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Emoções básicas (35)

por Luís Naves, em 18.11.08

 

 

As declarações polémicas

As sociedades contemporâneas, muito mediatizadas, aceleraram o tempo e não deixam pensar. A reacção às declarações de Manuela Ferreira Leite, hoje, ilustrou bem o que quero dizer: a imagem do arrastão mediático não me parece a mais ajustada, porque o arrastão é uma grande rede presa a um elemento exterior ao sistema. O cardume de peixes traduz melhor aquilo que somos. Blogosfera, media, a sociedade em geral.

 

Vida no aquário

Os cardumes têm um mecanismo interno interessante. Eles servem para proteger os peixes do perigo dos predadores; quando um animal maior se aproxima, fica confuso com a dimensão do grupo e a sua coesão, não conseguindo fixar-se num só elemento, distraindo-se por instantes da presa. É assim que a maioria escapa.

Os media contemporâneos parecem cardumes, pois também eles se baseiam em seguir líderes informais, em rede. Ninguém gosta de ficar isolado ou de falar sozinho, de não parecer sensato. O líder informal pode ser qualquer peixe, que é seguido por dois ou três, de súbito por quinze, depois por cem, enfim por mil. E durante muito pouco tempo. O peixe que não aderir ao cardume pensa ter poucas hipóteses de sobreviver. Na blogosfera, por exemplo, não se é linkado.

Estas coisas até estão estudadas pelos biólogos, nos peixes; e sabe-se que existe tendência para as pessoas seguirem a maioria, um pouco à maneira dos cardumes. Isto é visível na opinião, daí que se forme a opinião pública, um vasto cardume de opiniões, que são na realidade micro-gestos de seguir o comentador que pareceu mais acertado em determinado momento.

 

Mau uso da ironia

Manuela Ferreira Leite usou a ironia, mal. O João Villalobos explicou muito melhor do que eu, alguns posts mais abaixo, as consequências mediáticas. MFL queria desferir um ataque ao Governo e dizer uma coisa que me parece de puro bom senso: não é possível fazer reformas contra as pessoas que as vão aplicar (excepto em ditadura). É assim com os professores, os médicos, os juízes, os militares, os jornalistas, os funcionários públicos, os metalúrgicos, os mineiros. Mas desta explicação demasiado heterodoxa na nossa era do soundbyte e da testosterona política foi retirada a parte irónica, rapidamente transformada pelo partido no poder em mais uma prova de que a senhora é fascista. Pretende-se crispar o debate, criar hostilidade, dizendo a todos os peixinhos do aquário para terem nojo da declaração, nem que seja preciso tirá-la das respectivas proporções.

 

As questões

Ora, a meu ver, este episódio é útil para ninguém se debruçar sobre os números do desemprego e do crescimento económico débil. Está a desenvolver-se uma crise gravíssima e o circo mediático em torno de uma declaração infeliz, mas irrelevante, serve para distrair a malta e fazer rir durante algum tempo. Mas, meus amigos, isto é panem et circenses (só a segunda parte), não é política séria. As declarações de um e outro não têm longevidade. O importante é que o Governo enfrenta o seu buzinão nas escolas e está cada vez mais difícil sair dele. O PS está profundamente dividido. A táctica de virar a população contra os professores não funciona, martelar números também não funciona, a realidade faz sempre uma visita. Os spin doctors não resolvem os problemas, apenas os atiram para debaixo do tapete, durante algum tempo, que entretanto se esgota. A verdadeira luta política, aquela a que temos de estar atentos, não é a da ironia que caiu mal, “a declaração estranha”, como apropriadamente dizia a SIC, nem sequer da falsa agressividade do lado do poder ou dos falsos comentadores com agenda.

Façam o favor de tentar evitar as armadilhas do cardume. É que pode ser muito confortável (o pessoal sente-se seguro), mas quanto maior for o grupo de peixes todos muito juntinhos, mais fácil é apanhar toda a gente nas redes de arrastão que chegam de fora.

