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"Parece que o Município de Cinfães entendeu reeditar uma obra de 1950, sobre recolha musical em Cinfães. Nada contra se, com a obra, vier uma memória explicativa da pertinência desta reedição.
Trata-se de um trabalho elaborado durante o Estado Novo ou, para quem não sabe, o tempo de ditadura, destinado a celebrar as características rurais e pitorescas do povo português.
Entre estas características incluía-se o bom respeito pela Religião e pela Ordem Pública, reflectidas na Cultura Popular, pobre mas alegre...
O Folclorismo foi um das estratégias mais alimentadas pelos ideológos do Estado Novo (1933-1974) no sentido de entreter a população com danças e cantares que diziam reflectir o espírito "bom" do tal "povo português".
Ora, republicar-se uma obra destas em 2022, sem qualquer tipo de contextualização é dar-se continuidade a este tipo de visões retrógradas, conservadoras e chauvinistas.
Lembramos que, em 1950, a mulher devia submissão ao marido, não se podia falar aberta e livremente sobre assuntos que desafiassem o Estado ou a ordem e eram presos ou punidos todos os que tentassem, de alguma forma, pôr em causa a forma de regime.
A poucos dias de comemorarmos o 25 de abril de 1974, o lançamento desta obra entristece-nos e é reveladora da pouca sensibilidade cultural e humana dos autarcas de Cinfães."
Este texto é de uma pessoa muito qualificada no assunto sobre o qual está a escrever, na medida em que é um investigador da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tanto quanto sei, especializado em história de arte.
Andava há uns dias para fazer um post sobre este texto e, por acaso, coincide estar a escrevê-lo no dia 25 de Abril em que, mandaria a prudência, que eu fizesse um post com o título "25 de Abril sempre", ilustrado por cravo encarnado, com um texto qualquer em que falasse da "longa noite fascista" e da opressão em que vivia o povo, em especial, a brutal exploração das classes trabalhadoras.
Omitindo, evidentemente, que em Março de 1974, três semanas antes do 25 de Abril, José Afonso deu um concerto no Coliseu dos Recreios de Lisboa, cuja fotografia publicada no Diário de Lisboa permite ver uma boa parte dos cantores de protesto da altura (José Barata Moura, Vitorino, José Jorge Letria, Manuel Freire, Fausto, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira).
E por que razão, nesse tal post que eu faria se tivesse juízo, eu teria de omitir a referência a este concerto?
Claramente porque a existência desse concerto desmente grande parte do discurso público sobre o 24 de Abril.
Se eu tivesse juízo, transcrevia simplesmente a crónica de hoje de Miguel Esteves Cardoso: "Não nos deixavam ser. Não nos deixavam viver. Não nos deixavam ouvir música. Não nos deixavam ver filmes. Cortavam os filmes. Apanhavam os livros. Proibiam os discos".
Miguel Esteves Cardoso tem desculpa: com 18 anos no 25 de Abril, criado no meio da média alta burguesia lisboeta, estudando no St Julians e fora de Portugal, é natural que desconhecesse o país sobre o qual escreve, tomando o mundo da sua família e da sua circunstância pelo mundo tal como ele era. E no seu mundo, é perfeitamente normal que o parágrafo da sua crónica de hoje fosse verdadeiro.
Mas o concerto de José Afonso em Março de 1974 no Coliseu desmente a generalização desse mundo da média alta burguesia do país.
Tal como no coração do que mais tarde viria a ser o cavaquistão, no centro do Portugal rural e religioso, não muito distante da Santa Comba Dão de Salazar (separa-as a serra do Caramulo, pouco mais) nas festas de Oliveira de Frades, um dos principais cantores contratados em 1972 era José Jorge Letria, bem mais explícito que José Afonso no seu alinhamento político e partidário. Sei porque me lembro: eu tinha 12 anos, sei que tinha de ser em 1972 porque foi o ano em que passei férias por aquelas bandas (eu vivia em Moçambique) e porque no fim da actuação foi para casa da minha avó, pela mão de um dos meus primos - provavelmente um dos mordomos da festa - de quem era amigo.
