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Algumas delas mandaram neles

por Pedro Correia, em 15.07.08
Todo o século XX foi atravessado pelas mais sórdidas ditaduras de que há memória. Os regimes totalitários estão amplamente dissecados por historiadores e politólogos. Uma área, no entanto, permanece obscura: até que ponto as mulheres desses ditadores foram decisivas na estratégia de conquista e consolidação de um poder ilegítimo e a vários títulos imoral? É a esta pergunta que se propõe responder a jornalista alemã Antje Windgassen na sua obra Casadas com o Poder, agora traduzida em Portugal.
A resposta é afirmativa na maior parte dos casos: muitas destas mulheres eram mais ambiciosas e tinham menos escrúpulos do que os maridos que tiranizaram povos inteiros. Sem elas, muito provavelmente a História ter-se-ia escrito de forma diferente.
Alguns exemplos?
Jiang Qing (1913-91), mulher de Mao Tsé-Tung, teve um papel decisivo no endurecimento da tirania comunista na China. Instigou Mao a livrar-se dos dirigentes moderados e a lançar a “Revolução Cultural” que abalou todas as estruturas sociais do velho Império do Meio, mergulhando o país no caos em nome da luta contra a burguesia enquanto em privado desmentia o que proclamava em público: “Possuía diversas casas, cavalos para equitação e um avião especial.”
Elena Ceaucescu (1916-89) manobrava por completo o marido, inseguro e tímido: a ela se deve o progressivo desvio demencial da ditadura de Nicolae Ceaucescu, autoproclamado “Titã dos Titãs, o filho mais laborioso de todos os trabalhadores da Roménia”, entre outros mimos propagandísticos. Durante os 24 anos deste consulado, ninguém era mais detestado do que ela. “A revolta dos romenos não teve limites quando se soube, depois da morte dos Ceaucescu, como tinha sido opulento e bizarro o seu estilo de vida”, escreve Windgassen.
Carmen Polo (1898-1988), oriunda da aristocracia asturiana, foi instrumental na transformação do marido, Francisco Franco, com origens sociais bem mais modestas. O clericalismo quase medieval que caracterizou a longa ditadura franquista tinha a marca da esposa do generalíssimo, que o converteu num crente fervoroso, convicto de que tinha sido ungido por Deus para redimir a pátria. Algo semelhante se passou na Argentina com Eva Duarte (1919-1952), a quase lendária Evita, esposa do general Juan Domingo Perón. Com uma diferença: Franco dizia-se ao serviço de Deus, Perón (amigo e aliado do generalíssimo) reservava a retórica mística que lhe ensinara a mulher para se proclamar ao serviço das “classes trabalhadoras” enquanto acolhia criminosos de guerra nazis.
Algumas destas mulheres, como Evita e Jiang Qing, tinham sido actrizes frustradas antes de subirem à ribalta política. Uma das mais influentes era Clara Petacci (1912-45), amante de Mussolini, que se manteve até ao fim com o ditador italiano, acabando executada ao lado dele. Bem diferente foi o destino de Jovanka Broz Tito (nascida em 1924): primeira dama da Jugoslávia durante um quarto de século, entre 1952 e 1977, acabou por ser repudiada pelo velho marechal que governou os Balcãs com mão de ferro. Ainda hoje se ignora porquê.
Casadas com o Poder, com edição portuguesa da Quetzal, tem várias omissões: desde logo Eva Braun, a favorita de Hitler. A autora justifica-a por já ter sido mencionada em “inúmeras publicações ao longo dos anos”. Fraco pretexto, tal como o invocado para o facto de Imelda Marcos e Lucia Hiriat – mulher de Augusto Pinochet – não constarem desta obra: “Nestes casos a investigação sobre a vida por trás das biografias oficiais ou retocadas não foi produtiva o suficiente, o que lamento.” Também nós, leitores.
Mas este livro já valia a pena com o capítulo dedicado às três mulheres de Estaline – todas marcadas pela tragédia. Jekaterina Swanidse (1881-1907) morreu só, virtualmente abandonada pelo futuro czar vermelho. Nadjeshda Allilujewa (1900-32) ter-se-á suicidado após uma das múltiplas discussões com o ditador, de quem se tinha afastado politicamente: mantém-se a suspeita de que a pode ter morto. Sobre a terceira, Rosa Kaganovitsch (nascida em 1906), paira a sombra de um mistério ainda irresolúvel: saiu de cena por completo em 1935, dois anos após o casamento, e nunca mais foi vista. O que lhe teria acontecido?
Até nisto Estaline era diferente de outros tiranos: não admitia a intromissão feminina nos assuntos do Estado e do partido, que ele sempre tratou como assuntos privados. Uma excepção que afinal confirma a regra.



6 comentários

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De Mialgia de Esforço a 15.07.2008 às 22:20

Já tinha visto este livro, mas não senti vontade de o comprar. Depois de ler esta posta, mudei de opinião. A culpa é sua, Pedro.
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De Anónimo a 16.07.2008 às 00:14

Por detrás de um grande monstro está sempre uma grande monstra
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De TricCristão a 16.07.2008 às 02:14

Deus escreve direito por linhas tortas...
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De nuno granja a 16.07.2008 às 10:26

obrigado pela dica

mais um aspecto em que os extremos se tocam o que reforça a minha convicção de que entre uma ditadura de esquerda e uma de direita há muito mais em comum do que à partida seria imaginavél

o tio Stalin resolveu ser a excepção que confirma a regra, usando no entanto os célebres métodos que foram regra no seu consulado

obrigado mais uma vez pela chamada de atenção para este "pormenor" da história
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De Pedro Correia a 16.07.2008 às 13:17

Agradeço os vossos comentários. O livro, como salientei, tem limitações que me parecem óbvias - falta Eva Braun, e também figuras como as mulheres de Pinochet ou Marcos. Mas é interessante para verificarmos quem dominava os cordelinhos em muitos dos casos referidos. O exemplo da mulher de Ceaucescu é um dos mais significativos. A duplicidade de Mussolini também é interessante, tal como a sede de ascensão social de várias delas. Mas o capítulo mais interessante é sem dúvida o das três mulheres de Estaline.
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De Ana Vidal a 17.07.2008 às 22:12

Obrigada pela sugestão e pelo resumo, Pedro. Parece-me bem interessante olhar os bastidores domésticos destes ditadores. Vou procurar o livro.

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