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Emoções básicas (28)

por Luís Naves, em 25.10.08

 

A decisão

As eleições presidenciais americanas parecem estar decididas a favor de Barack Obama, embora na última semana se espere um aumento do suspense. Mas basta observar os Estados mais empatados para perceber que a reviravolta favorável a John McCain não é muito provável.
Por isso, chegou a altura de começarmos a pensar nos cenários após as eleições. Muitos analistas dizem que a 4 de Novembro pode ocorrer um sismo semelhante ao de 1980, que deu início à “revolução conservadora” de Ronald Reagan. Só que desta vez a revolução será favorável aos democratas.
 
A nova maioria
Estes não vão apenas capturar a Casa Branca, mas aumentar a sua maioria no Congresso. O domínio político será talvez ainda mais extenso, pois os republicanos mergulham num período complicado de transição, com as divisões internas (que McCain não conseguiu conter totalmente) a virem ao de cima. O partido urbano e conservador da classe média é difícil de conciliar com o fundamentalista religioso e anti-liberal.
Tudo indica que os democratas vão conquistar espaços que perderam há mais de uma geração. O sul, por exemplo, onde a luta pelos direitos cívicos dos negros transformou brancos pobres que votavam democrata em brancos pobres que votavam republicano. Agora, estes votos regressam. No oeste, onde as maiorias religiosas dominavam, os democratas beneficiam de uma transformação demográfica, com a atracção de população de outras regiões da América. Ali, o fim do monopólio republicano ainda está longe, mas a erosão já começou.
A vitória de Obama será, assim, a vitória da América urbana, mas os democratas têm a sua dose de problemas, sobretudo na imigração, cujo controlo choca com as minorias (os hispânicos estão a deslocar-se para os democratas); e não controlar tem um custo nos sectores mais conservadores.
 
Oportunidades
O próximo Presidente dos EUA terá meios políticos invulgares (controlo dos órgãos de poder) ao seu dispor. Ele dispõe de oportunidades e enfrenta perigos.
A nível internacional, não existe nenhuma ameaça importante, embora seja necessário encontrar uma boa solução para as guerras do Iraque e do Afeganistão, sem perder a face. As ambições nucleares do Irão são provavelmente negociáveis. Apesar de ser uma ditadura, a China não é temível, pois o seu sistema capitalista terá de encontrar uma maneira de se democratizar. Nesse sentido, a prazo, Pequim é aliado potencial dos EUA. Um bom gesto em relação a Guantánamo, já prometido, também pode fazer muito pela imagem externa da América.
 
Os problemas
Em relação à crise financeira, tudo dependerá da respectiva profundidade, mas não podemos esperar alterações fundamentais no sistema capitalista. A recessão passará e os mercados financeiros terão maior supervisão. Talvez haja também instituições internacionais mais alargadas (G20 mais eficaz, a reforma do FMI), mas mais do que isto são delírios de imaginação.
Se for eleito, Obama terá uma boa oportunidade para enfrentar aquele que é, provavelmente, o verdadeiro problema que a humanidade enfrenta: a crise ambiental. Esta ameaça é bem mais perigosa do que a pobreza ou a fome. Ela atinge um ponto crucial, a sobrevivência da espécie, e aqui é que será necessária uma verdadeira mudança.
 
 
 
 



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