Desse ponto de vista, o que se seguiu ao 25 de Abril foi uma aceleração ou uma convergência muito rápida com o resto da Europa; o que levara duas gerações a fazer nos outros países levou aqui menos de uma geração.

Os discursos oficiais sobre os dois anos de revolução geralmente não incluem o lado mau, sobretudo o trauma da descolonização, que foi uma tragédia para centenas de milhares de pessoas. O país foi também tomado por uma febre política que destruiu muitas carreiras e permitiu revanchismos e oportunistas. Houve episódios que hoje nos espantam, pelo seu radicalismo, e Portugal foi também palco secundário do conflito entre as superpotências. O facto de pertencermos à NATO foi um elemento decisivo, que garantiu a estabilidade do novo regime político.

 

A Europa

Numa futura interpretação do período entre 1974 e 2000, talvez os observadores descomprometidos concluam que o facto histórico mais importante foi a democracia ter permitido a adesão portuguesa à comunidade europeia. Isto garantiu definitivamente a longevidade da terceira república, permitindo a sua prosperidade relativa. Recebemos subsídios em quantidades maciças (estão garantidos pelo menos 25 anos, mas podemos conseguir mais de 30) e acima de tudo adoptámos leis modernas e regras democráticas rigorosas. Temos uma moeda única que nos protege das turbulências financeiras externas, apesar de não conseguirmos cumprir as regras desse espaço monetário (e isso terá de mudar). No fundo, a integração europeia foi o nosso seguro contra todos os riscos.

Há nuvens no horizonte? Claro que há. A nossa economia continua a ser frágil e a sociedade possui grandes desigualdades, que geram injustiças gritantes. O país está em crise desde 2001 e o sistema político parece paralisado com o agravamento diário da situação económica. Nesse sentido, concordo com quem afirma que as maiorias absolutas se revelaram perigosas. A democracia portuguesa tem de saber dar o salto qualitativo e criar a sabedoria negocial dos governos de coligação. Os portugueses confiam pouco nos partidos e esse problema exige patriotismo, renovação das lideranças e bom senso. Seremos mais europeus, é esse o futuro, mas não podemos continuar na mediocridade, pois a Europa é também mais exigência.    

 




Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Esteves

    LOLOLOL..... "a eventual diabetes ou obesidade de...

  • Esteves

    Entao mas o observador só é bom quando publica tex...

  • Anónimo

    . Aprende a gostar de ti ....Muita saúde.Cumprts d...

  • João Távora

    Depois anda tudo à nora, zangados até, porque não ...

  • Isabel

    brigada por terem cortado a minha resposta. Passem...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2006
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D