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Emoções básicas (3)

por Luís Naves, em 29.07.08

Num post abaixo, o João Villalobos fez uma crítica a um texto do Henrique Raposo, do blog Atlântico. E recebeu uma resposta curiosa. Estavam os dois a falar de corrupção, mas parece que o Henrique vê em Portugal uma singularidade. Diz ele: “Os partidos colonizaram Portugal, colonizaram o sistema político”; “sistema partidário não pode ser sinónimo de sistema político”; “numa democracia liberal decente, os partidos actuam num sistema político. Não são donos dele. Em Portugal, não é assim”.

A resposta do Henrique Raposo parte de uma ideia que me parece errada: temos mais corrupção do que os outros porque o nosso sistema é diferente. O Henrique até faz a extraordinária observação de que temos partidos a mais.

Parece-me que é ao contrário em ambos os casos: temos partidos a menos e o nosso sistema não difere daquele que existe na maioria dos países.

Se houvesse mais partidos, havia coligações (como na Alemanha) e não seria preciso maioria absoluta, uma tentação.

Na realidade, temos um sistema político bipartidário, igual ao dos vizinhos, incluindo EUA, Reino Unido (que sendo quase tri, é na realidade bi), Espanha (onde as autonomias alteram essa divisão ao meio) ou Suécia. Portugal não tem nada de especial na matéria e apenas imitou os outros.

As carreiras políticas fazem-se através de partidos. É assim na democracia. Há poucos independentes nos EUA e um candidato independente não conseguirá ser eleito presidente. No Irão, para ser líder, basta saber muito de teologia.

Em todas as democracias parlamentares, os partidos são donos do sistema político. Incluindo nos EUA, onde a disciplina partidária é menor do que na Europa. Os partidos políticos têm grande controlo sobre a imprensa, a economia e a cultura. Em todos estes países se discute o financiamento dos partidos e a corrupção.

Não há singularidade portuguesa e se o país é mais corrupto, as causas serão outras, nomeadamente a forma como o eleitorado desculpa abusos. Há um aspecto cultural: os portugueses estão dispostos a perdoar. Na Suécia, uma ministra demitiu-se por usar o cartão de crédito do Estado para comprar fraldas para o filho; em Portugal, isso era impossível. No máximo, haveria um encolher de ombros.

 


5 comentários

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De José Manuel Faria a 29.07.2008 às 12:04

Um post 5 estrelas. É mesmo isso os portugueses encolhem os ombros.
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De Miguel Ferreira a 29.07.2008 às 13:42

"As carreiras políticas fazem-se através de partidos", mas por ser "assim na democracia", isso não quererá dizer que seja o melhor.
Quanto a mim um dos problemas disso, é que esse factor promove mais um conjunto de lambe botas e cunhistas do que politicos a sério [não que não os hajam, eventualmente...]
É certo que um encolher os ombros faz muito pela continuação da situação, no entanto a falta de vontade daqueles que estão habituados a xafurdar na porcaria e que por interesse ou incompetencia não fazem nada, também é dramática e isso [em parte] advem da "partidocracia"...
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De Carlos P. Abreu a 29.07.2008 às 13:52

Não entendo por que motivo o "Atlântico" se obstina em manter como colaborador alguém que tem um conflito insanável com o Português, além de lhe faltar qualquer ideia, como é o caso do sr. Raposo.
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De Fernanda Valente a 29.07.2008 às 14:32

«Em todas as democracias parlamentares, os partidos são donos do sistema político»

Concordo com o Henrique Raposo (sem fazer a mínima ideia de quem se trata).
Por os partidos se julgarem "donos do sistema político", ao invés de "pensarem" como parte actuante de um sistema colocado ao serviço de e para os cidadãos, é que subsistem as guerras intestinas entre partidos com o objectivo da conquista do poder.
O partido que se julga "dono do sistema político" é sobretudo um partido formado na escola do despotismo que legitima a supressão das liberdades individuais.
Não existem "democracias parlamentares", porque, pura e simplesmente, os eleitores não elegem os deputados da sua confiança. Elegem pessoas de quem nunca ouviram falar, ou se são do conhecimento público, rapidamente os vêem substituídos por outros, ilustres desconhecidos que raramente intervêm na Assembleia; só lá estão para fazer número.

«Não há singularidade portuguesa e se o país é mais corrupto, as causas serão outras, nomeadamente a forma como o eleitorado desculpa abusos»

Se o eleitorado se munisse de uma arma de acusação, no cenário legislativo português, só lhe restaria a opção BE ou PCP. Até haver ainda não foram acusados de nada, no plano da gestão danosa da coisa pública; talvez porque ainda não lhes tivesse sido dada essa oportunidade!
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De maria a 29.07.2008 às 15:12

Não é bem a capacidade de perdoar do povo , é mais bem a falta de vergonha dos prevaricadores. E o clima de completa impunidade que foram construindo . Que é que o povo podia fazer ? matá-los? fazer manifestações até que os corruptos e incompetentes se demitissem? fazer greve aos impostos?
O povo está é resignado. Já percebeu que nada pode fazer contra uma escumalha sem quaisquer princípios e valores que se tapam uns aos outros. Naquele meio ninguém está interessado em denunciar ou castigar seja quem for , pois todos têm os seus pecados e negociatas. Por isso ninguém honesto consegue abrir caminho na política : é logo posto de lado , a sua fidelidade ao poder não é a requerida , não se pode usar "a troca por troca".
E se não acreditam , perguntem ao Cravinho.
Resta a esperança de que a resignação , mais ano menos ano , ceda o lugar à ira completamente justificada e que já está atrasada uns 20 anos.

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