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Rita Barata Silvério

por João Villalobos, em 20.06.08

 

 

Cristiano Ronaldo

 

Acabei de ler a reportagem de duas páginas sobre o Cristiano Ronaldo no El País. Tem graça como os perfis jornalísticos das estrelas do momento tendem a mostrar virtudes comuns a qualquer pessoa de bem como exclusivas dos heróis desta nossa década (alguém se atreve a falar de século?) de fortunas imediatas e de gente famosa graças a séries de televisão de três temporadas e duas capas no suplemento de domingo do jornal. A culpa desta elevação aos altares da perfeição, imagino, não deve nem ser do rapaz, cujo único dom (e que dom!) é jogar maravilhosamente ao futebol e saber que este era o único meio de fugir da miséria onde o pariram, da vida com o pai alcoólico, da casa a precisar de cimento e poder tirar essa mãe da cozinha e o irmão da droga, e ajudar as irmãs, enfim, a ser alguma coisa na vida. Nem todos os donos de um talento portentoso têm essa força de vontade ou a valentia para, roçando o analfabetismo, sair lá do cu de Judas e ir para uma Lisboa inóspita, para arrancar a família às urtigas para que estavam destinados.

Mas lá está ele, nas páginas principais do El Pais, de chupa-chupa na boca, com as sobrancelhas arranjadas e uns brutos de uns brilhantes nas orelhas, símbolo de um novo Portugal jovem e que ganha muito dinheiro no estrangeiro, de um Portugal feito a si próprio, mas que não passa da barreira do novo-riquismo e que, por tanto, não me orgulha tanto como deveria. E isso irrita-me. Porque eu, palavra de honra, admiro o chavalo e acho que é muito mais esperto do que lhe querem fazer parecer e que se tem jipe caro, gaja boa e diamante de quilo e meio é porque o merece e se fartou de trabalhar para isso, caramba!
Talvez o erro esteja nos motivos da elevação, das honras, que a mim não me encaixam. Ao Cristiano não o contrataram para representar um banco pelo amor incondicional que sente pela família, o orgulho nas origens humildes, ou porque representa o trabalho duro, a responsabilidade por manter um determinado nível de exigência ou a fidelidade a uns valores anteriores ao êxito. Ninguém o admira pela decência que demonstrou na sua carreira. Ser boa pessoa (ou directamente não ser um cabrão que envergonha os seus à mínima que se vê como protagonista de um anúncio de calças de ganga) não parece ser razão de maravilha. Não. Os putos querem ser como o Cristiano para ter as mesmas coisas que ele, não pelo que simboliza a fuga do bairro da Quinta do Falcão. O nosso novo D. Sebastião não nos salvará pelo exemplo do trabalho bem feito, mas pela inveja da conta bancária e isso a mim diz-me muito mal dos valores, não do puto Cristiano, mas do país que pretendem que represente. Se fosse ele, deixava-me estar por Manchester, longe daqui.      
(Autora do blogue Rititi

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4 comentários

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De João Quaresma a 20.06.2008 às 15:58

Texto 5 estrelas. Parabéns. Costuma-se dizer que cada povo tem os políticos que merece. O mesmo se aplica aos seus ídolos, por muito que o rapaz não tenha culpa das razões por que admiram o seu sucesso pessoal.
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De jc a 20.06.2008 às 16:44

e depois de ter lido duas páginas inteiras sobre o cristiano ronaldo, não ficou com a terrível sensação de ter acabado de perder preciosos minutos que nunca voltará a reaver?
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 20.06.2008 às 17:39

Gostava de ter escrito isto. Razão tinha o Pedro Correia ontem, quando escrevia que a Rititi está a escrever cada vez melhor!
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De Pedro Correia a 21.06.2008 às 12:13

Pois. Querida Rititi, gostei muito de te ver por aquil. E com um texto tão bom.

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