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De mau gosto o mau gosto*

por Corta-fitas, em 30.11.06
Ou li muito mal a crónica de hoje de Pacheco Pereira ou lhe deu para transformar-se em Maria Filomena Mónica. Escreve ele que «os filhos dos deserdados das cheias, os filhos dos operários do Barreiro, os filhos das criadas de servir, os filhos dos emigrantes de Champigny, os filhos da "canalha" anarco-sindicalista e faquista de Âlcantara mandam no consumo» (...) «Entraram pelos cafés dentro e transformaram-nos em snack-bars e em lanchonetes, entraram pelas televisões e querem os reality shows». «O que sobra?» de acordo com PP, é «uma nova forma de elitismo, a única que salva, no sentido bíblico, a criação».
Não percebo a associação feita entre os «filhos das criadas» e o descalabro cultural como se o berço determinasse o programa que se vê ou o gosto pelos azulejos. Nem sequer percebo se Pacheco Pereira fala a sério ou não, quando escreve sobre o tempo em que «a elite, que éramos nós (ele e Jorge Silva Melo e outros), decidia em questões de bom senso e bom gosto».
Parece-me é que a elite continua a decidir. Assumiu foi que o seu bom gosto é sustentado pelo que factura servindo o mínimo denominador comum que é o mau gosto da maioria. Agora se essa maioria é filha deste ou daquele, isso pede um trabalho de campo sociológico capaz de surpreender. Conheço muito boa gente no Restelo para quem a Literatura é «o Paulo Coelho». Os pais, no entanto, eram servidos à mesa. E conheço também filhos de «operários do Barreiro» que tiraram cursos e lêem as crónicas de Pacheco Pereira.
*Título roubado a Caetano Veloso.

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1 comentário

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De Sofia Loureiro dos Santos a 01.12.2006 às 11:05

João Villalobos: parece-me que, de facto, leu mal o artigo de Pacheco Pereira! Ou então fui eu que não o entendi. Pacheco Pereira fez uma análise sociológica do Portugal de 1960, das elites intelectuais dessa época, de que ele fez parte, do total desconhecimento que essas elites tinham da realidade, da evolução democrática da sociedade, que foi num sentido diferente do que ele e esses intelectuais queriam. Ou seja, o "povo" não era bem aquilo que eles achavam que devia ser. E acaba a considerar que teve um papel activo nessa evolução democrática, congratulando-se por isso, mesmo que a sociedade actual não seja o que ele idealizava. Pelo menos, foi assim que interpretei o artigo de Pacheco Pereira, do qual gostei bastante.

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