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Emoções básicas (38)

por Luís Naves, em 04.12.08

 

A angústia do guarda-redes

Sempre me surpreendeu a insistência deste blogue em relação aos problemas internos do PSD, um verdadeiro existencialismo crítico sobre a angústia do guarda-redes à beira do frango. Este é um comentário que parte das opiniões de pessoas que sabem muito mais do que eu de política, mas penso que foram aqui publicados posts que revelam o que me parecem ser erros de análise. Mais abaixo neste blogue, o Francisco menciona Sá Carneiro, não acrescentando as dificuldades que este teve em conquistar um partido já na altura difícil de controlar. O Pedro considera uma trapalhada a saída de uma pessoa que ocupava um cargo desconhecido e cujo nome nada diz ao comum dos eleitores. (Mas não é no gabinete de estudos que está o poder, não é verdade?).

 

A culpa do herdeiro

A teoria de que há facções no partido que preferem a derrota eleitoral para depois conquistarem o poder no interior da formação parece-me delirante. Só se houver muitos psicopatas políticos à solta, pois abdicar de ser poder para depois reinar sobre cinzas é uma ideia abstrusa, sem interesse para um político sério e que pense no País antes de meditar sobre a sua extraordinária carreira. (Mas nas boas histórias de Agatha Christie o herdeiro costuma ser o criminoso, por isso não excluo a possibilidade da teoria ser verdadeira).

Também há quem afirme que o PSD é constituído por “vários partidos”, mas isso parece-me verdade para o PS e para a UMP francesa, para os conservadores britânicos e a CDU/CSU alemã, enfim, o argumento é válido para cada um dos grandes partidos europeus, que continuam a existir alegremente.

 

Tentando simplificar

Acho que nestes debates os autores gostam de complicar, esquecendo dados simples.

Das eleições de Outubro sairá um governo dominado pelo PS ou pelo PSD ou por ambos. Não há fuga a este axioma.

Em segundo lugar, os votos não esticam. Nas três últimas legislativas, o chamado bloco central conseguiu em redor de 4,2 milhões de votos. É um número relativamente estável. Mas em 2005 o PS conseguiu conquistar abstencionistas que presumivelmente não voltarão às urnas num cenário mais sombrio: a participação subiu dos tradicionais 61% para 64% e os socialistas somaram 2,6 milhões. Isso não irá repetir-se: o PS arrisca-se a perder, de uma só vez, estes 300 mil votos de pessoas que foram votar naquela ocasião por terem esperança numa determinada solução política.

 

O limite de Guterres

Em 1999, quando a economia portuguesa crescia quase 4% e o desemprego era reduzido, António Guterres ficou aquém dos 2,4 milhões de votos, falhando por muito pouco a maioria absoluta.

Por outro lado, o PSD enfrentou as eleições de 2005 em dificuldades, com um Governo desacreditado e uma oposição que apresentava um candidato a primeiro-ministro que parecia ter o discurso certo, prometendo fazer reformas estruturais e não subir impostos. Resultado, o pior de sempre para o PSD, com 1,65 milhões de votos.

Quatro anos mais tarde, o País não saiu da cepa torta. Divergência crónica com a Europa e promessas na gaveta. O desemprego aumenta depressa e o pior da crise ainda nem chegou. Dentro de um ano, a situação económica será bem pior do que a actual.  Pergunto: como é que Sócrates conseguirá chegar a 2,4 milhões de votos e ao limiar da maioria absoluta? Por outro lado, parece-me plausível admitir que o maior partido da oposição, no mínimo, iguale o resultado de 2005.

Quem fala em renovação da maioria absoluta está a esquecer o descontentamento de partes da opinião pública e o previsível aumento de conflitos como o dos professores, que terá ultrapassado o ponto de não retorno. 

 

O flanco esquerdo

As contas complicam-se se incluirmos os partidos à esquerda. Esta área vai crescer, e à custa do PS. O Bloco e o PCP somaram 800 mil votos em 2005 e este valor deverá aumentar, sobretudo num contexto de crise profunda. Nas presidenciais de 2006, Manuel Alegre atingiu 1,2 milhões de votos, dividindo o PS, e mesmo assim a soma de Louçã e Jerónimo foi de 750 mil.

Neste ponto, há dois cenários: se Alegre se mantiver no PS (como julgo irá acontecer), a transferência de votos para a esquerda será limitada. (Estamos a falar de 100 mil votos?). Mas, se ocorrer uma ruptura no PS, o caso é bem mais grave. Podemos estar a falar de 200 mil ou mais votos e de um PS pouco acima dos 2 milhões (38%).

Tudo se torna ainda mais complicado quando levamos em consideração que primeiro haverá eleições europeias, onde é habitual o voto de protesto.

Em resumo, nos meses que precedem as legislativas, a diferença entre os dois maiores partidos será bem menor do que a actual, com o PS abaixo dos 40% e o PSD acima dos 30%.

 

Comentário final:

Não sou adepto de Ferreira Leite nem especialista neste tipo de análises. Sou um observador externo e nem conheço dirigentes do PSD. Posso estar tremendamente errado na minha opinião, mas parece-me que MLF não pode dar um espirro sem ser criticada por isso. Por outro lado, torna-se cada vez mais provável o cenário da actual líder do PSD a disputar legislativas e que um dos resultados possíveis dessas eleições será o de grande coligação entre PS e PSD.

Na equação das próximas legislativas, todos percebemos a importância da incógnita sobre a liderança do PSD e das suas personalidades, mas julgo potencialmente mais decisivos os efeitos da crise económica e a atitude de Manuel Alegre, dois factores potencialmente desfavoráveis para o PS.

 

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