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Assumido monárquico, católico, conservador e sportinguista, com muita experiência e larga ascendência de derrotados pela história pelo menos desde o século xviii, estou há muito habituado ao sentimento de perdedor. Mesmo assim, ainda é com apreensão que leio no Diário de Notícias o ameaçador prognóstico do fim da gravata, esse ancestral e elegante artefacto de moda masculina. É uma questão de “eficiência energética”, dizem eles... Naturalmente estou preparado para resistir, e se o seu comércio vier um dia a ser proibido, julgo possuir bastantes para muitos anos de luta.
Sobrevivente nesta sociedade massificada e igualitária, considero a gravata um dos últimos redutos da distinção no trajar masculino formal, um subtil e gracioso indício da personalidade de quem a usa. Durante a semana de trabalho gosto muito de a vestir com um discreto fatinho de bom corte, escolhida a preceito, e que com gosto irei despir ao final do dia num impulso libertador. Do mesmo modo, agrada-me ao fim-de-semana usar roupa descontraída, umas calças coçadas e umas sapatilhas. Cada coisa no seu lugar, que para mim a roupa é um espelho da alma e das circunstâncias que vivo: por exemplo, detesto às quartas-feiras europeias ir enfarpelado ver a bola, capricho que me obriga a trazer uma muda de roupa para Lisboa.
Aqui nas Amoreiras, onde trabalho, há muito que observo a moda da “camisa aberta” afectar principalmente os mais jovens executivos. Parece-me que essa adesão provém não só da necessidade de se sentirem aceites, mas duma clara inexperiência de vida, que não lhes ensinou a técnica de, na loja, provar uma camisa com um colarinho de medidas adequadas, que não os estrafegue se estiver abotoado. Assim, até acredito que se sintam muito in, democráticos e ecológicos, encafuados em fatos de marca, com camisa de gola aberta, mais parecendo empregados de restaurante sem laçarote, como quando estão a conferir a caixa ou a fazer a mise en place para o turno seguinte.
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