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Cinema Nostalgia (29)

por Pedro Correia, em 11.12.08

O melhor filme português de sempre.

No dia em que Manoel de Oliveira festeja cem anos

 

Durante muito tempo, quando fazia a mim próprio a pergunta sobre qual seria o melhor filme português de sempre, hesitava na resposta.

Podia ser A Canção de Lisboa (1933), extraordinária comédia 'à portuguesa', como muito mais tarde se convencionou chamar -, prodígio de escrita cinematográfica, ímpar entre nós, com um trio de actores em estado de graça e uma agilíssima realização do arquitecto Cottinelli Telmo. Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva ainda hoje, tantas décadas depois, provocam gargalhadas no espectador com os seus diálogos saídos da inspiração de Chianca de Garcia e José Gomes Ferreira. É um filme cheio de momentos antológicos, como o da ida do falso veterinário Vasquinho ao jardim zoológico e a sua frase "Chapéus há muitos".

Podia ser O Pai Tirano (1941), outro filme único na nossa cinematografia - prova evidente de que o seu realizador, António Lopes Ribeiro, era não só um produtor de rasgo e um divulgador de mérito mas também um cineasta capaz de assinar um trabalho que transcendeu a sua época. Como Jean Renoir faria muito mais tarde em A Comédia e a Vida, aqui também o cinema e o teatro se enlaçam na banal existência quotidiana, gerando de caminho um singular retrato de um certo Portugal desses anos em que a guerra assolava o mundo. É um filme cheio de segundas intenções, começando pelo próprio título, e também percorrido por momentos antológicos protagonizados por excelentes actores, como Ribeirinho, Teresa Gomes, de novo Vasco Santana e uma fugaz diva do cinema português chamada Leonor Maia que passaria a ser conhecida por Tatão, o nome da sua personagem em O Pai Tirano. Haverá maior enlace entre a comédia e a vida?

 

Mas além destes dois houve sempre outro. Um filme que vi na altura apropriada, ainda criança. Porque é de crianças que trata. E não me lembro de mais nenhum produzido antes dele, em Portugal ou qualquer outra paragem, que soubesse tratar o mundo infantil de forma tão sensível e tão credível. Desde os instantes iniciais, com aquele inesquecivel pré-genérico que culminava no súbito aparecimento de um comboio em grande velocidade e um grito de horror. Falo de Aniki-Bóbó (1942): nada sabia do nome do realizador nem daquelas informações adicionais que fui acumulando sobre esta primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, produzida por Lopes Ribeiro. Mas impressionou-me como nenhuma outra, naquela época, esta história de uns meninos humildes na Ribeira do Porto que poderia servir de metáfora à condição humana. Adorei a personagem da menina Teresinha, aqueles cenários naturais que prenunciavam o fabuloso neo-realismo italiano e aquela pronúncia genuína e autêntica dos actores, nenhum deles profissional excepto Nascimento Fernandes.

(Sublinho o papel do sotaque porque é um pormenor técnico totalmente descurado nos filmes portugueses contemporâneos: hoje todos falam da mesma maneira nas longas-metragens, independentemente do lugar onde nasceram ou onde residem as personagens. Infelizmente a pronúncia do Norte quase desapareceu do cinema nacional.)

 

Pormenor interessante: Oliveira, que seria depois considerado o mais artificial dos nossos cineastas, assinou aqui aquele que seria durante muito tempo um dos filmes portugueses rodados em atmosfera mais real. Um pouco à semelhança de um Picasso, que subverteu as formas depois de mostrar ao mundo que sabia reproduzi-las com mestria clássica.

São poucos os filmes pelos quais nos apaixonamos e que conseguimos admirar em simultâneo. Aniki-Bóbó é um deles. Cada vez que o revejo vou consolidando a mnha convicção de que se trata do melhor filme português de todos os tempos.

Não sou o único a pensar assim: a Sight & Sound, uma das mais prestigiadas publicações sobre cinema à escala mundial, elaborou há uns anos a lista das 500 melhores películas de sempre. Só há uma portuguesa. Qual? Aniki-Bóbó.

