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Meditação sobre o euro

Recente viagem de táxi proporcionou-me interessante conversa com um motorista bem informado (os nossos taxistas são famosos em todo o mundo pela qualidade das informações em primeira mão a que têm acesso e pela acutilância das suas análises). Conversámos sobre a questão europeia.

“Então, isto dos irlandeses…” disse eu, lançando o isco.

“Pois foi, não querem lá ver?”, perguntou ele, retórico.

“Uma complicação…”, insisti, puxando a linha.

“Nada será como antes, estamos em crise”, afirmou ele, com autoridade.

“Pois, uma crise”, afirmei, dando alguma folga à conversa.

“O referendo até desestabilizou a nossa equipa”, prosseguiu ele. “Preocupados com o futuro da Europa, os nossos rapazes claudicaram. E quem podia imaginar que os turcos da selecção suíça eram melhores do que os turcos da própria Turquia”.

“O árbitro austríaco também não ajudou”, disse eu, apalpando a sorte.

“O malandro do árbitro era eurocéptico. Via-se que não acreditava na construção europeia. Afinal, a Suíça nem pertence à UE. Havia ali alguma obrigação de nos ajudar”, puxou ele, quase quebrando o fio.

“E que acha que vai acontecer aos irlandeses, a partir de agora?”, arrisquei.

“Se continuam por este caminho, ainda lhes mandam lá a equipa dos holandeses para resolver o problema. Levam sete ou oito para aprenderem a não brincar com o futuro do euro”. E riu-se, com alegria malévola de quem imaginava o massacre.

“Mas esses holandeses também já se recusaram a jogar uma vez”, experimentei.

“Pois é”, disse o taxista, pensativo. “A Europa está em crise. Se os irlandeses ficam fora do campeonato, colocam  em risco futuras organizações. Pode ser a última vez que vemos o belo jogo interpretado pelas selecções nacionais, com as características bem simpáticas de cada uma. Descontentes com o facto de nunca terem ganho, os irlandeses querem estragar a festa dos outros. E se o euro acaba, a malta não tem liquidez para pagar a bandeirada”, riu-se de novo, desta vez às gargalhadas.

Por um momento, o bom motorista concentrou-se no caminho, segurando o volante, com um ar despreocupado. Depois de meditar, voltou ao tema:

“A Europa é um belo sonho: Toda a gente tem pelo menos um ou dois turcos na sua equipa. Há quem tenha um ou dois croatas. Nós optámos por manter dois sul-americanos, no caso brasileiros, que há várias equipas que também têm, nomeadamente os polacos e os turcos. Os italianos têm um argentino e os franceses até têm três franceses. Mas uma coisa é certa. Nenhuma equipa do Euro tem irlandeses. É um futebol ultrapassado. É como o austro-húngaro: viu como esses foram cilindrados pelos turco-polacos da selecção da Alemanha? Acho que Portugal também devia ter pelo menos um ou dois otomanos, para dar consistência ao meio-campo. Aquilo é que eram tempos, a equipa de janízaros de 1878. Até tenho aqui uma fotografia”, que mostrou (e que reproduzo nesta página).

“Já ouvi falar dessa equipa”, arrisquei.

“Deram cinco secos à Prússia”.

“Ah, não sabia”.

“Convém conhecer a História. E agora, estes irlandeses estragam tudo, querem fazer tabula rasa do passado. Já pensou? E se Portugal não pode disputar os próximos europeus por causa de um referendo que foi tão mal explicado? Eles que nacionalizem três brasileiros e dois turcos, para ver se têm hipóteses de vitória no futuro. Usem os regulamentos. Façam como os suíços. Arranjem um polaco, sei lá, comprem um árbitro austríaco, ou dois. Mas não estraguem as chances do futebol europeu”.

“E o que acha das chances de Portugal, contra a Alemanha?”

“Vai correr bem: eles não têm nenhum português na equipa e nós não temos nenhum alemão, portanto, os dois futebóis vão encaixar plenamente. Agora, estou preocupado com a  secção de sul-americanos deles, o que lhes vai permitir fazer muitas transições e melhorar a qualidade técnica, com  recuperações e combinações…”

Quase desejei que estivesse ali o Pedro Correia, para descodificar aquela importante declaração, mas a frase final do taxista já compreendi: “o que ninguém quer é ficar fora-de-jogo…”

“Pois é”, filosofei.

“Até aparecerem estes irlandeses que se recusam a jogar na equipa”, rematou o taxista. “Devia ser cartão vermelho directo. Nada de paninhos quentes”, vociferou.

“Também não será caso para tanto”, defendi, tentando acalmá-lo. “Os irlandeses têm direito a não querer jogar futebol. E seria um erro político excluí-los, pois isso iria criar um sistema com duas divisões, o euro a várias velocidades, que não convém a Portugal, pois um dia também vamos lá parar”.

“Vão mas é jogar basquete, esse jogo para meninas!”, concluiu o taxista, com um grito, no preciso momento em chegávamos ao meu destino: “Pois aqui está o Irish Pub. São três euros”.

Adolfo Ernesto

Ilustração: equipa de janízaros otomanos que bateu a Prússia por cinco a zero, em 1878. Esta equipa é famosa porque tinha dois servo-croatas, um magiar e um brasileiro. perdeu na final com a Grã-Bretanha, que na altura ganhava tudo.




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