por Filipa Martins, em 28.07.08
- Em qualquer caso as minhas confissões serão feitas, se as quiser ouvir. A vantagem é que são breves, ou, como aprendi quando me confessava, respeitando os quatro “Cs”: claras, concisas, concretas e completas.
As narrativas têm de ter um começo e a presente poderia ter sido inaugurada com a declaração que se acaba de fazer. Não tenho a soberba de admitir que tudo o que foi escrito é apoucado e sem sentido e o que se segue esclarecedor e consequente. À ausência de soberba junta-se, quem sabe, pouca coragem.
Um homem quando soma décadas julga-se sábio. Sensação de falsa segurança que o deixa incauto. É, portanto, a história de um homem colhido pela surpresa a que se segue. A ofensiva, dotada da rapidez felina e da suavidade da passagem do tempo, não tem origem renal ou pulmonar, apesar de a respiração poder ser momentaneamente arrítmica. Dá-se, contudo, no músculo que os poetas garantem tornar-se inexpugnável com o passar do tempo. Gente pouco credível.
O homem de que vos falo era confesso amante das ciências exactas, habituado ao lugar das coisas, circulava entre divisões com funções catalogadas mentalmente. As regras nasciam com naturalidade própria, não sendo impostas ou ditatoriais, mas sendo sempre respeitadas. Os objectos dessas salas, de épocas que pululam na linha temporal, interagiam com a memória deste homem. Paciência houvesse para o detalhe de prosa, e à boa maneira académica as peças eram descritas com a paciência resgatada do Museu de Arte Antiga. Este discurso de pormenor escondia uma característica menos nobre, mas humana. O conhecimento adquirido sobre as coisas só se exercia em pleno quando associado à posse das mesmas. Nada que se tornasse um problema para este homem, que longe estava de ter parcos recursos. A vertigem da compra era calculada e a partir daí a retórica sobre o objecto encetada.
Ninguém lhe merecia tanto detalhe de prosa. A surpresa colheu o homem quando ele se viu capaz de falar de alguém como falava das coisas. E ao contrário das coisas, esse alguém nem sempre se deixava possuir. Foi, desta forma, que foi privado do objecto de retórica, de uma ou outra faculdade racional e dos freios do comportamento. O impossível tinha acontecido.