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Um homem já com lugar na História

por Pedro Correia, em 21.07.08

A imagem, que veio reproduzida sexta-feira nas capas de todos os jornais nacionais espanhóis, é aparentemente banal: dois homens, fotografados de costas, caminham num jardim bem cuidado. Um deles, de casaco, põe a mão por cima do ombro do outro, em mangas de camisa.
Dito assim, sem pormenores adicionais, parece quase estranho que tal fotografia tenha merecido tanto destaque. Falta acrescentar o nome de ambos: o homem mais alto, à esquerda, é o rei de Espanha, Juan Carlos I de Borbón; o homem que caminha a seu lado é Adolfo Suárez, que o monarca designou primeiro-ministro numa fase dramática da vida colectiva espanhola, no período imediato do pós-franquismo, em que chegou a temer-se a eclosão de uma nova guerra civil, tão sangrenta como a dos anos 30.
A estes dois homens se deve o êxito da transição espanhola, que passou da ditadura para a democracia sem ónus financeiro nem rasto de sangue. Juan Carlos foi a referência máxima de estabilidade nesse período, Adolfo Suárez foi o homem audaz que soube interpretar os sinais históricos. Fundaram um regime, que subsiste até hoje. Lançaram os alicerces da Espanha moderna – estado próspero e progressivo, invejado em tantas latitudes.
Suárez, então o homem certo no lugar certo, está gravemente doente há vários anos: afectado pela doença de Alzheimer, deixou de reconhecer até os familiares mais chegados, tornou-se incapaz de alimentar uma conversa coerente e inteligível. “No reconoció al Rey, pero notó su cariño”, revelou o filho mais velho, Adolfo Suárez Illana, o autor da foto que comoveu milhões de espanhóis. Visto de costas, ladeando o monarca, Adolfo pai mantém a elegância e o garbo de sempre. Parecem ambos entretidos em amena cavaqueira. Uma prova – mais uma – de que as aparências iludem.
Também eu me comovi ao ver esta imagem: Adolfo Suárez foi um dos raros políticos que sempre admirei. O destino pregou-lhe uma partida cruel: ainda está entre nós, mas é como se já não estivesse. O intelecto fugiu-lhe: sobram-lhe momentos de genuína emoção, como garante o filho. A visita do rei, que lhe entregou a condecoração mais alta de Espanha, terá sido um desses momentos no crepúsculo da vida deste político que pela sua acção destemida soube conquistar um lugar na História.



13 comentários

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De Cristina Ribeiro a 21.07.2008 às 23:21

Comovente mesmo. Os espanhóis devem-lhe tanto...
Uma dupla perfeita.
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De tiago menor a 21.07.2008 às 23:38

Um grande Homem, Suarez!
Tivesse Portugal um homem desta estirpe! Infelizmente, os políticos que se alcandoram ao poder neste rectângulo da Península, são tacanhos, muito limitados, não sabem voar alto - e, o pior de tudo, põem os seus mesquinhos interesses privados e partidários acima dos superiores interesses do País...!
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De João Pedro a 22.07.2008 às 00:43

Infelizmente Adolfo Suarez está sim há já uns anos. Ao que parece, a morte da mulher e da filha com pouco tempo de intervalo terá acelerado o processo degenerativo.
É um daqueles de quem se pode legitimamente dizer que "já não há políticos assim".
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De Once a 22.07.2008 às 09:26

Comovente.
Não só a história como a sua singela homenagem.
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De Anónimo a 22.07.2008 às 10:03

A ler também a coluna de Carlos Colón, no Diário de Sevilha de ontem:

http://www.diariodesevilla.es/article/opinion/185420/la/fotografia.html
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De nuno granja a 22.07.2008 às 10:26

fiquei comovido

uma foto histórica com uma carga emocional incrivel

existe sempre uma forma digna de contar uma história e esta foto é a prova disso

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De Ana Vidal a 22.07.2008 às 10:33

Impressionante o poder de uma imagem, sobretudo quando apoiada por tão bonitas palavras. Suarez merece a eterna homenagem de um país que lhe deve a paz. E também a deve ao Rei, que soube gerir com inteligência e coragem a transição do regime, em época de ânimos exaltados. Gostei, Pedro.
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De Tiago Moreira Ramalho a 22.07.2008 às 11:45

Isto pode soar estranho. Nunca tinha ouvido falar de Suárez, mas acabei de ler o texto todo arrepiado e com os olhos molhados. O texto e a foto são realmente tocantes.
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De Pedro Correia a 22.07.2008 às 21:44

Obrigado, Tiago. Abraço
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De cb a 22.07.2008 às 11:56

Um HOMEM a quem se deve muito do que é hoje a Espanha e não só. O que seria a Ibéria hoje se a coragem moral, politica e fisica daquele homem não existisse ?
A não esquecer nunca a sua coragem fisica quando no Parlamento e perante a ameaça de um Tejero Molina (Comandante da Guardia Civil) de arma em punho, que fez atirar todos os deputados para o chão, se manteve imperturbávelmente sentado no seu lugar, colocando em risco a própria vida perante um fanático enraivecido.
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De Teresa Ribeiro a 22.07.2008 às 13:32

Vou roubar-te um título para comentar este post: "Gostei de ler" :)))

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