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Conto de Natal

por Filipa Martins, em 22.12.08

 

Nasceste com o esforço. Ela ainda não tinha terminado o tempo. E estava vermelha e as veias sobressaíam roxas e vincadas na fronte. Os dentes cerravam-se sobre os lábios, já sem cor. Malvada, estava naquilo há duas horas. A enxada continuava presa no chão, como tinha estado nos últimos dias. Olhei para o céu. A chuva vinha aí e aquela malvada estava naquilo há duas horas. A enxada parecia que lhe troçava o esforço pateta. E as bochechas estavam cada vez mais inchadas, cada vez mais vermelhas. E as saias colavam-se às pernas com o suor, e as costuras da camisa começavam a dar de si e a soltarem-se uma a uma, à medida que o peito se enchia de ar suspenso e não expelido. E vi. Primeiro as costuras das costas. E as linhas a saltarem como balas. Depois as do peito. E as linhas a saltarem como balas. As dos ombros e, de seguida, as dos braços. E as linhas a saltarem como balas. E a mulher estava nua da cintura para cima, com os restos de camisa a caírem-lhe sobre a cinta, e estava em posição fetal, mas de pé, e das pontas dos seios multiplicavam-se as estrias, que lhe percorriam o colo e os braços e acabam nas mãos. E nas mãos o pau da enxada. O pau imóvel da enxada. E olhei o céu. E pensei: malvada. O cabelo começou-lhe a cair em farrapos por causa do esforço e os braços eram troncos de árvores, a que cortaram a rama e deixaram os veios da madeira que dilatavam com a seiva. Olhei o céu. E pensei: malvada. E foi nesse momento, quando ela estava em posição fetal, mas de pé, que algo caiu para o chão por entre as saias e percebi que eras tu. Não choraste. Não te mexeste. Como se não tivesses reparado que já estavas cá fora e não lá dentro. E foi quando caíste no chão que a enxada mexeu. Primeiro pensei que era erro da vista. Mas ela tinha mexido e fez o primeiro sulco na terra. E ergueu-se no ar, na promessa do segundo. Mas os pés falharam o chão e vi aquela mulher a desaparecer pela terra. A face transfigurada, com algumas veias que lhe tinham rebentado junto às sobrancelhas, e os olhos inundavam-se de sangue mas sem vida. Sem chorares. Sem te mexeres. Deixou-te só. Deixou-nos sós, a malvada.


12 comentários

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De Tiago Moreira Ramalho a 22.12.2008 às 19:59

É complicado falar sobre este conto. Lindo e feio. Bem escrito, mas de uma tristeza que humedece os olhos... Malvada, Filipa.
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De Corrector a 22.12.2008 às 20:46

"Os dentes serravam-se"...
Eram, portanto, uma espécie de serra, não?
Será que ainda vou a tempo de lhe mandar um dicionário como prenda de Natal?
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De Tiago Moreira Ramalho a 22.12.2008 às 21:09

Isso não sei, mas seguramente que não tem tempo de ficar educado até ao Natal, que o seu caso, se não for irreversível, terá de ser alvo de terapia intensiva.
É algum tipo de ser superior, perfeito, sem falhas, nem daquelas mais básicas da ortografia?
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De recorrector a 23.12.2008 às 14:15

Olha, vai à merda, ó ramalho
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De anonimo a 23.12.2008 às 14:28

Obrigado Corrector pela tua ajuda ao bom português. A autora do texto já foi emendar.
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De Once a 23.12.2008 às 08:42

faço minhas as palavras do primeiro comentário do Tiago Cara Filipa .. *
outro .. daqueles.
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De Carlos S. de Matos a 23.12.2008 às 17:03

Tens cá uma gracinha.
Vai mas é pedir a alguém que te ajude a corrigir as calinadas em série do teu british blog...
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De Joao Tordo a 23.12.2008 às 12:23

O "Corrector"? A sério? "O Corrector Implacável"?
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De Ana Vidal a 23.12.2008 às 12:47

Duríssimo... mas belo ainda assim. Igual à vida e igual ao Natal, afinal. Parabéns, Filipa.
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De Filipa Martins a 23.12.2008 às 15:48

Meus caros,

como todos vocês gosto de tratar bem a língua portuguesa, a qual acarinho. Mas nem sempre a perfeição nos bafeja e cometemos erros. Estes que devem ser assinalados e corrigidos. Se bem percebi, o João chama a atenção para a forma como essa chamada de atenção é feita. Na fila do supermercado, quando a menina da caixa se engana no troco, recorremos à boa educação. Não lhe lançamos as moedas à cara. E já agora…é Natal! Uma feliz quadra para todos. Não deixem de passar por cá, fazem cá falta.
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De Sofia Loureiro dos Santos a 23.12.2008 às 18:23

Filipa Martins
Parabéns por esse excelente conto de Natal.
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De Filipa Martins a 23.12.2008 às 18:33

Obrigada, Sofia.

Votos de um Natal feliz

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