Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Emoções básicas (24)

por Luís Naves, em 08.10.08

O Pedro Correia e a Isabel Teixeira da Mota já aqui escreveram sobre o envergonhado reconhecimento da independência do Kosovo por parte do governo português e estranham a mudança de opinião. Porquê agora?
A pergunta é pertinente e concordo que a decisão revela total ausência de critério. Qual o motivo que levou a uma mudança de opinião neste momento?
A Isabel também lembra uma declaração onde o Presidente Cavaco Silva sublinha a diferença entre os casos do Kosovo e da Abcásia-Ossétia.
 
Razões
As razões apresentadas para a mudança de opinião parecem estranhas. Diz o Governo que houve uma alteração geo-política no Cáucaso (mas isso já foi há dois meses) e que a irreversibilidade da situação no Kosovo (mas isso já era em 1999) justificava o reconhecimento.
Escrevi no Corta-Fitas que Portugal devia ter reconhecido a independência do Kosovo quando esta ocorreu. Também escrevi que a situação é de tal ordem irreversível que a Sérvia tem interesse em deixar cair o assunto, defendendo naturalmente os interesses dos sérvios que ficaram do lado errado da fronteira. Aliás, a comunidade internacional tem a obrigação moral de não falhar nesta matéria. E este é o problema que deve ser discutido.
Os comentadores que li sobre este assunto consideram geralmente que a situação do Kosovo é idêntica às da Abcásia e Ossétia do Sul. O argumento prossegue desta forma: Dada a identidade de situações, se não concordamos com um dos casos, não podemos concordar com os outros. É muito usada a frase “isto vai contra a legalidade internacional”.
Na minha opinião, os casos são bem diferentes e a independência do Kosovo não é ilegal. Aliás, a declaração citada pela Isabel aponta para a mesma tese, tornando ainda mais estranho o adiamento do reconhecimento da independência kosovar.
 
As diferenças
A Abcásia é um pequeno território da República da Geórgia que, no tempo da URSS tinha 45% de georgianos e menos de 20% de abcases. Os georgianos foram quase todos expulsos durante o conflito (que teve atrocidades dos dois lados). O território tem agora pouco mais de 200 mil habitantes e possui duvidosa viabilidade; a Ossétia do Sul tinha uma proporção de dois terços de ossetas para um terço de georgianos. Agora, é uniforme.
O Kosovo, por outro lado, integrou a Jugoslávia por sua livre vontade e quis sair quando a Jugoslávia começou a entrar em colapso, no início dos anos 80. De forma duvidosa, a Sérvia reclamou sempre a soberania sobre o território, mas o Kosovo gozava de ampla autonomia, que lhe foi retirada pela Sérvia. A população local nunca apoiou esta retirada ilegal de autonomia. A população, aliás, é 90% albanesa e o território tem dois milhões de habitantes.
Há outra diferença crucial. Uma resolução das Nações Unidas, de 1999, colocou o Kosovo sob administração da ONU (algo que nunca aconteceu com a Abcásia e a Ossétia).
A referida resolução (1244, de 1999) afirma a “integridade territorial da República Federal da Jugoslávia”, mas também diz que sob a administração da ONU “o povo do Kosovo pode gozar de autonomia substancial”. A comunidade internacional compromete-se a “promover o estabelecimento, dependente de um acordo final, de autonomia substancial e auto-governo do Kosovo”. Esse auto-governo existia na altura do reconhecimento e resultava de eleições democráticas, supervisionadas pela comunidade internacional.
 
Dois pesos
Tenho lido as maiores acusações ao Kosovo (que não é viável, que é governado pelo crime organizado, que necessitará de tropas até ao fim dos tempos). Apesar de me parecerem exagerados, estes argumentos nunca são utilizados para os dois territórios caucasianos, esses sim separatistas e sem viabilidade.
Também li muitas críticas a Mikhail Saakashvili, o líder georgiano, que é acusado das maiores atrocidades. Não digo que não tenha culpas no cartório, mas Saakashvili tem legitimidade democrática e a Geórgia foi frequentemente alvo das provocações ossetas e abcases, escudadas nos russos.
Nestas comparações, nunca li um paralelo entre Saakashvili e o ditador que levou a Sérvia a perder o Kosovo, Slobodan Milosevic. Se alguém fizesse esta comparação, ela seria amplamente desfavorável a Milosevic.

Nunca compreendi este uso de dois pesos e duas medidas. Basta ler alguns dos comentadores mais importantes da nossa imprensa para perceber a reacção instintiva anti-ocidental. Segundo estas visões, os EUA e as potências europeias foram irresponsáveis no reconhecimento do Kosovo. A culpa, naturalmente, é de Bush, pois não há em toda a Europa um só líder a pensar pela sua cabecinha. A Rússia, pelo contrário, está apenas a defender os seus interesses vitais, claramente ameaçada pela belicosa NATO. São estranhas visões.



