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Memórias de um fantasma (IV)

por Luís Naves, em 28.10.08

 

Local do destino

As caravanas saíam de Forte Laperrine e serpentavam, vagarosas, na delirante paisagem das montanhas Hoggar, na alucinação da sede e na proximidade da morte.
As filas de camelos carregados eram minúsculas, como carreiros de formigas, entre os imponentes maciços de pedra, que pareciam jardins de estátuas esculpidas ao acaso por uma civilização perdida.
Depois, as caravanas passavam através dos Wadis ameaçadores, produzindo ecos iguais a conversas de deuses. Os animais subiam e desciam ravinas abruptas, que a luz do crepúsculo pintara da cor do ferro. A marcha fazia-se em silêncio, cada viajante mergulhado na solidão dos seus pensamentos.
E, por vezes, surgiam tempestades súbitas (nuvens negras deslizavam do nada e caíam relâmpagos e os camelos espantavam-se, descontrolados); os barrancos tornavam-se armadilhas mortais; rugiam enchentes, muros de água, e perdiam-se vidas.
 
O último posto militar antes do planalto chamava-se Arrem Tazerouk. Era uma aldeia semelhante às outras do Bordj, onde as casas mais parecem a continuação da terra morta e árida. A povoação ficava num ponto elevado, de onde se tinha a perspectiva completa do vale. Era uma espécie de estrada estendida como um tapete até ao horizonte, a bigorna onde o sol partia lentamente a pedra branca.
A minha caravana era guiada por um nómada chamado Ibn Guezzam, que me pedira para manter sempre o disfarce de beduíno, por causa do perigo dos rebeldes. Montámos o acampamento nas imediações do forte francês e a guarnição de soldados observou a nossa azáfama com interesse disperso.
 
Podia ter ficado nessa noite junto a Guezzam, mas ao ver a figura do oficial francês, que passeava sozinho na muralha, a silhueta recortada contra o céu desprotegido, olhando a distância como quem observa o mar, senti necessidade de falar com alguém e aproximei-me, revelando a minha identidade.
O capitão chamava-se Zinderneuf e pareceu contente de encontrar ali um europeu.
“Finalmente, alguém que pode compreender”, disse ele.
“Compreender o quê?”
“Isto”, apontou, com um gesto que abarcava o mundo. “O vazio da existência e o local onde tudo fará sentido”.
Contou-me como tinha procurado o posto militar mais afastado, o derradeiro, o mais próximo do nada. Implorara para que o enviassem para o forte mais frágil, o menos defensável do deserto.
“Sinto que toda a minha vida se desenrolou para culminar num único instante, que está iminente”, afirmou.
 
Zinderneuf pediu-me para ouvir o assobio lúgubre do vento, que se elevava no frio da noite. Ficara de repente demasiado escuro e víamos a poeira das estrelas:
“Nunca antes tinha percebido a palavra destino”, prosseguiu Zinderneuf. “Um milhão de pormenores conjugou-se para que eu estivesse aqui, exactamente hoje, quando um exército inimigo se prepara, naquelas montanhas, para dar sentido à minha vida. Um número incontável de acasos me trouxe a este lugar, numa sequência tão incontável como os grãos de areia deste deserto ou do número de estrelas no firmamento. Veja bem, algo me arrastou, como se eu fosse uma simples molécula de água num rio infinito. E naquelas colinas escuras está um homem que ainda não sabe que o sentido da sua própria existência será tirar-me a vida a mim, o que é apenas possível por estarmos neste ponto exacto do espaço e do tempo, algo de impossível”.
Depois, despediu-se com um forte aperto de mão:
“Tudo de repente faz sentido. O universo inteiro”, disse ainda Zinderneuf.
 
Na manhã seguinte, o capitão deu ordens aos seus homens para expulsarem a minha caravana.
Partimos e, quando atravessávamos as montanhas, num sítio chamado Oued ta Zoulet, encontrámos o exército tuareg que ia atacar Arrem Tazerouk. Deixaram-nos passar, sem suspeitarem que eu era europeu.
Soube mais tarde que não houve sobreviventes, entre os franceses que defendiam o forte.
Alfredo (fantasma desocupado)
 
 
 
 

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1 comentário

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De Margarida Pereira a 29.10.2008 às 19:31

Esperei (sentada) o dia todo.
Confere: o pessoal adora politicar e marimba-se para a literatura.
Mrs. Muir é feliz com o seu fantasma.
É tudo necessário. Mas umas coisas, mais do que outras.
A próxima viagem?

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