Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Emoções básicas (36)

por Luís Naves, em 22.11.08

Luta fraticida

A campanha interna pela liderança do Partido Socialista francês mostra a angústia de se viver em oposição na Europa. Nas democracias parlamentares europeias parece ser cada vez mais difícil gerir ciclos políticos quando um partido se arrasta na oposição. O PS estava dividido desde o referendo constitucional europeu, em 2005, com as facções a lutarem em diferentes barricadas. As divisões produziram rivalidades insanáveis. Depois, veio a derrota de Ségolène Royal, nas presidenciais do ano passado. Agora, na segunda volta das primárias, com mais de 130 mil votos de militantes, Martine Aubry, apoiada pelas facções tradicionais, venceu com 42 votos de diferença, derrotando Ségolène Royal, cuja abordagem populista escandalizou os intelectuais do partido. Royal fala em fraude e o saco de gatos ameaça transformar-se em implosão.

 

Barões assinalados

Uma maneira de contar esta história é “os barões vencem as bases”, mas acho o enredo mais complexo. Os partidos de esquerda têm um problema de adequação ideológica ou de identidade. Quando estão no poder têm de ser pragmáticos e esquecer teses das alas mais à esquerda, veja-se o caso dos trabalhistas britânicos ou do SPD alemão. Forçados ao centro e a alienar a sua esquerda ganham tensões internas e não se distinguem muito do centro-direita. O caso do Reino Unido é particularmente interessante. Os trabalhistas conseguiram, em onze anos de poder, manter o essencial das reformas efectuadas pelos conservadores nos anos 80. Chamaram a este pragmatismo “terceira via”. Na Alemanha, um dos dirigentes mais radicais do SPD, Oskar Lafontaine, bateu com a porta, acabando por se juntar aos ex-comunistas, para formar o Linke (esquerda), que aparece nas sondagens com 13%. O SPD está hoje na coligação do governo, como número dois, entalado entre esta esquerda e a necessidade de colaborar com a CDU de Angela Merkel na luta contra os efeitos da crise económica. O partido da chanceler continua a subir nas sondagens (37%) e o SPD desce (23%), incapaz sequer de beneficiar das suas vitórias a nível estadual, pois não pode aliar-se ao Linke, sob pena de ser massacrado nas eleições.

 

(O PS português não pode aliar-se ao PC sem perder votos, mas na Alemanha seria muito pior, pois o Linke tem ex-comunistas da RDA…)

(Usei os termos esquerda-direita, que me parecem pobres para descrever a realidade e não abordei aqui outro tema que nos levava longe, os problemas de identidade dos partidos ditos de direita).

 

A chatice do contexto

Já li politólogos que achavam inevitável a subida do Linke e a maioria de esquerda na Alemanha (as eleições serão dentro de um ano). Eles não percebem que, naquele contexto, seria o suicídio dos social-democratas. Por seu turno, em Portugal, comentadores mais à direita têm evitado as recentes dificuldades dos conservadores britânicos. No ano passado, Gordon Brown esteve perto de convocar eleições antecipadas, mas recuou no último minuto, evitando uma provável derrota. Agora, em cada dia que passa, o primeiro-ministro britânico sobe face à oposição conservadora, liderada por David Cameron. A diferença entre os dois partidos é de apenas 3 pontos e continua a diminuir. Cameron também esteve embrulhado em polémicas partidárias e Brown beneficiou da imagem de competência na sua gestão da crise financeira. As eleições serão em meados de 2010, mas o primeiro-ministro pode convocá-las a todo o momento, embora tenha vantagem em deixar correr o marfim, para estabelecer uma boa relação com Barack Obama, segurar o Reino Unido à União Europeia, quem sabe levar o seu país para a zona euro (não houve altura mais favorável do que esta).

 

Mudança

A crise da oposição na Europa tem sobretudo a ver com o que me parece ser uma grande dificuldade em gerir mudanças: excesso de cautelas nos países que valorizam mais a estabilidade; pânicos ruidosos naqueles onde as personalidades contam mais. A mudança de ciclo tende a ocorrer apenas quando a opinião pública fica com a percepção de que erros graves foram cometidos. Essa mudança existe não pela competência da oposição, mas pela falta de competência no exercício do poder. E é difícil para um líder carismático conseguir sobreviver muito tempo nos pântanos da oposição. Provavelmente, comparado com Brown, Cameron será um carismático, mas podemos nunca vir a saber.

 

As implosões

Em França, carisma não rima com prudência. O PS francês voltará a ser poder. É uma questão de tempo. Mas dificilmente será com Martine Aubry ou Ségolène Royal. A primeira será a próxima líder do partido, mas fragilizada pela guerrilha que a outra inevitavelmente lhe fará. Se houvesse nova votação, o problema colocava-se ao contrário. A solução para o impasse seria a “implosão”, a saída da derrotada, mas isso quase nunca acontece. Estes partidos grandes são sempre vários partidos. Faz parte da sua natureza, juntam diferentes sensibilidades e por isso são grandes. O alemão Lafontaine é um raro exemplo de dissidência, mas a sua popularidade também é limitada. Os políticos têm mais peso como minoria dos partidos maioritários do que como maioria dos partidos minoritários. É por isso que Manuel Alegre não quererá sair do PS, que Santana ou Meneses não sairão do PSD. Mas, enfim, essas são outras histórias.

 

Imagem: Frente Popular, união dos partidos da esquerda, que governou a França entre 1936 e 1938.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)



1 comentário

Imagem de perfil

De António de Almeida a 22.11.2008 às 16:55

-Falta muito para as presidenciais francesas. Alguém terá de distrair a opinião pública lembrando que o PSF existe enquanto Dominique Strauss-Khan tiver mais que fazer.

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • António

    Duvido muito que a derrocada da PT não tenha impac...

  • Anónimo

    Apenas consigo perceber toda esta situação porque ...

  • Anónimo

    Concordo com o espírito do artigo e também gostari...

  • Anónimo

    O EMS está convencido que só ele é que sabe destas...

  • Luís Lavoura

    Eu gostaria de saber, se eu perguntar ao João Távo...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2006
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D