por Pedro Correia, em 27.07.08

BRINCADEIRAS PERIGOSAS O
Tinham-me avisado que devia evitá-lo. E o próprio trailer do filme, que espreitei na televisão, não me seduziu minimamente. Mas arrisquei. Fiz mal: é a película mais obscena que vi este ano. Profundamente violenta, mas sem jamais assumir a violência. Cobarde, esquarteja corpos fora do nosso campo visual. Os actos violentos estão lá todos, mas o cineasta austríaco vai piscando um olho ao espectador como se avisasse que afinal nada daquilo é a sério. Os dois adolescentes que matam por prazer. A pulsão gratuita pelo homicídio. A caução intelectualóide do vazio existencial para tentar dar consistência a um argumento totalmente inverosímil. A manifesta falta de qualidade das interpretações. A bela Naomi Watts (também produtora do filme, o que me parece quase inconcebível) no papel mais imbecil da sua carreira.
A “família ideal”, caricaturada por um realizador que parece sentir prazer em triturar a “moral burguesa”, é uma miragem dissolvida ao primeiro golpe de uma faca. Quanto tudo termina, fica-nos uma sensação de náusea. Brincadeiras Perigosas é afinal um caso sério. De mistificação – do primeiro ao último fotograma.
Funny Games, 2008.
De Michael Haneke. Com Naomi Watts e Tim Roth.