 



14 comentários

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De Anónimo a 11.12.2008 às 14:54

Melhor, só a sátira que no CONTRA fizeram a esse filme. Foi genial. Parabéns a José de Pina e outros cujo nome não tenho de memória.
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De Adenda a 11.12.2008 às 14:59

"fizeram inspirando-se nesse filme" exprime melhor o que eu queria dizer.
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De João Pedro a 12.12.2008 às 12:01

Lembro-me perfeitamente disso. Era antes do surgimento do metro no Porto. a certa altura, quando uma dos bonecos a imitar os miúdos lança a frase "vem aí o comboio! o comboio!", o "míudo" representado por Fernando Gomes diz: "metro é que não há maneira de vir", carago - carago não, carago!"
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De Anónimo a 11.12.2008 às 14:57

Bom mesmo era um do César Monteiro em que metade não tinha imagens.
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De Pedro Correia a 12.12.2008 às 02:04

Esse era um filme para... invisuais.
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De J.C. a 11.12.2008 às 15:09

'Aniki-Bóbó' é tem direito a um lugar destacado na produção portuguesa. Se tivesse caído nos ensaios supostamente sofisticados que vieram a caracterizar depois a carreira de Manoel de Oliveira, jamais ganharia esse direito.

Já que referes 'A Canção de Lisboa' e 'O Pai Tirano' (e mais dois ou três não ficariam aqui mal), deixa-me só lembrar um que não tem sido reposto regularmente (há muito que não é): 'O Costa de África'. Se calhar, um dia reaparece e concluo que estou enganado, mas suspiro por ele. Creio que não está recuperado pela Cinemateca. Porque não é possível ou porque ainda não teve esse sorte, não sei. Sei que gostava de revê-lo, porque é o menos visto da 'família'.
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De Pedro Correia a 11.12.2008 às 15:21

Claro que podia mencionar aqui outros filmes - "O Costa do Castelo" e "O Pátio das Cantigas", por exemplo, também "O Leão da Estrela" e "O Grande Elias", até "A Menina da Rádio". E penso como tu, compadre: "O Costa de África" é uma obra-prima da comédia portuguesa. Trata-se de um filme quase invisível: durante 30 anos, por motivos ideológicos, guardou-se a sete chaves. Na Cinemateca não passa nunca, como não passam muitos outros filmes de que o Dr. João Bénard da Costa não gosta. Já tive o gosto de o mencionar aqui, na minha rubrica A Melhor Década do Cinema.
Abraço
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De Ana Vidal a 11.12.2008 às 16:07

Notável o Aniki-Bóbó, sem dúvida. Não só como técnica e inovação na abordagem, como no que revela de profundo conhecimento de uma época e de uma maneira muito nossa de viver.
E também (gostei do seu sublinhado, Pedro) no cuidado de adequar a pronúncia à região onde se passa a acção. Tem toda a razão: uma das grandes lacunas da nossa produção actual é a extrema preguiça nos pormenores de construção das personagens, sendo um dos mais importantes a linguagem. O JC vai gostar de ouvir-me (ler-me) agora, mas tenho de concordar que todos os actores hoje em dia falam "à lisboeta", seja a acção passada no Porto, S. Tomé ou ilha da Madeira. E é imperdoável. Nisso, como em muitas outras coisas relativas a esta matéria, os brasileiros dão-nos lições.
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De J.C. a 11.12.2008 às 19:17

Claro que gostei, Ana, e pareceu-me até que estava a ouvi-la, não a lê-la. Pode ser que um dia surja a oportunidade para lhe contar-lhe a reacção que tive perante um certo linguajar pseudo-sofisticado à 'tias de Cascais', em meridiano e numa situação das mais inadequadas para aturar isso...
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De Pedro Correia a 12.12.2008 às 02:05

De facto, Ana, os brasileiros dão-nos lições - e de que maneira. E também os bons actores americanos, capazes de fazer praticamente qualquer sotaque regional dos EUA e também de falar com 'british accent'. Por cá, fala tudo à maneira do Conservatório (na melhor das hipóteses) ou do centro comercial Colombo...
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De Luís Bonifácio a 11.12.2008 às 17:28

Só uma adenda.

Manuel Oliveira também foi protagonista da Canção de Lisboa.
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De Pedro Correia a 12.12.2008 às 02:06

Bem lembrado, Luís. Foi, de facto, actor n' A Canção de Lisboa, fez várias falas com o Vasco Santana e dá para perceber no filme que representar não era o forte dele. Não estraga nada, mas também não acrescenta.
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De João Pedro a 12.12.2008 às 12:06

Bom texto, Pedro Correia. Eu vi o filme ainda era adolescente, numa projecção de comemoração dos seus 50 anos, na Casa das Artes do Porto, com a presença de Oliveira e dos actores que faziam da menina Teresinha e do seu apaixonado Carlitos.
Já agora, Nascimento Fernandes também era um excelente actor. Pode ser visto noutra comédia menos conhecida, "A vizinha do Lado", como o tio de Famalicão e professor de moral.
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De Pedro Correia a 13.12.2008 às 01:07

Sem dúvida, João Pedro. E também em 'Lisboa, Crónica Anedótica de uma Cidade', um filme mudo realizado por Leitão de Barros.

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