10 comentários

Imagem de perfil

De Pedro Correia a 08.10.2008 às 21:36

Já em Fevereiro se tinha percebido que estamos em campos diferentes nesta matéria. Continuo a defender a inviolabilidade das fronteiras europeias a não ser em caso de comum acordo entre as partes interessadas. O caso do Kosovo, como sublinhas, apenas adia a erupção de novos conflitos de cariz étnico, desta vez centrados na população sérvia que vive no território.
O flic-flac do Governo português, nesta altura do campeonato, é incompreensível. Tão incompreensível como a mudança de posição do Presidente da República.
Em relação à Ossétia do Sul e à Abcásia, concordo contigo. Mas quem dá luz verde ao Kosovo perde autoridade moral e autoridade política para manter a luz vermelha aos territórios georgianos que Moscovo pretendeu "resgatar".
Imagem de perfil

De Luís Naves a 08.10.2008 às 23:16

o problema para a sérvia é a impossibilidade de inverter esta situação, mas também a dificuldade interna de admitir que perdeu definitivamente o kosovo. o facto é que as coisas não podem voltar para trás. os casos caucasianos são diferentes, pois os georgianos que perderam os seus bens e casas deviam poder regressar, embora a gente saiba que isso não vai acontecer
Imagem de perfil

De João Villalobos a 08.10.2008 às 21:38

Eu, há que confessá-lo, estou-me nas tintas para o Kosovo. Há lá bancos?
Imagem de perfil

De Luís Naves a 08.10.2008 às 23:20

não, mas há outros blogues
Imagem de perfil

De Paulo Cunha Porto a 08.10.2008 às 22:17

Atenção. Meu Caro Luís, o actual Presidente Georgiano é tido por toda a oposição e muitos observadores internacionais como pura invenção e fantoche de Washington. Não terá sido um esticar de corda regido pelos Americanos, para ver até onde os Russos aguentariam? É que há escudos anti-míssil e Ucrânias na calha...
Abraço
Imagem de perfil

De Luís Naves a 08.10.2008 às 23:19

claro, ele é que é o fantoche, o diabo em pessoa. os outros não são
curiosamente, os ocidentais (e sobretudo os americanos) são sempre os únicos capazes de manipular. os outros são sempre os patriotas.
Imagem de perfil

De Paulo Cunha Porto a 09.10.2008 às 00:36

Mas, Luís, a Oposição principal que ele tem não é pró-Rússia. Manipulada por quem, então?
Ab.
Imagem de perfil

De Luís Naves a 09.10.2008 às 12:58

paulo, ele tem oposições. as coisas são um pouco mais complexas. o que quero sublinhar é que não podemos cair na propaganda de moscovo, segundo a qual todos os males são produzidos pelas democracias
Imagem de perfil

De Paulo Cunha Porto a 09.10.2008 às 14:26

Mas Moscovo faz esse discurso? Pensava que Putin e o homem de palha do momento criticavam o "imperialismo americano" em bases nacionais, até por se pretenderem uma Democracia, igualmente...
Abraço, Caro Luís
Sem imagem de perfil

De João André a 09.10.2008 às 12:54

Caro Luís, a minha maior crítica ao seu post é a forma como quase coloca o Kosovo como sendo um território igual ao da Croácia ou Eslovénia. O Kosovo é, historicamente, parte da Sérvia e foi território de maioria sérvia por muito mais tempo do que de maioria albanesa. Aliás, os problemas começaram a surgir após uma nova vaga de imigração albanesa no século XX (a fugir ao regime de Honxha, sem dúvida) e que não se integrou nem se quis integrar na sociedade existente na Sérvia, onde existia equilíbrio entre os dois grupos étnicos.

Além disso, uma enorme diferença entre o Kosovo e os territórios (ex?-)georgianos está na importância histórica e espiritual (religiosa, na verdade) que o Kosovo (já agora, o Kosovo é apenas um dos vales, há outro cujo nome me falha agora) tem apra os servios.

Mas concordo que o Kosovo não voltará à Sérvia, pelo menos no curto ou médio prazo (já num futuro distante, nunca se sabe, os sérvios têm memórias longas e podem decidir começar a emigrar para o Kosovo com o fito de o recuperar no futuro após serem maioria). A luta diplomática (e note-se que tem sido apenas diplomática) dos sérvios serve essencialmente para consumo interno, para terem um trunfo extra nas negociações de adesão à UE e para poderem jogar com os territórios de maioria sérvia na Bósnia-Herzegovina e Croácia.

O Kosovo não é realmente comparável com a Abcásia e a Ossétia do Sul, mas a maior diferença está nos vizinhos e nos apoiantes de um caso ou outro. No primeiro, temos apenas a Sérvia, com algum apoio diplomático russo. No segundo caso temos a Rússia como parte bem interessada. É aí que se joga tudo, na arena da realpolitik e do equilíbrio de forças entre os jogadores.

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Boa noite ,porque será que vejo cada vez mais gent...

  • Costa

    É um cenário bem plausível, de facto. A repugnante...

  • António

    Eu também acho que o Costa dará à sola assim que p...

  • Anónimo

    Para o cumprimentar, Vasco Silveira. Não só foi cl...

  • Anónimo

    Muito bem. Sóbrio.ao


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2006
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D