Note-se que José Jorge Letria foi para a casa da minha avó, que era salazarista não praticante por horror ao que tinha vivido antes do Estado Novo, em que a geração dos meus pais era conservadora e em que havia bastantes esquerdistas na geração mais nova. Ainda assim, gente de uma burguesia com fortes raízes rurais.
Sem grande surpresa, ainda recentemente Pacheco Pereira referiu o nome mais martirizado pela censura do Estado Novo, José Vilhena. Com a excepção do Partido Comunista (que nunca lutou por liberdade coisa nenhuma, lutou contra uma ditadura, o que é bom, mas para a substituir por outra ditadura, por mais que se pretendesse que fosse da maioria, o proletariado) e respectivos "compagnos de route", o regime sempre esteve mais preocupado com a moral que com a divergência política (por isso a quantidade de quadros do antigo regime que rapidamente são reciclados pela Democracia, como Almeida Santos, Veiga Simão, Vítor Constâncio, João Cravinho, etc.. Quadros não no sentido de serem apoiantes do regime, mas de serem pessoas que pessoal e profissionalmente prosperaram sem grande problema durante o regime, estando perto das fontes de poder).
Há, no entanto, nesta burguesia relativamente recente - há um ramo da família em que não é tão recente esse estatuto - uma memória muito clara do que era o país antes do Estado Novo e nos primeiros tempos do Estado Novo, até à Segunda Guerra.
Memória que também havia nos trabalhadores que fugiam dos campos, uns para o mundo urbano português, progressivamente mais industrializado, outros para a Europa do pós-guerra (como antes tinham fugido para o Brasil, até à crise dos anos vinte e trinta).
Havia uma consciência clara de que, por difíceis que fossem as suas condições de vida, e eram, viviam melhor do que os seus pais e avós.
Para grande parte destas pessoas, o regime era claramente irrelevante, não mexeriam, como não mexeram, um dedo para o defender, mas também não estavam dispostos a enfrentar politicamente o regime, para lá de umas manifestações mais ou menos folclóricas de oposição ou distanciamento.
No entanto, por mais absurdo que seja, mesmo negado pela historiografia contemporânea, o discurso sobre o 24 de Abril continua maniqueísta e preso aos interesses políticos de quem pretende que o 25 de Abril foi uma acção da esquerda contra a direita e os seus interesses, ao ponto de ainda haver quem queira negar o papel de Spínola, Sanches Osório ou Galvão de Melo, por exemplo, no 25 de Abril.
Daí a situação com que comecei o post: uma publicação etnográfica, por um músico reconhecido pelo seu trabalho de recolha etnográfica, por datado que seja, é reeditada e há quem ache isso uma tristeza por não se aproveitar a ocasião para, mais uma vez, enquadrar a dita publicação no discurso oficial sobre o 24 de Abril.
Mesmo que tenha sido durante o Estado Novo que Portugal tenha deixado de ser o último país rural da Europa - isto é, aqueles em que o PIB do sector primário é maior que o PIB do sector secundário - haverá sempre alguém que seja incapaz de distinguir a ideologia ruralista do Estado Novo do mundo real em que existiu.
O Estado Novo era uma ditadura, com censura, com polícia política, limitador das liberdades (por exemplo, no concerto de José Afonso que já citei, as músicas que cantou tiveram de ser previamente aprovadas, o que é inaceitável, mesmo que músicas como a Grândola, que na altura não tinha o peso simbólico que veio a ter, mas que é politicamente muito clara, tenham sido aprovadas) e sem legitimidade por ter a origem do seu poder nas armas e não no consentimento do povo.
É bom que celebremos o 25 de Abril por isso mesmo, por ter acabado com um regime ilegítimo e ter retomado o princípio de que o exercício do poder depende do consentimento das pessoas comuns.
Só que para fazer essa celebração não é preciso, parece-me mesmo contraproducente, continuar com o discurso oficial sobre o 24 de Abril, que tem mistificações a mais e investigação histórica séria a menos.
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