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Os donos do mundo

por Teresa Ribeiro, em 30.06.08

 

A discussão sobre quebra de disciplina e de valores nas escolas está ao rubro em França, depois de um professor ter dado um estalo a um aluno que o chamou de imbecil na sala de aula. O caso ocorreu em Berlaimont, uma cidade do norte do país, e ontem foi conhecido o seu desfecho na justiça. O professor, José Laboureur, de 49 anos, foi julgado e punido com 800 euros de multa e o aluno castigado com três dias de suspensão e transferência de escola.
Há 30 anos a leccionar, José Laboureur alegou que nunca um aluno lhe tinha falado assim. Porém, a promotoria não foi sensível à sua argumentação, classificando a agressão como “uma cena de violência onde houve vontade de humilhação”. O aluno em causa tem apenas onze anos.
De acordo com a lei francesa, este professor arriscou cinco anos de prisão. O facto de ter sido considerado pela generalidade dos encarregados de educação um bom professor e de não ter, na sua já extensa carreira, um precedente que envolvesse agressão, contribuiu para que o estalo lhe ficasse apenas em 800 euros.
À partida, baseando-me no que consta através da Imprensa sobre este assunto, parece-me que a justiça francesa não se saiu mal. A não ser em legítima defesa, não se pode aceitar que um professor chegue a vias de facto. Já o discurso da promotoria sobre a “vontade de humilhação” de José Laboureur não me soa nada bem. Para ser mais precisa, irrita-me. Porque trai o espírito que por cá também se usa - incensado como politicamente correcto, desde que as novas correntes da pedagogia vieram subverter a tradicional relação de poder entre professor e aluno - e que confere às crianças um estatuto de privilégio.
Vontade de humilhar? Então e como podemos classificar a atitude do rapazinho? O que vai na cabeça de um miúdo de onze anos quando decide desafiar a autoridade do professor durante a aula, chamando-lhe imbecil perante a turma?
Ungidas como estrelas da companhia, as crianças têm que ser protegidas, compreendidas, seduzidas, ensinadas e educadas pelos professores. Até prova em contrário são sempre o elo mais fraco, as vítimas do sistema e da sociedade. Nesta perspectiva, os professores existem na escola para as servir.
Como é que uma criança de onze anos ousa, em plena aula, chamar imbecil ao seu professor? É justamente porque já intuiu toda esta relação de forças e sabe que está em vantagem. Esta parte do “programa” não é preciso ensinar. Eles aprendem-na sozinhos, por instinto, e desde a mais tenra idade.

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9 comentários

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De Anónimo a 30.06.2008 às 12:20

Teresa, o aluno tem 11 anos, o professor tem quarenta e nove; o aluno é um “subordinado”, o professor é a autoridade dentro da sala de aula. Segue-se que a atitude do professor é muito mais censurável do que a do aluno. O professor humilhou objectivamente alguém, ainda por cima uma criança, que tinha a seu cargo. Se foi ou não voluntário, eu não sei. Mas muito me estranha que se possa aceitar que algum professor responsável bata por instinto ou reflexo condicionado. Foi correcta a decisão da promotoria. Aliás, achei pouco a multa de oitocentos euros.
Enjoa-me esta moda recente do discurso da “autoridade” e da “disciplina”, tanto como desde há muito também me enjoa o discurso contrário da desresponsabilização do coitadinho do aluno.
E sim, eu acho que “as crianças têm que ser protegidas, compreendidas, seduzidas, ensinadas e educadas pelos professores”. E postas na ordem, também, coisa que obviamente não é incompatível com as primeiras. Qualquer professor competente o sabe. É difícil ensinar? Pois é.

Luis
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De Anónimo a 30.06.2008 às 12:32

Qualquer dia ninguém mais quererá dar aulas, nem em França nem em Portugal.