 



11 comentários

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De Anónimo a 19.11.2008 às 00:10

Manuela Ferreira Leite não foi feita para isto. Percebe-se agora porque Durão Barroso não fez a vontade à aristocracia do regime e não a designou sua sucessora quando foi para Bruxelas salvar a UE do vazio. A declaração de hoje sobre «reformas em democracia», e o desabafo de passageira de taxi de que talvez não fosse má ideia suspender a democracia por seis meses para fazer umas reformas, dão a medida da distância que lhe falta percorrer para se tornar uma líder partidária de alternativa governamental.Por um lado as «suspensões da democracia» nunca se limitaram a seis meses, tempo demasiado curto mesmo para déspotas iluminados, por outro lado não me parece que por este andar MFL tenha ainda seis meses à sua frente...

posted by josé medeiros ferreira @ 18:02

Como vê é fácil explicar o que se passa, de forma sintética e sem paternalismos, de que a senhora não precisa, nem agradece.
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De Luís Naves a 19.11.2008 às 07:57

este comentário é extremamente paternalista. está num patamar superior, imenso. e tem um erro, o raciocínio: a senhora é a líder da alternativa governamental, por muito que isso custe a um milhão de posts
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De Edurado Lapa a 19.11.2008 às 02:00

Se fosse só as "ironias" de ontem! Parece que a Senhora bateu mesmo no fundo. Nós desistimos de falar nisto. Ver:
Última hora: morreu a formiga da Dona Manuela. (http://apresencadasformigas.blogspot.com)
e mais não sei quantos postos sobre a Dona Manuela no mesmo blog.
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De Luís Naves a 19.11.2008 às 07:54

sim, sim, milhões de posts a dizerem o mesmo. o cardume
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De Eduardo Lapa a 19.11.2008 às 18:05

Não sei se reparou, mas diziamos que fizemos "não sei quantos posts sobre a Dona Manuela" no blog eduardo lapa (http://apresencadasformigas.blogspot.com)" mas que íamos parar.
Acrecentamos agora, porque há mais vida para além da Drª Manuela Ferreira Leite. Para o PSD será bom compreender isto depressa.
Quantos aos cardumes, é verdade. A Drª Manuela Ferreira Leite já tinha tido um na Primavera quando só faltou ser canonizada, santa da competencia e seriedade. Agora está a ter o reverso.
Só que, para a actual "vaga" ela ajudou muito.
E a finalizar, porque é que, se a Drª Manuela Ferreira Leite pode fazer ironia, nós não podemos tambem ironizar.
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De clara martins a 19.11.2008 às 07:18

Você não compreendeu que o grave não foi Manuela ter falado em "suspensão da democracia", toda a gente percebeu que foi uma tentativa de ironia, embora desajeitada. O grave foi Manuela dizer que não se devem fazer reformas contra os interesses dos visados! Como pode o PSD ter uma líder destas?!?
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De Luís Naves a 19.11.2008 às 07:53

não é dos visados, é dos que vão concretizar as reformas. parece-me puro bom senso.
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De João Villalobos a 19.11.2008 às 08:27

Excelente post Luís!
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De Anonimo a 19.11.2008 às 08:45


Hum... Faço minhas as palavras do JV....
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De Anónimo a 19.11.2008 às 11:45

"A a senhora é a líder da alternativa governamental, por muito que isso custe a um milhão de posts "

E então? Acha que é com lideres da alternativa governamental deste calibre que se constituiu uma verdadeira alternativa governamental? Acha que alguém ouve a senhora? Acha que a comunicação social depois da delirante frase de que não lhe cabe a ela escolher as notícias deveriam ficar calados para não alimentar circos? Não percebo onde quer chegar, as coisas são o que são e não que gostaríamos que fossem, e sim há dois pesos e duas medidas quando se analisa a senhora e as suas relações madeirenses... as pessoas precisam de se sentir confortáveis com o lider da oposição, que sintam que a lider da oposição tem políticas sérias alternativas, e não que seja um caso sério de incompetência política.
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De A.Teixeira a 19.11.2008 às 17:39

Gostei muito do poste, gostei mais da metáfora do poste e gostei sobretudo – e isso já não é mérito do autor – do primeiro comentário do poste (afinal uma inserção de um poste de um blogue vizinho), demonstrativo que quando se recorre à linguagem figurativa naquilo que se escreve, torna-se infelizmente muito fácil ser-se tomado por infeliz, por “infelicidade” da capacidade interpretativa de quem leu.

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