João
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De Anónimo a 30.06.2008 às 12:44

Teresa, pense um pouco. Após 30 anos de serviço e com uma folha de serviços irrepreensível, você é insultada e humilhada numa sala de aula. Tem um gesto irreflectido, embora muito compreensível, e fica com a carreira arruinada. O petiz de 11 anos ficou a gabarolar-se e tornou-se o herói de toda a turma. O mau exemplo prolifera e quantos professores passarão a ser insultados depois disto e a ter que engolir os insultos?
Se fosse consigo como reagiria você?
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De Anónimo a 30.06.2008 às 15:29

Não é "compreensível" um professor bater num aluno. Mal vai uma sociedade que assim pensa.

E o professor não tem a carreira "arruinada". Muito pelo contrário, tornou-se um herói de França (seja da parte dos sindicatos, seja da parte das associações de pais) e gosta de se apresentar assim. Para se saber um pouco mais, deixo aqui um link, com factos sobre o novo herói da Autoridade, que gostaria que aqui fossem comentados:

http://www.et-pourtant.org/actualites/jose-laboureur-le-prof-cogneur-de-berlaimont-veut-son-proces.html

Luis
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De Anónimo a 30.06.2008 às 15:36

Um pouco mais:


http://209.85.135.104/search?q=cache:jxSBsPmppz0J:lehavredathena.blog.mongenie.com/index.php%3Fidblogp%3D561719+Laboureur+Berlaimont&hl=pt-PT&ct=clnk&cd=25&gl=pt

Talvez fique um pouco mais equilibrada, quem sabe, esta visão agora tão na moda do professor Herói da Autoridade versus Aluno Deliquente

Luis
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De mike a 30.06.2008 às 21:33

Estou siderado com os comentários! E se no dia seguinte, em vez de um aluno fossem 10? Não seriam concerteza 10 estalos, que o salário do professor não pagaria. Quiçá a justiça o despedisse por incompetência, ao fim de 30 anos a leccionar. Bonito... sim senhor. No meu tempo, se eu levasse uma reguada, os meus pais eram chamados à escola e eu tremia só de pensar nas consequências em casa.
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De Teresa Ribeiro a 30.06.2008 às 22:51

Luís: Claro que não posso aprovar a agressão do professor, mas não me enjoa nada o discurso da autoridade e da disciplina, imprescindíveis numa boa relação entre educadores e educandos. Concordo quando diz que compreender, seduzir, ensinar, etc não é incompatível com a autoridade e disciplina, mas o problema é que a orientação pedagógica defendida pelas bem pensâncias que têm ditado as políticas da Educação parece vir em sentido contrário.
Claro que é difícil ensinar e que faz parte das competências dos professores saber impor o respeito, mas quando se cria uma cultura que transmite aos alunos a percepção de que aos professores resta pouca margem de manobra para imporem a sua autoridade, estão criadas as condições para que estas situações se multipliquem, como aliás, se tem verificado.
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De Anónimo a 01.07.2008 às 09:44

Teresa, começa por dizer que não pode aprovar a atitude do professor e acaba a dizer que os professores (aquele professor) têm pouca margem de manobra para agirem de maneira diferente. Como ficamos? Vamos então assentar que aquele professor não tinha alternativa? Leu o relatório do procurador?
Quanto ao enjoo que eu disse ter acerca do actual discurso da "autoridade" é de uma certa visão da autoridade de que eu falo, aquela visão que se nega a ver quão errada é a atitude desse professor em concreto e de milhares de outras atitudes semelhantes. É o coro de aclamação e desagravo do coitado daquele professor, Herói da Autoridade, vitima de um energúmeno, e que foi obrigado a bater-lhe, com abaixo assinados de dezenas de milhares de assinaturas (seguindo-se uma estátua, concerteza). É a relativização da atitude daquele professor, atitude essa que é o exacto oposto do que deve ser o exercício da autoridade. É, finalmente, a cantilena do "antigamente é que era bom".
Quanto ao resto, a necessidade de autoridade e discilina, concordo consigo e nunca disse o contrário. Apenas acrescento que ensinar não é apenas isso, muito pelo contrário.

Luis
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De Teresa Ribeiro a 30.06.2008 às 22:58

Mike: Quando éramos miúdos não nos passava pela cabeça tratar assim os professores porque era outra a cultura vigente. É precisamente esse o meu ponto.

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